segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Virando a página



Vamos virar a página e recomeçar com o Grande Pink Floyd


Wearing The Inside Out

Pink Floyd


Composição: Rick Wright/Anthony Moore

From morning to night I stayed out of sight

Didn't recognize I'd become

No more than alive I'd barely survive

In a word...overrun

Won't hear a sound

(He's curled into the corner)

From my mouth

(But still the screen is flickering)

I've spent too long

(With an endless stream of garbage to)

On the inside out

(...curse the place)

My skin is cold

(In a sea of random images)

To the human touch

(The self-destructing animal)

This bleeding heart's

(Waiting for the waves to break)

Not beating much

I murmured a vow of silence and now

I don't even hear when I think aloud

Extinguished by the light I turn on the night

Wear its darkness with an empty smile

I'm creeping back to life

My nervous system all awry

I'm wearing the inside out

[verso em 2 vozes]

Look at him now

He's paler somehow

But he's coming around

He's starting to choke

It's been so long since he spoke

Well he can have the words right from my mouth

And with these words I can see

Clear through the clouds that covered me

Just give it time then speak my name

Now we can hear ourselves again

I'm holding out

(He's standing on the threshold)

For the day

(Caught in fiery anger)

When all the clouds

(And hurled into the furnace he'll)

Have blown away

(...curse the place)

I'm with you now

(He's torn in all directions)

Can speak your name

(And still the screen is flickering)

Now we can hear

(Waiting for the flames to break)

Ourselves again

Vestido Às Avessas

De manhã até à noite eu fiquei fora de vista

Não percebi o que tinha me tornado

Não mais do que vivo eu quase nem sobrevivo

Numa palavra...ultrapassado

Não se escutará nenhum som

(Ele está encolhido no canto)

Da minha boca

(Mas ainda assim a tela está oscilando)

Eu gastei muito tempo

(Num raio sem-fim de lixo para)

Às avessas

(...amaldiçoar o lugar)

Minha pele está insensível

(Um mar de imagens aleatórias)

Ao toque humano

(O animal auto-destrutivo)

Esse coração sangrento

(Esperando o quebrar das ondas)

Não está batendo muito

Eu sussurrei um voto de silêncio e agora

Nem eu mesmo escuto quando penso em voz alta

Apagado pela luz eu acendo a noite

Visto esta escuridão com um sorriso vazio

Estou me arrastando de volta à vida

Meu sistema nervoso está todo desregulado

Eu estou às avessas

[ ... ]

Olhe para ele agora

De alguma forma está mais pálido

Mas está voltando a si

Ele está começando a engasgar

Faz tanto tempo desde que ele falou

Bem, ele pode ficar com as palavras da minha boca

E com essas palavras eu posso ver

Claramente através das nuvens que me cobriam

Apenas de um tempo então fale meu nome

Agora podemos nos ouvir novamente

Estou me escondendo

(Ele está no limiar)

Por hoje

(Preso numa raiva ardente)

Quando todas as nuvens

(E arremessado nesse inferno ele irá)

Foram sopradas para longe

(...amaldiçoar o lugar)

Estou com você agora

(Ele está ferido de todas as formas)

Posso falar seu nome

(E ainda assim a tela oscila)

Agora podemos escutar

(Esperando as chamas pegarem)

Novamente a nós mesmos


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Dilma x Serra: O que está em jogo

Este jogo de projetos alternativos volta ao mundo depois de 19 anos de massacre e pensamento único, a Direita tinha seu projeto e era incontestável, hoje ela não tem projeto, apenas administra (mal e porcamente) a crise gigantesca, mas ainda não achou um novo cabedal político e ideológico a ancorar.

À esquerda na sua longa crise letargia ainda não forjou um novo paradigma na luta contra o capital, aqueles (trotskistas) que achavam que a revolução se abria não conseguiu encontrar seus “novos/velhos Soviets” nem a Direita achará seu “Estado de Bem estar Social”.

A questão é complexa para os dois lados, buscar teoria já testada é necessário, porém mundo não é o mesmo de 1917 e nem anos pós-guerra. Este é desafio da Direita e o nosso da Esquerda: entender o mundo parece secundário, mas ambos (direita e esquerda) dão respostas com receituário velho para novas doenças. Agora empatamos o jogo, estamos sem armas e certezas absolutas.

Claro que a situação é melhor já não sofremos o massacre político-ideológico destes últimos 20 anos, mas também não nos conforta saber que fomos incapazes de repensar nossos conceitos, nem o velho Marx conseguimos entender. Neste tempo todo não termos feito nada de concreto, alternativo, apenas resistir é muito pouco.


O Brasil e o neoliberalismo


Limitarei a falar sobre o período Lula, pois é mais que evidente que Collor/Itamar e mais ainda FHC abraçaram felizes o Neoliberalismo sem menor divergência com suas diretrizes.

Nenhum projeto político ficou imune a lógica Neoliberal, o do PT de Lula se adaptou a este mundo, mas por uma condição particular de extrema miséria e às doses cavalares do receituário neoliberal aplicados aqui, já se começava a gestar iniciativas tímidas de tentativas de fazer algo diferente à política dominante.

Dois fatores, para mim foram fundamentais:

1)       Diminuição da dependência americana, busca de novos parceiros comerciais;

2)      Rompimento com a política de privatizações, que preservou o Banco do Brasil a CEF e a Petrobras;

Mesmo sob críticas ferozes Lula buscou desde 2003 remar lentamente contra a maré, fez uma excelente política externa coordenada por Celso Amorim, aproximando da China, da África e uma aliança estratégica com a Europa, em particular com a França.

Impulsionou o G20 grupo que passou a ter voz ativa na OMC e fazer frente às demandas dos países centrais de maior exploração dos recursos destas nações e imposição de seus interesses de privatização e invasão de seus produtos.

A segunda política, a de parar as privatizações salvou um pouco do patrimônio público e deu margem de manobra para impulsionar uma política de desenvolvimento incentivado pelo Estado.

A Petrobrás que quase fora privatizada por US$ 3 bilhões em 1999, em janeiro 2003 tinha seu patrimônio em US$ 20 Bilhões, em janeiro de 2010 ela vale US$ 200 Bilhões e movimenta cerca de 10% do PIB, sendo hoje a quarta maior petroleira do mundo. Os ganhos do Pré-Sal podem definitivamente tirar o Brasil da miséria endêmica.

Cenário atual


Direita americana, mais radical é a religiosa, tratam Obama como Bolchevique, podem acreditar, está cada dia mais xenófoba e alguns estados aprovam leis mais restritivas aos imigrantes. Na França Sarkhozi que já estigmatizara os mulçumanos, agora quer deportar em massa os ciganos. Espanha, mesmo governada pelo PSOE, restringe os direitos dos estrangeiros, pois há um desemprego em massa.

No Brasil a esquerda brasileira (PT) ocupou um espectro mais amplo, tomou o centro do PSDB, sobrou apenas a Direita mais raivosa, fundamentalista a eles. Este deslocamento de forças e projetos, ainda não se deu por completo no imaginário popular, PT ainda é identificado como esquerda raivosa, muitos "absorveram" Lula, mas é fato que ainda temem o PT, isto é reforçado por um discurso extremamente preconceituoso de Serra, que afaga a Direita.

Mobilidade do PT rumo ao centro, independe de Lula, foi à realidade que o empurrou ao centro, para ter maior interlocução com outras forças que fazem o jogo político no Brasil, tirando do PSDB a hegemonia na sociedade.

Entender o que está em jogo é mais importante das tarefas de cada militante e explicar pacientemente a cada um, as questões subjacentes aos grandes debates é que novas e velhas demandas aparecem ou reaparecem com força, mas não podemos nos agarrar a este debate menor e esquecer a luta principal.

Questões como aborto, liberdade de culto, de expressão são temas que cortam a sociedade, mas não podem ser o mote de qualquer resposta global às demandas mais prementes do Brasil.

Defender este legado de Lula e contrapô-lo ao que foi o Governo FHC que tem em Serra seu representante, ainda que piorado, pois incorpora um discurso que se aproxima ao fascismo, é fundamental neste momento.

Mais dados no link http://lulavsfhc.tumblr.com/

Todos os emails falsos sobre Dilma Rousseff

POSTED BY SEJA DITA VERDADE ON SEPTEMBER - 27 - 2010 http://www.sejaditaverdade.net/blog2/?p=2091



Para facilitar a divulgação nesta última semana de campanha, fiz uma compilação dos emails falsos que circulam nesta campanha sobre Dilma Rousseff e seus respectivos desmentidos. Cada link remete ao leitor ao texto em questão. Espalhem, é importante:

A morte de Mário Kosel Filho: http://migre.me/1pfAb

A Ficha Falsa de Dilma Rousseff na ditadura http://migre.me/1pfCc

O porteiro que desistiu de trabalhar para receber o Bolsa-Família http://migre.me/1pfEJ

Marília Gabriela desmente email falso http://migre.me/1pfSW

Dilma não pode entrar nos Estados Unidos http://migre.me/1pfTX

Foto de Dilma ao lado de um fuzíl é uma montagem barata http://migre.me/1pfWn

Lula/Dilma sucatearam a classe média (B) em 8 anos: http://migre.me/1pfYg

Email de Dora Kramer sobre Arnaldo Jabor é montagem http://migre.me/1pfZH

Matéria sobre Dilma em jornais canadenses é falsa: http://migre.me/1pg1t

Declarações de Dilma sobre Jesus Cristo – mais um email falso: http://migre.me/1pg2F

Fraude nas urnas com chip chinês – falsidade que beira o ridículo: http://migre.me/1pg58

Vídeo de Hugo Chaves pedindo votos a Dilma é falso: http://migre.me/1pg6c

Matéria sobre amante lésbica de Dilma é invenção: http://migre.me/1pg7p

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Vencemos, mas ainda não ganhamos

Segue meu balanço de forma única:

1) Brasileiro votou muito bem com sabedoria, só elitista criticam sem base na realidade concreta e no preconceito;

2) Tiririca é ponto fora da curva e eleito no estado mais politizado(?), mais rico do Brasil;

3) Apenas lembremos que Cicciliona foi eleita na Itália, Bush nos EUA, Sarkhozi na França, faz parte da democracia;

4) Olhando os números gerais foram muito bons, nos livramos: Tasso,  Arthur Virgilio, Mão Santa, Heráclito, Aleluia, Marco Maciel, Cesar Maia (dentre outros, veja a lista completa aqui);

5) Dilma foi muito bem em todo Brasil,faltou pouco mais de 3% pra vencer no primeiro turno,grande feito para quem nunca fora candidata;

6) Marina foi a Bala Verde que salvou Serra da aposentadoria antecipada. Mas não podemos culpá-la de nada, faz parte da Democracia;

7) Devemos pensar onde erramos e não ficar achando culpados, Marina era candidata e aproveitou a oportunidade, devemos dialogar com ela;

8 ) Dialogar com Marina e seus eleitores. Bobagem ficarmos acusando-a de qualquer coisa, lembremos que sem Erenice venceríamos fácil;

9) Agora é levantar cabeça e ir em frente, ficar remoendo não leva a nada, Lula em 2006 tava “eleito” e teve q ir ao segundo turno;

10) Grande trunfo é mostrar aos eleitores que Dilma eleita terá base sólida de apoio na Câmara e Senado para fazer grande governo, Serra não;

11) Único resultado ruim foi Beto Richa o censurador ter vencido no primeiro turno, demais estão dentro do esperado,bola para frente.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Trilogia de Orestes

Trilogia de Orestes

Ésquilo



Passado Anterior (Guerra de Tróia)


Agamenon foi comandante em chefe da armada Grega na guerra contra Tróia, ele era irmão de Menelau, era casado com a Irmã de Helena, Clitemnestra. Como os ventos não lhe eram favoráveis para partida das naus gregas, eles ficaram retidos em Áulis, Agamenon manda consultar o oráculo de Delfos e a resposta é que ele tem que sacrificar a filha Ifigênia, pois só assim os deuses permitiriam o prosseguimento da empreitada. Obediente aos fados, chama à Áulis a filha dizendo para esposa que ali realizaria o casamento dela com Aquiles, o Pelida, o maior herói Grego. Clitemnestra toda satisfeita leva a filha, porém ao chegar ver o marido realizar o sacrifício exigido pelos deuses. Revoltada, Clitemnestra retorna para casa e faz de Egisto(primo de Agamenon), seu amante, prometendo vingar-se de Agamenon.



1º Livro – Agamenon




Tema: Tragédia. Traição

Resumo: O assassinato de Agamenon, após seu retorno de Tróia, por sua esposa Clitemnestra e seus amante Egisto

Inicia-se com o retorno glorioso de Agamenon que vencera a guerra de Tróia e entre os seus troféus e riquezas, trouxe como amante a vidente Cassandra, que apesar do poder ela era desacreditada em suas profecias. Sua entrada nas ruas de Micenas em festa pelo retorno do rei de seus sobreviventes depois de 10 anos de longa guerra, ele é homenageado com júbilos nas praças da cidade, até a entrada no palácio real.

Clitemnestra dá as boas vindas ao marido, fingindo não ver que ele traz consigo a amante, Cassandra uma das princesas filha de Príamo e Hecuba. Prepara o banho real, como a esposa saudosa. Agamenon se despoja das armas e vai ao banho, sem perceber a presença do seu primo  e inimigo que aproveitando de sua fragilidade mata-o sem piedade. O pequeno Orestes filho de Agamenon e Clitemnestra foge  para o exterior, sua irmã, Electra é entregue a uma família de camponeses para que seja criada longe do palácio real. Cassandra é morta por Egisto, este junto com Clitemnestra passam a governar a cidade-estado.

2º Livro – As Coéforas


Tema: Tragédia. Vingança

Resumo: Orestes volta do exterior para vingar a morte do pai, sendo ajudado por sua irmã Electra

Passados dez anos, todo dia Electra vai visitar o túmulo do seu pai. Um dia, porém, depois de muito se lamentar os fados de sua vida, percebe que está acompanhada e que este tem o mesmo tipo de cabelo que ela, além de sua pegada ser parecida com a do irmão. Ao inquirir o forasteiro este se revela como sendo Orestes que voltou com o amigo Pílades.

Os dois conversam com Electra e revelam que pretendem vingar a morte de Agamenon. Disfarçado Orestes chega ao palácio se apresentado como estrangeiro que tem comunicação urgente para Rainha Clitemnestra, é prontamente recebido por ela e lhe diz que Orestes está morto. Egisto, que estava fora, retorna e ao saber da notícia finge que está triste em saber que seu enteado está morto. Aproveitando-se do momento, Orestes, mata Egisto e logo a seguir sua mãe, completando assim a vingança.

Porém Orestes passa a ser perseguido pelas fúrias (criaturas da noite) que exigem que os crimes cometidos por pessoa do sangue sofram punição igual.

3º Livro – As Eumênides


Tema: Tragédia. Julgamento

Resumo: Orestes havia matado Clitemnestra, sua mãe, e o amante dela Egisto, ele deverá ser julgado pelo conselho dos sábios presidido por Palas Athena, filha de Zeus





Orestes matou sua mãe,Clitemnestra, e o amante dela Egisto, mas logo a seguir passar a ser perseguido ferozmente pelas Eumênide(as Fúrias) por todo e qualquer lugar que fosse dia ou noite as deusas da vingança dos crimes de sangue não permitiram quem ele descansasse, fazendo com que ele fosse até Atenas.

Em Atenas, no templo da Deusa Palas Athena, Orestes será julgado pelos crimes. A deusa preside o julgamento tendo as fúrias à prerrogativa da acusação. São apresentados os argumento dos dois lados, findado os debates o conselho dos velho Doze sábios passa a votar e não chegam a um consenso terminando empatada a votação (6 pela absolvição e 6 condenação). Athena (Minerva para os romanos) decide pró réu devido o empate.

Comentários

Estes três pequenos livros são conhecidos como a Oréstia, por isso coloquei-os aqui de uma única tacada. Formam um conjunto interessante pois seguindo uma lógica dialética teríamos para cada livro uma parte desta: Tese, antítese e a síntese.

Há todo o contexto que precisa ser conhecido e avaliado para o melhor entendimento, tendo três vetores fundamentais da função do teatro grego, me baseio na Paidéia :

1)    Questão da Religiosa;

2)    A Questão Política;

3)    A questão da justiça;

Questão da Religiosa

A visão comum dos gregos era de que os fados ou uma maldição familiar de violar a ordem divina precisavam ser purgados, de geração em geração, os erros dos antepassados.

A história da família de Agamenon começa com o lendário rei Pélope, que  tinha sido manchada por Violação, assasínio, traição. A maldição dos Átridas(descendentes de Atreu)  a linhagem fundada por  Tântalo, filho de Plota e Zeus. Tântalo casou-se com a deusa  Dione, e dela tiveram Pélope e Níobe. Porem em certa ocasião Tântalo matou Pélope e serviu-o como sopa para os deuses. Por isso teve a sua vida sacrificada, para que Pélope voltasse à vida. Os gregos acreditavam que este passado violento lançou infortúnios sobre a inteira Casa de Atreu

Aqui já na terceira e quarta geração são retroalimentando os crimes de sangue, numa ordem de vinganças e morte, o basta, ou “perdão” final se dar com Orestes.

Questão Política

Através do teatro ensinava-se à sociedade os editos permitidos e proibitivos do estado, neste sentido as vinganças familiares, de matar a quem matou seus parentes, que eram toleradas precisava ter um fim, porque ameaçava o estado e paz social, em crimes sem fim. O que antes era permitido passa a ser proibido, coincide com as leis de Sólon.

Questão de Justiça



Aqui os primeiros entendimentos de julgamento, conselho de sábios, juízes imparciais são apresentados à sociedade numa peça que tem fundamentalmente a função educativa e até mesmo em caso de igualdade qual caminho seguir.

Funda-se neste caso o que o direito romano consagrará no futuro sobre a questão na dúvida pró réu.

Complexidade da Sociedade e a questão da Mulher

A transição é clara da sociedade matriarcal representada por Clitemnestra para sociedade patriarcal conduzida por Orestes. No fundo Orestes “mata” aquela velha sociedade e sob os auspícios da deusa Athena, que não nascera de mulher é absorvido pela nova forma política que se impõe.

Alguns ritos iniciáticos também são apresentados, Ifigênia ao invés de ser morta na hora H é substituída por uma Corsa (lembra o sacrifício de Abrão). Orestes vai viver no exílio, para de criança volte como guerreiro adulto, tem em Pílades seu preceptor.

Sobre Ésquilo



Poeta grego. Viveu por volta de quatrocentos e oitenta A.C. É um dos precursores da tragédia grega. São poucos os livros dele que chegaram até nós. Muitos dos seus escritos se perderam por completo, outras apenas partes. Temos acesso aos seguintes: a TRILOGIA DE ORESTES e o PROMETEU – que é uma trilogia, mas que se conhece apenas o primeiro volume.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Macbeth: Trono de Sangue

Tema: Tragédia




(As bruxas desaparecem.)

BANQUO — A terra tem borbulhas, tal como a água. Elas são justamente isso. Mas para onde sumiram?

MACBETH — No ar; e tudo quanto nos parecia ser corpóreo se fundiu como ao vento nosso anélito. Oh! se tivessem demorado um pouco!





Segundo o grande Professor e crítico literário Harold Bloom: “Shakespeare e Dante são o centro do cânone porque superam todos os outros escritores ocidentais em acuidade cognitiva, energia lingüística e poder de invenção”, esta definição própria dos três dons fundamentais se funde nas obras dos grandes bardos. Em que momento esta genialidade aflora é muito difícil precisar, Bloom arrisca que no caso de Shakespeare inicia-se com “Trabalho de amores perdidos” e vai numa seqüência incrível que em menos de cinco anos(1593-1598) tinha “Sonhos de uma noite de verão”, “O Mercador de Veneza”, as duas parte de “Henrique IV” “Rei João” e “Romeu e Julieta”. Com Falstaff ele atinge o primeiro grande pico de personagens que culminará no maior deles Hamlet.

Atingindo por uma tragédia pessoal, morte de seu filho, Shakespeare escreve várias grandes tragédias, entre estas, a mais diabólica delas Macbeth:.

Resumo



Macbeth, o grande general do Rei Duncan, no campo de batalha debela a revolta contra o trono promovido por Macdonwald. Simultaneamente o Thane(Duque) de Cawdor  se alia ao rei norueguês para tentar derrubar o rei Duncan e tomar o poder, porém as forças reais os derrota. Na volta da batalha Macbeth e seu melhor amigo Banquo são surpreendidos por uma aparição terrível de três bruxas que proclamam:


MACBETH — Respondei, se puderdes: quem sois vós?

PRIMEIRA BRUXA — Viva, viva Macbeth! Nós te saudamos, thane de Glamis!

SEGUNDA BRUXA — Viva, viva Macbeth! Nós te saudamos, thane de Cawdor!

TERCEIRA BRUXA — Viva Macbeth, que há de ser rei mais tarde!

BANQUO — Meu bondoso senhor, por que motivo vos mostrais assustado, parecendo recear o que de ouvir é assim tão belo? Em nome da verdade, imaginárias sereis realmente, ou o que mostrais por fora? Meu nobre companheiro foi saudado com títulos, por vós, de atual valia e grande predição de haveres nobres e de real esperança, que parece deixá-lo arrebatado. Porém nada me dissestes. Se podeis ver a seara do tempo e predizer quais as sementes que hão de brotar, quais não, falai comigo, que não procuro nem receio vosso ódio ou vosso favor.

PRIMEIRA BRUXA — Salve!

SEGUNDA BRUXA — Salve!

TERCEIRA BRUXA — Salve!

PRIMEIRA BRUXA — Menor do que Macbeth, porém maior!

SEGUNDA BRUXA — Não tão feliz, mas muito mais feliz!

TERCEIRA BRUXA — Gerarás reis, embora rei não sejas! Assim, viva Macbeth e viva Banquo!



As duas primeiras profecias em relação a Macbeth são inesperadamente cumpridas, ainda no campo de batalha ele é informado que recebera os títulos: Thane de Glamis e de Cawdor. Aguça nele o desejo ardente de que seja cumprida a terceira profecia, de que seria rei. Convidado a entrevistar-se com o rei Duncan, ele vai com Lady Macbeth sabedora das predições das bruxas, ambos tramam a morte do rei e a executam na mesma noite após o jantar.

Numa longa seqüência, Macbeth mata os dois sicários contratados para assassinar o rei, e assume o trono. Lembrando das profecias em relação a Banquo seu amigo e cúmplice, também o mata, o trono está todo manchado de sangue.

Transtornado volta ao local que vira as bruxas e conclama-as a novas previsões:

MACBETH — Ouve-me, força ignota...

PRIMEIRA BRUXA — Não prossigas. Sabe o que pensas. Ouve e nada digas.

PRIMEIRA APARIÇÃO — Macbeth, Macbeth, Macbeth! Toma cuidado com Macduff, acautela-te com o thane de Fife! Desobriga-me; é o bastante.

(....)

SEGUNDA APARIÇÃO — Sanguinário sê sempre, ousado e resoluto, e aprende a rir do homem, porque ninguém nascido de mulher poderá, em nenhum tempo, fazer mal a Macbeth.

(...)

TERCEIRA APARIÇÃO — Veste a força do leão, sê orgulhoso e não te importes com quem quer que resmungue ou se rebele, ou contra ti conspire, pois vencido não há de ser Macbeth, enquanto o grande bosque de Birnam não subir contra ele ao alto Dunsinane. (Desce.)

(Aparece uma seqüência de oito reis, tendo o último um espelho na mão; segue-o o fantasma de Banquo.)

MACBETH — Pareces muito o espírito de Banquo. Desce! Tua coroa cauteriza-me os olhos; teus cabelos — tu, uma outra fronte de ouro cingida — se parecem com os do primeiro, tal como o terceiro que se lhe segue. Bruxas repugnantes, por que me mostrais isto? Outro! É o quarto! Olhos, estarrecei. Como! esta linha se estenderá até ao fim do mundo? Mais um, ainda? o sétimo? Não quero ver mais nada; porém eis que surge o último com um espelho na mão, que muitos outros, ainda, me revelam. Uns distingo com duplo globo e cetro triplicado. Pavorosa visão! Agora vejo que é verdade, pois Banquo, recoberto de sangue, me sorri e mos indica, como se filhos dele fossem todos. (As visões desaparecem.) Como! É assim!

Macbeth fica paranóico e num jantar com toda a corte ele começa a ter visões de que Banquo está na mesa a assustá-lo, causa comoção a sua loucura, Lady Macbeth trata de desculpar-se dizendo tratar-se de um mal súbito. Porém a própria Lady Macbeth começa a ter alucinações com as mãos cheias de sangue do casal real morto, na sua loucura de suicida. Ao ser informado da morte da esposa e aliada de todos os crimes:

SEYTON — A rainha morreu, senhor.

MACBETH — Devia ter morrido mais tarde; então, houvera ocasião certa para tal palavra. O amanhã, o amanhã. Outro amanhã, dia a dia se escoam de mansinho, até que chegue, alfim, a última sílaba do livro da memória. Nossos ontens para os tolos a estrada deixam clara da empoeirada morte. Fora! apaga-te, candeia transitória! A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e agita por uma hora no palco, sem que seja, após, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muita barulheira, que nada significa.

A Macduff  Thane de Fife organiza um exército com nobres e apoio inglês e enfrenta o enfermo  Macbeth, confiando na profecia enfrenta um a um seus adversários até bater-se com o próprio Macduff , este lhe informa que não nascera de mulher, pois era prematuro, sua mãe não tivera parto normal.



Comentário:

Trono de Sangue é muitas vezes usada como subtítulo de Macbeth pela violência extrema, a luta pelo poder de lugar-tenente que depois de previsões mágicas (aqui a psique, fala-lhe aos seus ouvidos) ele junto com Lady Macbeth parte resoluto para fazer cumprir todos os desígnios, não importando o quanto de sangue precisará derramar.

Os elementos de ambição, necessidade de satisfazer o desejo de poder, a corrupção moral e ética, transformam Macbeth numa máquina de matar, não poupa ninguém, seus superiores e parentes, seus amigos fieis e levam a loucura sua esposa e cúmplice. O suicídio dela assim como a busca pela morte de Macbeth fecham o círculo do mal.

O General vencedor dar lugar ao humano ambicioso das intrigas palacianas, como rude homem da guerra a morte é mero detalhe na sordidez de sentimento que lhe consume. Shakespeare nos apresenta a consciência por inteiro de toda maldade que o ser humano é capaz, Macbeth reflete, diz exatamente o que sente, sua crueza e crueldade saltam nos versos.

As reflexões de Macbeth poderiam ser de qualquer um de nós no espelho, principalmente daqueles que buscam o PODER a qualquer preço. Amigos, lealdade à pátria e aos superiores são todos esquecidos pelo desejo ardente e sanguinário de ter PODER real e irrestrito.

As bruxas, por óbvio, são nossos “demônios” adormecidos, que desperta nossa vaidade e maldade, em particular nos momentos de glória (Macbeth acabara de vencer uma guerra civil). Corrompe o espírito, perde a placidez e virtude, e joga à roda viva para saciar a sede de PODER.

A peça é tida como “amaldiçoada” desde quando foi encenada a primeira vez no Globe, diz-se que pegou fogo, noutra vez o ator principal faleceu. É sempre cercada de estórias, tendo inclusive, tacitamente, banida de representação por estas coincidências infelizes. Roman Polanski fez sua versão pouco depois do assassinato de sua esposa Sharon Tate. Orson Welles fez sua em 1948. Akira Kurosawa fez Kumonosu-Jô (Trono Manchado de Sangue) em 1957.


segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Ricardo III: "O Trono ou a Morte"

Tema: Luta pelo Poder, traição e violência






Ó inverno do nosso descontentamento foi convertido agora em glorioso verão por este sol de York, e todas as nuvens que ameaçavam a nossa casa estão enterradas no mais interno fundo do oceano.”





A sentença inicial de Ricardo III irá permear todo o desenrolar de sua luta obstinada pelo poder, que se preparou desde a tenra idade para assumi-lo, alimentando intrigas, bajulando às vezes, seduzindo e fundamentalmente destruindo seus adversários. Envergonhado de sua feiúra irá destilar seu ódio interno em sua luta desesperada pelo poder única fonte de “beleza” que lhe compense sua aparência disforme.

Resumo



Eduardo IV(Casa de York) Rei inglês já velho e dominado pela família de sua mulher, Lady Grey, acredita numa profecia de que um grande “G” o derrubará do trono, manda para prisão seu irmão George achando ser ele o G. Na prisão, George é assassinado a mando do seu outro irmão mais novo,Ricardo, duque de Gloucester. Se sentido culpado Eduardo não resiste e também morre.

O caminho da sucessão esta aberto, o deformado Ricardo assume o protetorado dos sobrinhos ainda criança, legítimos herdeiros. Manda-os para uma torre (prisão) e mata os irmãos de sua cunhada e a difama dizendo que os filhos não são de seu Irmão morto, assim não seria herdeiros.

Assume a coroa como Ricardo III, alegando não haver mais ninguém na linha sucessória além dele mesmo, sanguinário ordena a morte dos sobrinhos na prisão e de todo e qualquer opositor ao seu reinado. Mata a própria esposa para casar com a filha do seu irmão George. No ápice de sua loucura, ele mata um adversário e seduz a viúva em pleno funeral.

Na frança Henrique Richmond parente de Henrique VI(Casa de Lancaster) prepara uma aliança de nobres banidos e perseguidos por Ricardo III, que se unem contras as loucuras e paranóias do Rei. Numa dura guerra civil vence-o tornando-se Henrique VII.







Comentário:

É uma das peças mais violentas de Shakespeare, baseada na história do trono inglês, mas com ingredientes próprios de Shakespeare que cria um dos personagens mais complexo de sua literatura. Ricardo III nasceu prematuro, seus órgãos não estavam todos formados, cresceu feio em suas próprias palavras:

“eu, que privado sou da harmoniosa proporção, erro de formação, obra da natureza enganadora, disforme, inacabado, lançado antes de tempo para este mundo que respira, quando muito meio feito e de tal modo imperfeito e tão fora de estação que os cães me ladram quando passo, coxeando, perto dele.”





Esta mente deformada usa da extrema violência para impor sua vontade e compensar sua feiúra física. Com um discurso sedutor e uma lábia ferina, primeiro põe um irmão contra o outro, passando-se por independente. Vai maquinando vorazmente sua chegada ao poder. A cena da sedução da viúva no funeral do marido que ele assassinara é de uma profundidade sem tamanho.

Shakespeare traça em Ricardo III tudo aquilo que irá realizar em Macbteh, a extrema inteligência do personagem, seu poder de sedução, sua maldade inata, não há o menor pendor ético na sua conduta, é uma peça dura e poética ao mesmo tempo, uma sensação de soco no estomago permanente.

Grandes montagens e filmes foram feitos baseadas em Ricardo III, Hitler é visto como o paradigma dele, Ian McKellen, fez um grande filme adaptado ao momento Nazista inspirado nele. Al Pacino fez outro ensaio/montagem.


Ricardo III,  hoje é um personagem bem vivo entre nós, representado por aqueles que buscam o poder ilimitadamente, que na falta de carisma usam da violência de suas próprias mãos ou por seus vassalos midiáticos.