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terça-feira, 5 de abril de 2011

Alceste: Amor ou Morte


Alceste

Eurípedes



de sacrifícios sangrentos estão cheios os altares de todos os deuses. Mas não há remédio para os males!



Tema: Tragédia. Amor.

Resumo: Admeto com ajuda do Deus Apolo escapa à morte, porém um ente querido deve substituí-lo, a única pessoa que aceita o sacrifício é sua esposa Alceste .

O Livro



Admeto grande rei da Tessália, por desejo dos deuses deve morrer, porém, neste ínterim ele hospeda o Deus Apolo, que como castigo tem que viver como empregado por um ano à serviço de um mortal. Como Admeto,  sem saber que se trata de um Deus, recebe muito bem seu empregado, Apolo, agradecido, sabendo do destino de Admeto engana as Parcas (emissários de Tânatos(Morte)).

Pouco depois o próprio Tânatos sabendo do ardil de Apolo aceita a troca de Admeto por um parente próximo, desde que aceito espontaneamente. Os pais de Admeto, mesmo idosos, recusam-se a morrer, Admeto não quer que os filhos pequenos cumpram a promessa, sua linda e jovem esposa, Alceste, por grande amor ao marido, oferece-se para cumprir o sacrifício.

(...)

Admeto Ergue-te, infeliz, não me abandones; aos deuses poderosos suplica misericórdia.

Alceste Eu vejo, eu vejo num lago um barco de dois remos; e o barqueiro dos mortos, com a mão na vara, Caronte, já me chama: “Por que esperas? Apressa-te; estás a demorar-me!”

Assim, impetuoso, ele incita-me.

Admeto Ai de mim! A viagem de que falas é cruel. Ó infeliz, quanto nós sofremos!

(Alceste, com um grito de terror, debate-se nos braços de Admeto.)

Alceste Levam-me, levam-me, levam-me – não vês? – para a morada dos mortos. Sob o azul escuro das sobrancelhas, olha-me Hades, alado. Deixa-me estar. Que fazes? Larga-me. Que caminho sigo eu, desgraçada!

Cumprindo-se o fúnebre destino Alceste morre deixando desolado esposo e filhos, uma grande tristeza abate-se sob a Tessália. Por este tempo de passagem rumo ao seu 8º trabalho, Heracles, passa em visita ao seu amigo Admeto, como sempre é muito bem recebido, apesar da tristeza, sem o revelar o motivo, oferece amplo banquete e pompa. Heracles fica mais uma vez encantando com a hospitalidade que Admeto lhe faz.

(...)

Admeto De modo nenhum, senhor! Que eu não tenha de sofre essa desgraça!

Héracles Na infelicidade, a chegada de um hóspede é importuna.

Admeto Quem morreu está morto. Entra, pois, em casa.

Héracles Não fica bem a ninguém banquetear-se junto de amigos que choram.

Admeto Levar-te-emos para os quartos de hóspedes, que são à parte



(...)

Coro Que fazes? No meio de tal desgraça, Admeto, tens coragem para acolher hóspedes? Porque essa loucura?

Admeto Acaso me louvarias mais se de casa e da cidade eu expulsasse o hóspede que chegou? Não, certamente, visto que a minha desgraça não se tornaria menor e faltaria aos deveres da hospitalidade. Aos meus males juntar-se-ia outro mal, se a minha casa ganhasse a fama de ser hostil aos hóspedes. Eu próprio tenho achado nele o melhor acolhimento, sempre que vou ao árido país de Argos.

Coro Por que motivo lhe escondeste então a presente desgraça, se vem como amigo, como tu próprio dizes?

Admeto Nunca ele quereria entrar em casa, se descobrisse algo dos meus sofrimentos. Haverá, bem sei, quem repute o meu ato insensato e pouco digno de louvor, mas o meu teto não sabe repelir nem desonrar hóspedes.

Durante a ceia Heracles percebe a tristeza generalizada dos criados e passa a inquirir sobre o fato, um deles conta-lhe que realmente todos sofrem pelo destino terrível da estrangeira morta que na verdade era Alceste a doce esposa de Admeto. Envergonhado com a situação, por não percebido o real mal que se abatera ao amigo, e ainda mais admirado pela acolhida num momento tão ruim, Heracles decide ir ao Hades trazer de volta a esposa do amigo.

(...)

Héracles (sozinho em cena.)

Ó coração que tanto tens suportado, e tu, meu braço, mostrai agora que filho deu Zeus a Tiríntia, nascida de Eléctrion, Alcmena. Preciso de salvar a mulher que morreu há pouco e de trazer de novo para esta casa Alceste, a fim de recompensar Admeto. Irei espiar a Morte, a senhora dos mortos de negro manto, e hei de encontrá-la, penso eu, junto do túmulo, a beber o sangue das vítimas. E se eu me precipitar do meu lugar de emboscada e a apanhar, envolvê-la-ei com os meus braços e não haverá ninguém capaz de libertar os seus flancos doloridos antes que me seja entregue a mulher. Mas se me falhar esta presa, se ela não se aproximar da oferenda sangrenta, descerei aos Infernos, às sombrias moradas de Core e do Senhor, e farei a minha súplica. Estou convencido de que trarei à luz do dia Alceste, para a entregar nas mãos do hospedeiro que me recebeu em sua casa, e não me repeliu, embora ferido por pesada desgraça, e que, num requinte de nobreza, me ocultou esses fatos, por respeito para comigo. Quem, entre os Tessálios, é mais hospitaleiro? Quem, entre os habitantes da Grécia? Nunca ele terá de dizer que usou com um homem perverso da sua generosidade

(...)

Usando de toda sua força Heracles toma Alceste da Morte, devolve ao amigo, não sem antes um grande dialogo entre eles, sem revelar de quem se tratava, Heracles oferece a jovem envolta de mantas ao amigo, dizendo-lhe que morta a mulher, melhor seria novo casamento, este se recusa terminantemente, sem a esposa nenhum mulher levará ao seu leito.


(...)

Héracles

Sim, o amor que se tem por quem morreu conduz às lágrimas.

Admeto

Fiquei destruído, mas do que poderia dizer.

Héracles

Perdeste uma nobre esposa. Quem o nega?

Admeto

De tal modo que já não tenho prazer na vida.

Héracles

O tempo suavizará o mal que agora está em pleno vigor.

Admeto

O tempo, sim, podes dizê-lo, se o tempo é sinônimo de morte.

Héracles

Uma mulher, outras núpcias te consolarão.

Admeto

Cala-te. Que dizes? Não quero acreditar.

Héracles

O quê? Não te casas mais, ficará vazio o teu leito?

Admeto

Nenhuma mulher ao meu lado se deitará.

Héracles

Julgas tu que isto tem alguma utilidade para a morta?

Admeto

Onde quer que ela esteja, devo honrá-la.

Héracles

Aprovo isso, sim, aprovo; ganharás fama de louco.

Admeto

Nunca me chamarás noivo.

Héracles

Louvo-te pelo amor fiel que tens pela tua esposa.

Admeto

Que eu morra, se a trair, embora ela já não exista.

(...)

Pequeno Comentário

“Quem está para morrer, é como se já estivesse morto, e quem morreu não existe.”

Fechando um ciclo que comecei com Antígone, depois Hipólito em que a Morte é o contraponto a algum bem, tão ou mais importante. Em Antígone foi à liberdade de fazer algo certo, dar às honras fúnebres ao irmão morto, enfrentando o edito proibitório do tio, a autoridade tirânica que é punida severamente. No caso de Hipólito sua castidade e devoção a deusa Ártemis é sua desgraça, pagando com a vida.

Neste novo caso é uma provação em que o Amor por excelência de Alceste ao marido faz com que ela prefira morrer em seu lugar, renunciando a vida, pelo amor, mesmo jovem, em flagrante contradição ao pai de Admeto, que mesmo idoso, não se dispõe a se sacrificar.

Tema subjacente é o da hospitalidade, mesmo diante de um mal terrível, Admeto recebe o herói Heracles, poupando-lhe de saber do que acontecia no palácio. A recompensa ao tratamento e ao seu imenso amor pela esposa faz com que Heracles lutasse contra Tânatos (Morte) pela vida de Alceste. Ela volta mais jovem e bela, o amor rejuvenesce.

Anexo - Livro em PDF: ALCESTE

quarta-feira, 30 de março de 2011

Hipólito - castidade e morte

Hipólito

Eurípedes



Mister seria que os mortais tivessem uma prova segura da amizade e o poder de enxergar, nos corações, qual o amigo sincero e qual o falso! Deviam ter os homens duas vozes; uma, a da retidão, e outra qualquer; assim, a que servisse em seus malfeitos seria confundida pela honesta e nós nunca seríamos logrados..”



Tema: Tragédia. Traição.

Resumo: Hipólito filho de Teseu é casto e só rende oferendas a Ártemis, Deusa da castidade e da caça,ao mesmo tempo Afrodite(Cípris), a deusa do amor sexual, que se vingará terrivelmente do jovem.


O Livro




Teseu já em idade avançada casa-se com Fedra filha de Minós a quem Teseu derrotara em Creta. De outro casamento anterior Teseu era pai de Hipólito, com a Rainha das Amazonas Antíope.  O jovem Hipólito era muito belo, mas optara pela castidade, prestando culto a Ártemis, deusa da caça e da castidade, irmã de Apolo, filha de Zeus e Leto.

A opção pela castidade, combinada com o desprezo a Afrodite, deusa do amor sexual, faz com que a ela sinta-se enciumada e quer a todo custo vingar-se de Hipólito.

Com sua arte de sedução, Afrodite, faz com que Fedra fique perdidamente apaixonada pelo enteado. A paixão é devastadora, aproveitando que Teseu, ficara um ano no exílio como castigo, Fedra se aproxima mais do enteado e com ajuda de sua aia, declara-se ao rapaz.

Hipólito fica espantando com tal revelação, renega qualquer possibiidade de romance com a bela madrasta, mas ao mesmo tempo jura que jamais revelará o segredo ao seu pai Teseu.

(...)

“FEDRA - Juraste bem. Examinando tudo, deveras descobri, neste infortúnio, um único expediente que assegure aos filhos uma vida sem desaire e a mim a salvação desta desonra. Somente por amor de minha vida não é que hei de infamar meu lar de Creta

nem de encarar Teseu no meu pecado.

CORO - Planejas algum mal irremediável?

FEDRA - Morrer; eu própria escolherei o meio.

CORO - Não profiras palavras agourentas!

FEDRA - Se queres também tu aconselhar-me, que seja um bom conselho. Se hoje mesmo abandonar a vida, darei gosto a deusa Cípris, que me está perdendo; eu terei sucumbido a Amor cruel. Porém, inda serei, depois de morta, a ruína de alguém, para que saiba não se ufanar de minha desventura e aprenda a moderar o seu orgulho,sofrendo o seu quinhão nesta desgraça.”



Porém, ao retornar do exílio, Teseu encontra Fedra morta, ela se suicidara, não sem antes deixar um bilhete acusando o jovem Hipólito de ser o culpado de sua morte. Teseu com muito ódio convoca o filho, este explica que nada tem a ver com o fato.

(...)

TESEU - Ai de mim! Como sofro! Foi esta, povo meu, a máxima das minhas desventuras. Ó destino, pesado te abateste sobre mim e meu lar, qual mancha misteriosa impressa por um gênio vingador; pior, como ruína que me torna impossível viver daqui por diante. Na minha desventura, contemplo um mar tão vasto de infortúnios, que nunca poderei salvar-me a nado, nem ao menos vencer esta vaga fatal que ora me assalta. Mulher infortunada, nem sei com que palavras definir teu destino cruel. (...)

TESEU - Já não posso conter no limiar dos lábios o mal insuperável que me arrasta à ruína. Ah! Povo meu! Hipólito atreveu-se a violar pela força meu tálamo nupcial, sem respeito ao supremo olhar de Zeus. Portanto, ó Posidão, tu que és meu pai e um dia me outorgaste três desejos, ouve o primeiro e mata-me esse filho! Se são certos os votos outorgados, que não possa escapar ao dia de hoje!

CORO - (horrorizada) Pelos deuses, meu rei, retira a praga! Dia virá em que hás de compreender que cometeste um erro; dá-me ouvidos.

TESEU - Não retiro; demais, vou desterrá-lo para que o fira um de dois destinos: ou Posidão, cumprindo o meu desejo, morto o enviará para a mansão de Hades, ou, expulso daqui, há de, no exílio, errante, consumir a vida em dores.

CORO - Bem a propósito, eis que surge Hipólito; é teu filho em pessoa. Ó rei, aplaca tua daninha cólera e resolve o que melhor convenha a tua casa.

HIPÓLITO - (entra com pequena escolta) Ouvi teus brados, pai, e vim a pressa. Não sei o que lastimas neste instante; quero ouvi-lo de ti. Mas, oh! Que houve? Vejo morta, meu pai, a tua esposa?! Minha surpresa é imensa! Ainda há pouco, quando a deixei, podia ver a luz! Que se passou com ela? De que modo veio a morrer? Quero de ti ouvir. Meu coração, ansioso de saber, mesmo ante uma desgraça não disfarça sua ansiedade. Porém, tu te calas? De que serve o silêncio no infortúnio? Aos amigos, meu pai, aos mais que amigos não é justo que ocultes teus reveses.

TESEU - Ó homens, vós, que tantos erros vãos viveis a cometer, vós, que ensinais ciências incontáveis, vós, que tudo descobris e inventais, por que será que uma coisa ignorais, nem buscais nunca aprender, que é ensinar sabedoria àqueles que carecem de razão?”

(...)



Teseu o expulsa do palácio e irrefletidamente pede aos deuses que puna o filho com a morte. Hipólito sofre um acidente e morre. A Deusa Ártemis conta a Teseu que o jovem era inocente.

(...)

TESEU - Acaso algum flagelo inesperado as cidades irmãs terá ferido?

MENSAGEIRO - A bem dizer, Hipólito morreu. Inda contempla a luz, porém exala os derradeiros hálitos de vida.

TESEU - Quem o matou? Talvez alguém que o odeia, por lhe ter, como ao pai, violado a esposa?

MENSAGEIRO - Causou-lhe a morte a sua carruagem e mais a maldição com que invocaste contra teu filho o deus do mar, teu pai.

(...)

VOZ - Nobre filho de Egeu, convido-te a escutar-me. Sou Ártemis, a filha de Leto, que te chamo. Por que, infeliz Teseu, te rejubilas? Deste morte sacrílega a teu filho; a mensagem falaz de tua esposa te fez acreditar no que era incerto e agora tens tua desgraça certa. E não vais esconder tua vergonha afundando na terra até o Tártaro? Ou, mudando de espécie, não te evolas fugindo da miséria pelos ares? Já não deves prover a tua vida entre os homens de bem! Eis, Teseu, um balanço de teus males. Deveras, não adianta e te magoa, mas venho tornar clara a inocência da alma de teu filho, cuja morte quer glorificar, e a paixão louca - ou nobreza, talvez - de tua esposa. Sim, pois, pungida do aguilhão da deusa que entre os seres divinos mais odiamos quantas nos comprazemos em ser virgens, estava apaixonada de teu filho. Tentou com a razão vencer a Cípris, mas sucumbiu, mau grado seu, às artes da ama, que a teu filho, sob penhor de juramentos, tudo revelava. Ele, por ser honesto, repeliu as propostas da ama e, por piedoso, não traiu o segredo que jurara, mesmo quando o trataste ignobilmente. Temendo a convicção de seu pecado, Fedra compôs essa falaz mensagem, que arruinou a vida de teu filho. Era um embuste e nele acreditaste.

TESEU - Que desventura a minha!

Pequeno Comentário

Esta tragédia traz a luz vários sentimentos e casualidades próprias da vida humana, Junito de Souza Brandão nos lembra, acertadamente, “motivo Putifar” que é acusação infundada de adultério, tramada por uma mulher com a qual o injustamente acusado e, quase sempre punido, se recusou a ter relações sexuais. Este fato é em Gênesis 39,7-20, a respeito da inteireza, caráter e temor de Deus por parte de José.

De qualquer forma, o motivo Putifar representa sempre um situação crítica para o herói, conjuntura essa que se resolve ora tragicamente, com a morte, no caso de Hipólito e Eunosto, com a cegueira, como na punição de Fênix; ora de maneira menos violenta, como prova superada através de riscos tremendos, como a exposição de Tenes; com o exílio e a vida ameaçada, no caso de Belerofonte ou, eventualmente, a vítima se vinga mais tarde, de modo cruel, de quem o caluniou, como Peleu, que esquartejou Astidamia”.

O ciúme de Afrodite por que Hipólito não lhe presta culto deve ser entendido também do ponto de vista reprodutivo, pouco natural que um jovem príncipe, futuro Rei, recuse-se a fecundar, tarefa obrigatória ao cargo, que inspira crescimento, fertilidade e longevidade, o ciclo “‘natural” da vida.

Lição dolorosa é a de Teseu que não verificando os fatos, julga e condena o próprio filho, o amaldiçoando. Mas aqui também há o germe da tensão própria do choque de gerações que se sobrepõe a sucessão da casa real, o velho rei que terá que ceder o trono ao jovem príncipe.

terça-feira, 22 de março de 2011

Formação Humana


Introdução



Pós-muro de Berlim, aqueles que militavam no campo da esquerda passaram a viver num mundo estranho, todos os sonhos e ideologia postos em xeque, a crueza do leste revelada em sua plenitude, houve dois movimentos no começo dos 90 muito significativos na militância:

1) Abandono da perspectiva socialista;

2) Reflexão e volta aos clássicos;

Por volta de 91 e 92 participava de um pequeno grupo, que se propôs a fazer esta reflexão para compreender o que houve no leste europeu, maioria de nós era “pró-soviético” oriundos do PCB. Teve companheiro que em 1986 chegou a dizer que bom mesmo não era Gorbachev, mas sim o prefeito de Moscou, Boris Yeltsin, o verdadeiro revolucionário, sabemos hoje no que deu.

Esta cegueira advinha de uma crença quase religiosa na revolução, em particular na interpretação russa do escritos de Marx, que teve em Lênin grande continuador, mas adstrito a realidade russa, mas que foi tomada como universal.

Aquele impacto de ruir todo o leste europeu fez com que vários companheiros simplesmente abandonarem a luta política, acreditando que aquela era a experiência definitiva do que se convencionou chamar de “socialismo real”. Honestamente derrotados, incapaz de continuarem a militar, se recolheram, trancaram a vida para qualquer nova reflexão.

Como sempre ocorre nestes períodos de crise, um setor que sempre militou quase como 5ª coluna, aderiu de vez ao ideário burguês, no Brasil a ruptura do PCB, já em frangalhos, liderados por Bob Freire, cria o PPS, todos sabemos os seus passos posteriores de traição e alianças preferenciais à direita (PSDB e DEM).

Volta aos clássicos

Vários de nós, em pequenos grupos e círculos intelectuais, voltaram aos estudos dos clássicos, não apenas os escritos de Marx, mas de toda a tradição humanista, revisitar os filósofos gregos, os cânones literários, as fontes únicas do pensamento humano.

Esta dolorosa tarefa no meio militante é sempre muito complicada, cheia de barreiras, parte dos dirigentes despreza a ampliação do conhecimento, pois as tarefas diárias se impõem. A baixa compreensão, da formação política e intelectual também se torna adversário deste “mergulho”.

Fizemos um roteiro longo em que buscávamos ampliar os horizontes para além da teoria política, inserindo novos desafios de entender o homem sob uma perspectiva histórica, filosófica e cultural, que abarcasse a Teoria do conhecimento humano em todos seus vastos campos.






(Texto de Introdução - escrito em 1992)






Origem dos Homens



O Comunismo Primitivo

O início dos tempos tem diversas explicações, desde a dos cristãos, segundo a qual Deus (Jeová) criou o mundo e depois o homem, a partir do barro ( Adão) e de sua costela, a mulher (Eva). Estes entes pecam perante Deus e são expulsos do paraíso – começa propriamente dita a procriação, sendo estes marcados pelo pecado original.

Já para Gregos, Egípcios e Romanos o surgimento do homem é produto dos deuses e semideuses, estes foram criados para adorá-los. Sua relação com os deuses, porém, não é a do medo (como cristãos) do pecado original – homens e mulheres mantêm relações íntimas com estes deuses. Por exemplo, Aquiles, herói grego da guerra de tróia, era filho de Tétis, uma deusa do mar com Peleu, um rei de Ftia (região grega).

Na visão dos materialistas (marxistas ou não) o homem surge, assim como o universo, do produto das transformações da matéria, sendo seu estágio mais elaborado o homem e seu cérebro, pois este foi capaz de criar condições para sua própria existência e transformação. Este processo durou milhões de anos, tendo o homem passado por diversos estágios até chegar ao que é hoje.

Alguns avanços foram fundamentais para este desenvolvimento, como a descoberta do fogo, a linguagem e o começo da vida coletiva. Logo a seguir, a descoberta da roda, as primeiras divisões do trabalho, a caça e a pesca, e depois a lavoura, tudo isso feito por todos em conjunto, talvez não por um desejo consciente de união, mas como único meio de sobrevivência. A este período conhecido vulgarmente como pré-história ou idade da pedra, nós damos o nome de

Sociedade Comunista Primitiva



A Divisão dos Homens

A sociedade de classes, o escravagismo, o primeiro estágio

O homem se desenvolve continuamente e surge a grande divisão social do trabalho, que passa a ser o motor de um acelerado desenvolvimento da vida: o trabalho intelectual versus trabalho manual.

Alguns homens começam a se apropriar do excedente da agricultura, pecuária e pesca, e percebem que é melhor pensar como melhor produzir e outros continuarem produzindo. No mesmo instante, nas guerras de tribos já não se libertam os presos inimigos, os quais passam a ser mão-de-obra escrava dos vencedores, dando o poder econômico maior a alguns membros.

As respostas aos fenômenos da natureza, como a lua, sol, rios etc. levam o homem a adorá-los e sendo alguns destacados para organizar estes cultos, o germe do estado-religião começa a ser plantado, as decisões coletivas já não dão respostas às novas fases de produção.

Começam a se gestar decisões individuais, e aqueles que têm seus escravos de tribo inimiga agora escravizam homens de sua própria tribo; os primeiros conflitos desta divisão precisam de autoridades para resolvê-los – eis nosso “poder” de estado em conjunto com os dos sacerdotes estruturam o estado. Em uma palavra, a revolução social está completa.

Nós devemos entender como foi importante esta divisão, pois permitiu ao homem se desenvolver em escala nunca experimentada, se desenvolvem as ciências – a medicina, a astronomia, a matemática, a física – surgem os primeiros filósofos, literatos, historiadores. O mundo se livra da ameaça simples de destruição catastrófica produzida pela natureza, que o homem passa a dominar. É o senhor dos mares, das terras e dos ares.

É neste contexto que vamos estudar a sociedade escravagista: Sua literatura, a história e filosofia da época, a política e a economia

Estudo da Teoria do Conhecimento Humano (corte ocidental)


Parte I

Sociedade Escravagista



Modulo I – Literatura

Homero: Ilíada e Odisséia

A) Épicos                   Virgílio: Eneida

Heródoto: História

B) Mitologia     Hesíodo: Teogonia e O trabalho e os dias

C) Costumes    Suetônio: A vida dos doze Césares

Modulo II – Teatro

Sófocles: Prometeu Acorrentado

Ésquilo: Oréstia

Eurípedes: As Bacantes

Modulo III - Filmes

Fellini: Satirycon

Pasollini: Medeia

Roma (mini serie – acrescida hoje)

Stanley Kubrick: Spartacus

Modulo IV – Filosofia

Platão: Fedro

Aristóteles: Ética a Nicômaco

Modulo V – Política e Estado

Plutarco: Alexandre e César, vidas comparadas

Tácito: Os anais

terça-feira, 15 de março de 2011

Antígone - Liberdade ou Morte

“O tempo que terei para agradar aos mortos, é bem mais longo do que consagrado aos vivos...hei-de jazer eternamente!”


Tema: Tragédia, Autoritarismo e Heroísmo



Resumo: Antígone guiou seu pai Édipo, que furara os olhos, por longos anos no exílio até seu descanso final em Colono. Ao voltar para Tebas e ficar noiva de seu primo Hêmon, seus irmãos Polinice e Etéocles lutam pelo poder.

Passado Anterior

Jocasta ao saber que casara como próprio filho, Édipo, se suicida com os lençóis do leito pecaminoso. Édipo ao entrar nos aposentos e ver que a esposa/mãe se matara pega um broche que prende a roupa fura seus olhos para punir seus pecados.

Édipo vai para o Exílio em Colono, cidade próxima à Atenas, seus passo são guiados desde Tebas por sua filha Antígone, que acompanhará suas ultimas reflexões, vendo que a maldição que o pai sofreu, não sendo aceito em nenhum lugar sagrado. Cego e doente é condenado a viver nas proximidades de Atenas.


O Livro




Creonte, o irmão de Jocasta, assume o Trono de Tebas, enquanto os irmãos Polinice e Etéocles crescem para no futuro decidir que será o rei. Já adulto os irmão decidem que se revezaram anualmente no trono, primeiro Etéocles depois a vez de Polinice .

Entretanto Etéocles não cede a vez ao irmão, este busca exílio em Argos, sendo recebido por Adrasto, rei da cidade, que dará uma de suas filhas em casamento. Polinice , com o apoio das tropas do sogro, decide reivindicar o trono de Tebas. Cerca a cidade fazem um acordo de um duelo singular entre os irmãos o vencedor ficará com o trono. Porém, mais uma vez a maldição dos Labdacida( Édipo Rei - ou a maldição dos Labdacidas ) acontece e ambos morrem.

Creonte mais uma vez assume o trono e determina que apenas Etéocles receba as exéquias mortais, enquanto Polinice  seja condenado a ter seu corpo devorado pelas aves de rapina na praia (o maior castigo ao morto).

Antígone, que voltara do exílio após a morte de Édipo, não aceita a decisão de Creonte, tenta convencer Ismênia sua irmã, a não ajudá-la, com medo ela recusa-se. Antígone não se intimida e escondida durante a noite, faz as exéquias do irmão, enterrando-o com as honras necessárias.

Creonte ao saber que o corpo de Polinice  foi enterrado resolveu punir o culpado por desobedecer à ordem e será condenado à morte. Logo descobre que foi Antígone, sua sobrinha e futura nora, ela era noiva de Hêmon filho mais velho de Creonte. Como havia decretada manda que os guardas levem Antígone para morrer de fome e sede sob um conjunto de rochas fora da cidade.

A notícia do castigo a jovem princesa se espalha e uma revolta na cidade se estabelece. Creonte com receio da repercussão de seu ato, manda chamar Tirésias, o adivinho, pra saber o que os deuses acham de sua decisão. Este, ao chegar, diz que o crime de Creonte será purgado com sangue de sua própria família se ele não reparar a tempo o erro cometido.

Creonte temeroso pela previsão de Tirésias manda buscar Antígone, porém, ao chegar na rocha os guardas encontram-na morta junto a ela Hêmon, ambos se suicidaram por não puderem casar. Por fim Eurídice, esposa de Creonte, também se mata.

Comentário sobre o Livro


A maldição do Labdacida tem seu fechamento com as últimas vítimas dela: Antígone, Hêmon e Eurídice. A peça Antígone é uma das mais significativas das que chegaram até nossos dias, pois traz a síntese das tragédias abertas por Édipo Rei e sua antítese representada por Édipo em Colono.

Antígone virou o símbolo da luta contra o despotismo dos governos autoritário, que vai além da Grécia, na época dirigida pelos tiranos. Toda vez que há um governo déspota a peça se agiganta, se impõe nesta luta pela liberdade, ainda que a morte seja o castigo.

Há várias leituras possíveis, como tratamos na analise de Édipo Rei, interessante um pequeno comentário feito por Junito se Souza Brandão que une analise psicológica e política, muito bem localizada, no tema central do livro:

“Do ponto de vista simbólico, todavia, a cegueira que Édipo se infligiu possui um sentido mais profundo. As trevas externas geram a luz interna. A αναγνώριση (anagnórisis), "a ação de reconhecer" e de reconhecer-se começa efetivamente a existir quando se deixa de olhar de fora para dentro e se adquire a visão de dentro para fora. Mergulhado externamente nas trevas, o herói se encontrou. Se Édipo, porque sabia, conquistou o poder, a hipertrofia desse mesmo poder sufocou-lhe o saber. Sua cegueira estabeleceu em definitivo a ruptura entre o saber e o poder: cego, o herói agora sabe, mas não pode. Não mais, como deixa claro Foucault, estamos na época dos týrannoi, dos tiranos, mas na era de Péricles, no século da democracia, que não sabe, mas pode. Tanto que em Édipo Rei os únicos a saber, além dos deuses e os adivinhos, são os humildes, os pastores, que não podem, mas sabem. Por isso mesmo, em sua tragédia Antígona, que é um confronto entre a consciência individual e o despotismo sofistico, Sófocles mostrou com muita clareza que a característica básica de sua personagem central, Antígona, é o direito de opor uma verdade sem poder a um poder sem verdade.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

"O mundo é um moinho" - a política também

"Ainda é cedo, amor
Mal começastes a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar"
(O Mundo é Um Moinho -  Cartola )



Nestes dias, apesar dos graves problemas que tenho enfrentado li os post nos excelentes blogs e no Twitter dos companheiros Maria Frô (este inclusive da voz a Leandro forte para consubstanciar sua posição) e de Maurício Caleiro, aí esta música do Cartola não me saia da cabeça, não conseguia acreditar que valorosos companheiros que juntos demos o bom combate contra a Direita raivosa nas últimas eleições sucumbissem a coisas tão secundárias, do meu ponto de vista, claro.

Pensei em escrever um contraponto, pois respeito e admiro demais os meus amigos, mas vi que seria melhor relembrar o cenário pós-vitória de Lula em 2002, talvez ajude a baixar a fervura.


As grandes Expectativas em Lula e Dilma





As grandes expectativas que existiam na vitória de Lula, o ineditismo de um operário sem formação universitária chegou ao poder empolgaram toda uma esquerda de longa trajetória de luta, desde as célebres greves do ABC. Estas mesmas expectativas foram redobradas com o fim de um governo de mais acertos do que erros e que consegui mudar a cara do Brasil nos últimos 8 anos, com a vitória de Dilma, uma mulher que nunca tinha sido candidata a nada, vencer as eleições presidenciais foi algo formidável.

Passado dois meses um serie de polêmicas se estabeleceu no seio da esquerda organizada, e certa impaciência com os rumos de seu governo. Decidi relembrar um pouco do que foram os 2 primeiros anos, vejam não 2 meses, digo anos, do Governo Lula, apenas pra refrescar nossa memória e refletir melhor o momento.

Lula: o filho do ABC



Lula chega ao poder central depois de 25 anos das grandes greves do ABC que o projetara como grande líder de massas, não forjado em escolas tradicionais de sindicalismo comunista. Ele forja-se como peão que cresce dentro de uma fábrica num regime de exceção cujas liberdades sufocantes é a mola mestra do crescimento econômico, mas na segunda metade dos anos 70 os militares já não davam conta nem do crescimento econômico, bombardeado pela crise do petróleo, muito menos das demandas sociais por liberdade política. A esmagadora vitória do MDB em 74 e 78 prepara um novo ambiente.

As greves de 78/79 lideradas pelo metalúrgico até então desconhecido, são o tiro que faltava para deflagrar o grande movimento pela anistia, liberdade política. Em 80 a ultima tentativa dos militares foi liberar os partidos, com claro objetivo de dividir as oposições, daí surge a grande novidade política do Brasil, o PT.

Sem muitas delongas, este não é objetivo aqui, o PT se forja como a opção vinda da classe trabalhadora mais vitoriosa do país, desde seu inicio identifica a necessidade de chegar ao poder, e nove anos depois chega ao segundo turno da eleição presidencial deixando para trás lideranças expressivas como Brizola e Ulisses. Lula se consolidará como alternativa de poder nas próximas eleições, carregando consigo todo um simbolismo de lutas sócias e transformações.

Talvez lidar com estas grandes expectativas seja a parte mais complexa da montagem do governo inicial, como atender demandas reprimidas num ambiente econômico tão ruim?

2003-2005 Lula era um “traidor”?



Desde a montagem da equipe e de algumas medidas houve acertos óbvios e erros clamorosos inoperantes. A equipe econômica não poderia fugir da lógica do mercado, não havia qualquer espaço de manobra e as medidas tomadas foram coerentes com o momento para dar fôlego futuro: 1) Exportações; 2) controle da inflação; 3) aumento do salário mínimo acima da inflação (1,46%), nada mais podia ser feito de substancial.

Estabeleceu-se uma grande polêmica a ida de Henrique Meireles para o Banco Central. Meireles tinha sido Presidente do Bank Boston e depois eleito Deputado Federal pelo PSDB-GO, como todas estas credenciais uma área estratégica do governo foi entregue a um “adversário”.

A prioridade zero do início do Governo Lula foi a Reforma da Previdência II, um aprofundamento da primeira conduzida pelo Governo FHC, no movimento sindical e na esquerda petista houve grave comoção, inclusive Heloisa Helena, Babá e Luciana Genros foram expulsos do PT, vindo formar o PSOL.

José Dirceu que liderava a Casa Civil foi incensado pela imprensa como o homem forte do Governo, chegando a ser eleito a personalidade do ano. Era o interlocutor do grandes jornais, entrevistas nas principais revistas e TVs, a mídia estava apaixonada pelo governo que não lhe era hostil.

Do ponto de vista social o grande acerto foi o lançamento da “Fome Zero” era mais que uma marca, um compromisso para aquele tempo, mas faltaram gestores que entendessem profundamente como montar um programa social tão amplo.

Do ponto de vista político a não vinda do PMDB ao governo causou graves transtornos ao governo mesmo sendo vitorioso na eleição majoritária o governo era ampla minoria no congresso o bloco efetivo que venceu a eleição só tinha 192 deputado e pouco mais 20 senadores.

Os operadores políticos de Lula foram para tática de ganhar apoio no varejo e em bases partidárias que não tinham compromissos algum com o projeto, a troca de favores e futuros financiamentos de campanha virou a moeda de troca, notadamente com o PTB de Roberto Jefferson, que foi o partido escolhido para desembarcar estes “apoios”. A lógica traçada por Zé Dirceu deste tipo frágil de apoio desembocará no Mensalão, o valerioduto criado pelo PSDB mineiro, foi amplamente usado pelos operadores Petistas, a grande diferença é que, no caso mineiro não havia interesse em denunciá-lo. No caso de Brasília tornou-se o escândalo nacional, a mídia amplificou as denuncias, CPIs e toda sorte.

Por um erro tático de FHC e aliados, que achavam que Lula iria sangrar em praça publica e desagregar seu governo, ele não foram à frente com o impeachment. Por esta lógica qualquer candidatura de oposição bateria Lula no primeiro turno, este foi refresco melhor que Lula poderia receber.

Que conjuntura é esta?

"Ouça-me bem, amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos"

Vai reduzir as ilusões a pó

Em recente Post coloquei minha visão sobre o Governo Dilma e seus primeiros desafios, não pretendo ditar a verdade, mas abrir um debate sempre franco com esta parte da esquerda que pensa com mais com estrategia o futuro, que dar o bom combate, que não se furta de criticar, não diz amém. Mas ao mesmo tempo não é sectária e estreita, que sabe dos percalços de um governo de esquerda dentro da lógica capitalista.

Os desafios estão colocados, vamos abrir o debate, não acredito que depois de vencer a Direita agora abramos mão do Governo que nós elegemos, ao contrário do Maurício acho que a "primavera digital" nem se abriu no Brasil, temos muito a percorrer. Voltemos à razão cada um aqui tem sua importância política, mas não somos os donos da verdade, esqueçamos os excessos causados por um debate desgastante e sigamos juntos e em frente. Abraços fraternos e camaradas sempre.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Ájax - Herói e sua Hybris

Ájax

Sófocles


“Sem os grandes, os pequenos

são o amparo de uma torre vacilante;

mas, aliado aos grandes, o pequeno melhor

Se ergueria, assim como o grande seria erguido pelos menores.”

Tema: Tragédia. Traição. Autoritarismo e Heroísmo

Resumo: Após a morte de Aquiles, nos muros de Tróia, os heróis Gregos se reúnem para homenageá-lo e fazem um torneio para saber com quem ficarão as suas armas. Os dois concorrentes são Odisseu e Ájax Telamon.

O Livro




Morto Aquiles, os heróis se reúnem e fazem um torneio para decidir quem ficará com as armas dele. Odisseu vence o duelo contra Ájax e fica com as armas de Aquiles. Ájax que era reconhecidamente o segundo maior e mais forte herói, fica revoltado suspeitando que Agamenon o comandante em chefe da armada grega, trapaceou nas regras do torneio para beneficiar Odisseu.

Ájax se rebela e recolhe-se ao seu acampamento, abandonando a luta contra os troianos, mas sua hybris de vingança não o deixa em paz, quer matar Odisseu, pois personifica a humilhação sofrida. A noite vai ao acampamento Grego para sua realizar seu intento, no entanto a deusa Palas Athena o engana e “cega”, que pensando tratar-se de soldados gregos, ataca ferozmente e mata todo rebanho grego, exceto um belo boi, que julga ser Odisseu, amarra-o e o leva consigo.

Ao amanhecer diante da carnificina os heróis se reúnem e vão ao acampamento de Ájax, que ao acordar percebe o mal causado, profundamente arrependido diante da assembléia se suicida com a própria espada.

Teucro seu amigo e meio-irmão tentar levar o corpo para prestar as exéquias e as justas homenagens ao grande herói que enlouquecera e se matara, porém impedido pelos fracos e covardes irmãos Menelau e Agamenon que comanda a armada Grega. Estes humilham Teucro ameaçando-o, pois Ájax teria que ser comido pelas aves de rapina pelo crime cometido.

Neste instante entra Odisseu, que apesar de ser o alvo do ódio de Ájax, coloca-se ao lado de Teucro e faz belo discurso lembrando o quanto Ájax fez pelos gregos, que fora Herói por toda vida, não podendo ser esquecido após a morte, mesmo com seu fatal erro. Arremata assim, Odisseu:

“Não, não conheço nenhum e, embora seja meu inimigo,

lamento seu infortúnio. Esmaga-o terrível fatalidade.

Em seu destino entrevejo meu próprio destino.

Todos quantos vivemos, nada mais somos

que farrapos de ilusão e sombras vãs”

Pequeno Comentário

É um pequeno livro com grandes reflexões em que traça um perfil moral de alguns Heróis gregos, desde Ájax movido pela Hybris da vingança em busca de seu timé(honra) até as palavras sábias e sensatas de Odisseu, passando pela covardia e vilania dos irmãos Menelau e Agamenon, que com mesquinharia queriam sonegar as homenagens ao grande herói que enlouquecera.

Cabe lembrar os muitos companheiros que lutaram conosco e por qualquer motivo se recolhem nos deixam, então passamos a desprezá-los ou fingir que eles nada fizeram pela nossa luta. Este livro desperta este sentimento de saber os limites de cada um, saber que cada um fez uma parte, que tiveram/tem seu valor, que devemos respeitá-los em suas opções e engrandecê-los pelo que fizeram ao nosso lado.

Nota sobre Hybris:

"hýbris" ( ὕϐρις ) é força desmedida que ultrapassa a medida do herói ou do homem para com os seus ou em relação aos deuses,  fatalmente ele será punido.  Como bem observa Junito de Souza Brandão:

“O herói acumula atributos contraditórios. De natureza excepcional, ambivalente, não raro aberrante e monstruosa, o herói se revela resplandecente e tenebroso, simultaneamente bom e mau, benfeitor e flagelo. Dominado por uma  ὕϐρις, "hýbris" incoercível, sua "démesure", seu descomedimento não conhece fronteiras nem limites.”

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A questão do Herói - Grécia sopra sobre nós


(Aquiles o Pelida)



Hoje amanheci com um artigo sobre Aquiles, o Pélida, pronto para escrever, como já escrevera sobre a Ilíada (ou a Ira de Aquiles) Iliada - Resumo , pensei em particularizar a trajetória deste Herói por excelência, mas aí resolvi voltar a ler algumas características do HERÓI em Junito de Souza Brandão, esqueci, por enquanto, Aquiles e farei um amplo panorama dobre o conceito do que seria Herói, desde o mundo Grego, mas muito presente no mundo atual.

Vamos lá nesta imensa tarefa, espero que perdoem as longas citações, mas não quero perder a essência do pensamento de grandes escritores sobre o tema.



Definição



Píndaro em suas Olímpicas distinguia três categorias de seres: deuses, heróis e homens e que Platão, no Crátilo acrescentou os demônios como uma quarta espécie na galeria dos protetores e intermediários entre os mortais e os imortais.

A etimologia  ήρωας (héros) talvez se pudesse aproximar do indo-europeu servä, da raiz ser-, de que provém o avéstico haurvaiti, "ele guarda" e o latim seruäre, "conservar, defender, guardar, velar sobre, ser útil", donde herói seria o "guardião, o defensor, o que nasceu para servir".






(Héracles - Hércules)



Angelo Brelinch na sua obra  sobre os heróis, Gli Eroi Greci, após observar que, numa religião tão plástica como a grega, embora exista uma diferença muito grande entre um herói e outro, o que se deve ao "princípio informador de uma religião politeísta que tende a diferenciar e a fixar em formas plásticas suas múltiplas experiências e exigências", chega à conclusão de que é possível, mutatis mutandis, traçar um retrato do herói grego. Para ele poderia ser descrita a estrutura morfológica dos heróis: "virtualmente, todo herói é uma personagem, cuja morte apresenta um relevo particular e que tem relações estreitas com o combate, com a agonística, a arte divinatória e a medicina, com a iniciação da puberdade e os mistérios; é fundador de cidades e seu culto possui um caráter cívico; o herói é, além do mais, ancestral de grupos consangüíneos e representante prototípico de certas atividades humanas fundamentais e primordiais. Todas essas características demonstram sua natureza sobre-humana, enquanto, de outro lado, a personagem pode aparecer como um ser monstruoso, como gigante ou anão, teriomorfo ou andrógino, fálico, sexualmente anormal ou impotente, voltado para a violência sanguinária, a loucura, a astúcia, o furto, o sacrilégio e para a transgressão dos limites e medidas que os deuses não permitem sejam ultrapassados pelos mortais. E, embora o herói possua uma descendência privilegiada e sobre-humana, se bem que marcada pelo signo da ilegalidade, sua carreira, por isso mesmo, desde o início, é ameaçada por situações críticas. Assim, após alcançar o vértice do triunfo com a superação de provas extraordinárias, após núpcias e conquistas memoráveis, em razão mesmo de suas imperfeições congênitas e descomedimentos, o herói está condenado ao fracasso e a um fim trágico".

Mircea Eliade complementa o retrato do herói, traçado por Brelich: "Utilizando uma fórmula sumária, poderíamos dizer que os heróis gregos compartilham uma modalidade existencial sui generis (sobre-humana, mas não divina) e atuam numa época primordial, precisamente aquela que acompanha a cosmogonia e o triunfo de Zeus. A sua atividade se desenrola depois do aparecimento dos homens, mas num período dos 'começos', quando as estruturas não estavam definitivamente fixadas e as normas ainda não tinham sido suficientemente estabelecidas. O seu próprio modo de ser revela o caráter inacabado e contraditório do tempo das 'origens'…”



Como surgem os heróis?










Para o nascimento dos heróis e seus significados a citação precisa de Junito e as análises de Jung fazem todo sentido:

"Via de regra, os heróis têm um nascimento complicado, como Perseu, Teseu, Héracles e muitíssimos outros. Descendem de um deus com uma simples mortal: Minos, Sarpédon e Radamanto, filhos de Zeus e Europa; Castor, Pólux, Clitemnestra e Helena, do mesmo Zeus e Leda; Asclépio, de Apolo e Corônis; ou de uma deusa com um mortal: Enéias e Aquiles, frutos respectivamente dos amores de Afrodite e Anquises e de Tétis e Peleu ou, por vezes, lhe é atribuída uma "dupla paternidade": Teseu é filho de Posídon e "Egeu"; Héracles, de Zeus e "Anfitrião". Neste último caso, como acentua Jung, falando sobre os arquétipos, "toda criança vê nos pais uma 'parelha divina', cuja 'mitologização' continua as mais das vezes, até a idade adulta e somente é abandonada após uma ingente resistência. Pois bem, o medo de perder, no curso da vida, essa conexão com a fase prévia, instintiva e arquetípica da consciência, é geral e foi exatamente esse temor que provocou, desde muito, que se agregassem aos pais carnais do recém-nascido dois padrinhos, um godfather e uma godmother, como se chamam em inglês, ou um Götti e uma Gotte, como se diz em alemão da Suíça, os quais devem cuidar do bem-estar espiritual do afilhado. “Tais padrinhos representam a ‘parelha’ de deuses, que aparece no nascimento da criança e patenteia o tema do duplo nascimento”.

Há múltiplas formas de nascimento destes heróis:

“Os heróis podem ter ainda um nascimento irregular, em conseqüência de um incesto: Egisto é fruto do incesto de Tieste com sua filha Pelopia, e a "ninhada tebana", Etéocles, Polinice, Antígona e Ismene, provém de Édipo com sua própria mãe Jocasta...; acrescente-se, ademais, que muitos heróis, além do nascimento difícil ou irregular, são expostos, por força normalmente de um Oráculo, que prevê a ruína do rei, da cidade, ou por outros motivos, caso o recém-nascido permaneça na corte ou na pólis. É assim que Páris, Édipo e Egisto são expostos num monte. O primeiro o foi porque sua sobrevivência, como sonhara sua mãe Hécuba, ameaçava Tróia; Édipo, porque, segundo o oráculo, estava condenado a cometer parricídio e casar-se com a própria mãe; e Egisto, porque Pelopia fora violada; outros são expostos nas águas do mar, como Perseu, que punha em perigo a vida de seu avô, o rei Acrísio; Reso, Reso, 926sq.; e, segundo algumas versões, os gêmeos Pélias e Neleu, filhos de Posídon e Tiro, além de Tenes e sua irmã Hemítea… Em geral, o exposto é recolhido por uma pessoa humilde e criado numa corte: Édipo, no palácio de Pólibo e Mérope, em Corinto; Perseu, no de Polidectes, na ilha de Sérifo. Alguns expostos em montes, como Egisto e Páris, são alimentados por um animal: o troiano Páris o foi por uma ursa; Egisto, por uma cabra, por sinal,  o simbolismo da alimentação de um herói ou futuro rei por um animal.







Honra e Excelência – e a Educação do herói






O herói já nasce com as duas virtudes que lhe são inatas: Τιμή (timé), a "honorabilidade pessoal" e a αριστείας (areté), a "excelência", a superioridade em relação aos outros mortais, o que o predispõe a gestas gloriosas, desde a mais tenra infância ou tão logo atinja a puberdade: Héracles, conta-se, aos oito meses, estrangulou duas serpentes enviadas por Hera contra ele e seu irmão Íficles; Teseu, aos dezesseis anos, ergueu um enorme rochedo sob que seu pai Egeu havia escondido a espada e as sandálias; o jovem Artur, e somente ele, foi capaz de arrancar a espada mágica de uma pedra…

Junito ainda exemplifica:

“Jasão, tão logo abandonou a corte de Iolco, foi entregue ao grande educador de heróis, o Centauro Quirão, de que já se falou no Vol. II, p. 90. Aos vinte anos organizou a célebre Expedição dos Argonautas. Navegou com seus cinqüenta e cinco heróis através das "rochas azuis", as Ciâneas, também denominadas Simplégades, "as rochas que se fecham", chegou à Cólquida, venceu as "provas" impostas por Eetes, enganou o dragão que guardava o Velocino de Ouro e regressou com o mesmo, para disputar com o usurpador Pélias o trono que a ele Jasão cabia de direito e de fato. Prometeu, o filantropo, vencidas tantas fadigas e renúncias, escalou o Olimpo, roubou o fogo celeste e recuperou a humanidade. Enéias, após tantos sofrimentos "em terra e no mar", acompanhado da Sibila de Cumas, desceu aos Infernos e, após cruzar os mortais rios do Hades e passar pelo monstruoso Cérbero, pôde afinal dialogar com o eídolon, a umbra, a sombra de seu pai Anquises. Todas as coisas lhe foram reveladas: o destino das almas, o destino de Roma, que ele iria fundar, e sobretudo como suportar tantas aflições e sofrimentos que ainda teria pela frente. Enéias, o “piedoso Enéias”, voltou ao mundo da luz através da porta de marfim, para realizar todas as tarefas que as Parcas lhe impuseram”.



Também no oriente :

“Uma representação majestosa das lutas por que passa o herói no esquema separação-iniciação-retorno é a lenda das Grandes Batalhas que travou o príncipe Gautama Säkiamüni, o Buddha, desde a renúncia às comodidades e prazeres da difícil "iluminação perfeita", estado de liberação, que lhe possibilitou sair de sob a "quarta árvore" e comunicar a todos o conhecimento do caminho.”



Ou na Bíblia com Moisés:

“Fato, de certa forma semelhante, é registrado no Antigo Testamento, Êxodo 19-20, quando Moisés, completados três meses da partida do povo de Israel do Egito e sua penosa caminhada pelo deserto, chegou ao Monte Sinai e, sozinho, o escalou para ir falar a Javé, que lhe entregou as Tábuas da Lei e ordenou-lhe que voltasse com elas para Israel, o povo do Senhor. “





Conclui-se que:



“Como é dado observar, do Oriente ao Ocidente, o mito do herói segue normalmente o modelo da unidade nuclear exposto acima: a separação do mundo, a penetração em alguma fonte de poder e um regresso à vida, a fim de que todos possam usufruir das energias e dos benefícios outorgados pelas façanhas do herói.”







Educação






A educação do Herói segue mais ou menos os mesmos termos a imaginada para o cidadão grego, claro aquele já nasce uma timé e uma areté especiais, terá que preparar-se para a execução de suas magnas tarefas. É precisamente a esse preparo que se dá o nome de educação do herói.



Consoante Júlio Pólux, gramático e retor alexandrino do séc. II p.C, em seu dicionário , Onomástico, II, 4, Hipócrates dividia a vida humana em oito períodos de sete anos. A educação clássica e sobretudo a da época helenística, a partir do séc. IV a.C, ocupava as três primeiras etapas. A primeira fase, denominada paidíon, "idade infantil", ia de 1 a 7 anos, e a "educação" era ministrada em casa; a segunda, paîs, o "menino", de 7 a 14 anos, era a idade em que a criança, quer dizer, o menino, "o sexo masculino", escapava à vigilância materna e iniciava seu período escolar propriamente dito. A etapa seguinte, chamada meirákion, "adolescente", de 14 a 21 anos, o período da efebia, era coroado, de certa forma, por um estágio de formação cívica e militar.

A condição feminina é que , em tese, ela percorria, ao menos a partir da época helenística, as mesmas etapas educativas que os jovens, podendo até mesmo, como em Esparta, participar de exercícios físicos na Palestra e no Ginásio, mas o "ideal de mulher" não é o da que estuda e "participa", mas aquele traçado, com gulosa satisfação machista, por Iscômaco, no Econômico, 7, de Xenofonte, ao descrever para Sócrates o que era, por ocasião de seu casamento, a esposa "por ele escolhida": "ela estava com quinze anos, quando entrou em minha casa. Até então fora submetida a uma extrema vigilância, a fim de que nada visse, nada ouvisse e nada perguntasse. Que poderia eu desejar mais? Tenho nela uma mulher que aprendeu não só a fiar a lã, para fazer um manto, mas ainda como distribuir tarefas às escravas fiandeiras. Quanto à sobriedade, ela foi muito bem instruída. Excelente, não?"





Eis aí uma síntese da educação ateniense da época da decadência, porque a espartana sempre foi bem diversa. Este quadro, em que se estampa resumidamente o essencial da educação ministrada aos jovens de Atenas, é necessário para que se compreenda a educação mítica dos heróis, que, em linhas gerais, é uma transposição daquela. É claro que se omitiu, até o momento, a formação religiosa, sobretudo o catálogo de ritos de passagem, os imprescindíveis ritos iniciáticos, mas, no decorrer da exposição sobre a educação dos heróis, faremos alguns comentários a esse respeito.



Os preceptores dos Heróis








Vários foram os mestres dos heróis, como Lino, Eumolpo, Fênix, Forbas, Cônidas…, mas o educador-modelo foi o pacífico Quirão, o mais justo dos Centauros, na expressão de Homero, Il. XI, 832. Muitos heróis passaram por suas mãos sábias, na célebre gruta em que residia no monte Pélion: Peleu, Aquiles, Asclépio, Jasão, Actéon, Nestor, Céfalo… lista que é enriquecida por Xenofonte, em sua obra Cinegética, 1,21 (Tratado sobre a Caça) com mais catorze nomes! Quirão era antes do mais um médico famoso, donde sua arte primeira era a Iátrica, mas seu saber enciclopédico, como aparece nos monumentos figurados e literários, fazia do educador de Aquiles um mestre na arte das disputas atléticas, Agonística, e talvez praticasse e ensinasse ainda a arte divinatória, Mântica. Não pára aí, todavia, a versatilidade de Quirão: ministrava igualmente a seus discípulos conhecimentos relativos à caça, Cinegética; à equitação, Hípica, bem como lhes ensinava a tanger a lira e o arremesso do dardo… Mais que tudo, no entanto, o fato de ser Quirão um médico ferido, um xamã, e residir numa gruta evocam, de pronto, sua função mais nobre e indispensável aos jovens "históricos", mas sobretudo aos heróis míticos, a saber, a ação de fazê-los passar por ritos iniciáticos, que outorgavam aos primeiros o direito à participação na vida política, social e religiosa da pólis e aos segundos a imprescindível indumentária espiritual, para que pudessem enfrentar a todos e quaisquer monstros…





Nomes e a "identidade Secreta"



Como em muitos escritos já tratei dos ritos iniciáticos ( Grécia: O Eterno retorno ), não o farei novamente aqui, apenas uma parte curiosa seria a questão do nome, ou identidade “secreta” (alguém lembra... Batman, Superman, Homem Aranha etc), vejamos alguns trechos de Junito:





“A respeito da extraordinária importância do nome, comenta Luís da C. Cascudo: "O nome é a essência da coisa, do objeto denominado. Sua exclusão extingue a coisa. Nada pode existir sem nome, porque o nome é a forma e a substância vital. No plano utilitário as coisas só existem pelo nome. (...) Conhecer o nome de alguém, usá-lo, é dispor da pessoa, participando-lhe da vida mais íntima".



Os vários nomes assumidos pelos Heróis gregos:

Outro fato muito importante na iniciação heróica e histórica é a mudança do nome. Jasão somente deixa seu mestre Quirão aos vinte anos, após receber um novo nome, consoante Píndaro, Píticas, 4,104 e 119. Outro que mudou de nome, por obra da arte iniciática do mesmo preceptor, foi Aquiles, conforme testemunha Apolodoro, 3,172. Igualmente Teseu só recebe seu verdadeiro nome, ao término da adolescência, quando foi reconhecido pelo pai, no dizer de Plutarco, Teseu, 4,1. O próprio Héracles, antes de tornar-se "a glória de Hera", antes do término dos Doze Trabalhos, chamava-se Alcides. Também e sobretudo Simão recebeu o nome de Pedro, Jo 1,42, após o olhar fixo do Senhor, e foi sobre este rochedo que se ergueu o Castelo indestrutível, contra o qual nem mesmo as portas do Inferno prevalecerão, Mt 16,18. Na Índia védica, num rito de passagem, de separação e sobretudo de agregação, no décimo dia de nascimento, a criança recebia dois nomes, um comum, que a agregava ao mundo e o outro, que a separava de todos, porque se tratava de um nome secreto, de que só a família tinha conhecimento. Em culturas primitivas, via de regra, a criança mudava de nome tantas vezes quantas as etapas de seu crescimento e, possivelmente, do seu desenvolvimento iniciático. É assim que a mesma recebe, de início, uma denominação vaga, depois um nome pessoal conhecido, a seguir um nome pessoal secreto e, por fim, talvez como acréscimo a este último, um nome de família, de clã, de sociedade secreta.

Desse modo, o nome (secreto, religioso) separa o "nominado" de seu mundo anterior, profano, impuro, para integrá-lo no sagrado, o que explica a mudança de nome entre religiosos atuais.”



E também na Bíblia:

Eis aí o motivo por que os heróis, as cidades, os deuses, além do nome conhecido, possuíam um outro, o secreto. Moisés morreu sem saber o nome de Deus, o que não deve ser interpretado como tabu ou superstição, mas simplesmente como um "hábito bem oriental". Pois bem, em Ex 3,6, quando Moisés chegou através do deserto ao monte de Deus, Horeb, o Senhor se lhe deu a conhecer, dizendo: como "Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó". Acatando a ordem de ir ao encontro dos filhos de Israel no Egito, Moisés, todavia, quis saber como responder ao povo, se este lhe perguntasse qual o nome do Deus que o enviara, ao que Javé retrucou: "Eu sou aquele que sou. E disse: Assim dirás aos filhos de Israel: Aquele que é enviou-me a vós" (Ex 3,14). Em Jz 13,17-18, quando Manoá, pai de Sansão, desejou saber o nome do anjo com quem dialogava, este lhe respondeu: "Por que perguntas tu o meu nome, que é admirável?" E mais não disse. “

E Maomé...

“Maomé, segundo se sabe, preceituava que Alá possuía cem nomes, mas só se conheciam noventa e nove! O centésimo era secreto, inefável.”

No Egito



“Se a Dioniso se atribuíam 96 nomes e a Osíris 100, Ísis possuía 10.000!… E assim, como descobrir o verdadeiro, o inefável? Aliás, no impropriamente denominado Livro dos Mortos, a alma, ao chegar diante de Osíris, para recitar as célebres confissões negativas, diz-lhe, de saída: "Eu te conheço e conheço também o nome das quarenta e duas divindades que estão contigo nesta sala das duas Maât… " 24 Conhecer o nome de Osíris e das quarenta e duas divindades, que lhe vão ouvir as confissões negativas, é para a alma, que vai ser julgada, um pré-requisito psicológico de salvação. Se uma palavra em si já é mágica, e se o nome é parte da pessoa, ou da coisa, conhecê-lo é dispor da pessoa ou do objeto, porque também as coisas e os objetos têm alma, vida; têm energia, têm mana. Por saber o nome de seu arco, Ulisses foi o único a retesá-lo, no célebre episódio da matança dos Pretendentes, Odis. XXI, 409-412.”

E ainda tem de outro lado, mutilar ou apagar o nome de uma pessoa, de um animal ou de um objeto é condená-los à impotência ou à morte.

“Quando Amenófis IV, o famoso Akhnaton, tentou impor Aton (Disco Solar) como deus único do Egito, mandou martelar o nome de Amon nas inscrições monumentais. Nas paredes de monumentos egípcios, os hieróglifos que estampam nomes de animais ferozes ou perigosos aparecem mutilados, tirando-lhes, com isso, toda e qualquer eficácia maléfica. Recordando a tradição egípcia de "matar o nome", fazendo-o raspar dos monumentos, Javé, no Dt 29,20, ameaça destruir os que não guardarem a aliança, adorando outros deuses: "o Senhor apague o seu nome de debaixo do céu".



Arremata Jung:

"Somente a mente primitiva acredita no 'nome verdadeiro'. No conto de fadas, alguém pode reduzir a pedaços o corpo do pequeno Rumpelstilz simplesmente pronunciando o seu verdadeiro nome. O chefe tribal oculta o seu verdadeiro nome e adota paralelamente um nome exotérico, para uso diário, a fim de que ninguém o enfeitice, conhecendo seu verdadeiro nome. No Egito, quando se sepultava o faraó, davam-se-lhe os verdadeiros nomes dos deuses, em palavras e em imagens, a fim de que ele pudesse obrigar os deuses a cumprir suas ordens, só com o conhecimento dos seus verdadeiros nomes. Para os cabalistas, a posse do verdadeiro nome de Deus significa a aquisição de um poder mágico. Em outras palavras: para a mente primitiva, o nome torna presente a própria coisa. 'O que se diz, torna-se realidade', diz o antigo ditado a respeito de Ptah"





A Morte







Se o herói tem um nascimento difícil e complicado; se toda a sua existência terrena é um desfile de viagens, de arrojo, de lutas, de sofrimentos, de desajustes, de incontinência e de descomedimentos, o último ato de seu drama, a morte, se constitui no ápice de seu páthos, de sua "prova" final: a morte do herói ou é traumática e violenta ou o surpreende em absoluta solidão.

A imensa maioria dos heróis morre de forma trágica, como a completar um ciclo, que desde o nascimento até seu fechamento seu feitos são dolorosos e marcantes. Uns se matam, como Ájax Telamônio, Hêmon, Antígona, Jocasta, Fedra, Egeu. A guerra, as justas e as vinganças são as grandes ceifadoras. Basta abrir a Ilíada e o final da Odisséia, que se passa a nadar num mar de sangue. Da morte de Reso, Pátroclo e Heitor até o massacre dos pretendentes, no XXII canto da Odisséia, a cruenta seara do deus Ares produziu frutos em abundância!

Quanto ao assassínio pode ser o mesmo agravado, segundo se viu mais acima, pelo grau de parentesco entre o criminoso e a vítima ou ainda pela crueldade com que foi praticado: Foco é sacrificado pelos próprios irmãos Peleu e Télamon; Agamêmnon é traiçoeiramente morto pela esposa Clitemnestra e esta pelo próprio filho Orestes. Por vezes os heróis são vítimas de acidentes fatais: Orestes, o argonauta Mopso, Ofeltes (Apol. 3,65), Épito (Paus. 8,4,7), Citéron, Eurídice (Verg. Geórgicas, 4,457), Hespéria (Ov. Metamorfoses, ll,769sqq.) são mortos, em circunstâncias várias, por mordidelas de serpentes; Héracles, tão valente e vigoroso, incendiou-se num simples manto que, por ciúmes, lhe enviara a esposa Dejanira. Desesperado de dor, o gigantesco herói, segundo se verá, lançou-se numa fogueira no monte Etna.

Teseu, que vencera o Minotauro, foi empurrado pelas costas para um abismo. Odisseus, o mais solerte dos gregos, foi assassinado por um simples adolescente, que, por acaso, era seu filho… Aquiles pereceu, ingloriamente, por uma simples flecha lançada talvez ao acaso por Alexandre ou Páris, o menos autêntico dos heróis troianos da Ilíada. Também um herói, como Édipo, pode morrer, ouvindo apenas os balbucios do silêncio, em absoluta solidão.



A morte do herói, todavia, se constitui no clímax de sua dokimasía, do "conjunto de provas" por que passou esse espancador de trevas. A morte é seu último grau iniciático, quando então, como se expressa Sófocles no último verso de Édipo em Colono, 1779 "quando então a história se fecha em definitivo". Acta est fabula, terminou a tragédia ou a comédia. ..



É a morte, no entanto, que lhe confere e proclama a condição sobre-humana.Em Esparta, consoante Xenofonte, República dos Lacedemônios, 15,9, os reis mortos eram cultuados "não como homens, mas como heróis" e acrescenta .Heródoto, 6,58, que dessa forma de veneração fazia parte igualmente a lamentação ritual.



Desse modo, a morte do herói transforma-o em daímon, num intermediário entre os homens e os deuses, num escudo poderoso que protege a pólis contra invasões inimigas, pestes, epidemias e todos os flagelos. Partícipe de uma "imortalidade" de cunho espiritual garante a perenidade de seu nome, tornando-se, destarte, um arquétipo, um modelo exemplar para quantos "se esforçam por superar a condição efêmera do mortal e sobreviver na memória dos homens".



Mais algumas palavras



Junito resume assim:

“Mas este é tão-somente um lado dessa personagem tão polimórfica e ambivalente, embora prototípica de tantas atividades humanas. Observando-a mais de perto, nota-se que a beleza e a bravura de Aquiles podem ser empanadas física e moralmente por caracteres monstruosos: um herói aparece igualmente e com muita freqüência sob forma anormalmente gigantesca ou como baixinho; pode ter um aspecto teriomorfo e andrógino; apresentar-se como fálico; sexualmente anormal ou impotente; pode ser aleijado, caolho, ou cego; estar sujeito à violência sanguinária, à loucura, ao ardil e astúcia criminosa, ao furto, ao sacrilégio, ao adultério, ao incesto e, em resumo, a uma contínua transgressão do métron, vale dizer, dos limites impostos pelos deuses aos seres mortais.”



“Alguns exemplos colhidos entre centenas de outros poderão dar uma idéia dos atributos contraditórios, da vasta complexio oppositorum desses seres "divinamente monstruosos".



“De saída, como se está falando de atributos contraditórios, é conveniente lembrar que o herói tem a faculdade de ser tanto uma fonte quase inesgotável de bons serviços quanto de maldição, sobretudo quando ofendido nesta vida ou depois da morte, o que pode ser, de certa forma, confrontado com a ambivalência das divindades.”



Por fim:

“A ambivalência do herói mítico, seu lado luminoso e sua face escura, essa notória complexio oppositorum fazem parte integrante, ipso facto, do todo de sua personalidade, plasmada illo tempore, no tempo das origens. E é como agente e garante da transformação criadora, de que surgiu a ordem existente no mundo atual, que é também, no fundo, obra sua, que o herói está sempre pronto para defender o status quo vigente.”



“O herói é, pois, o que é: uma complexio oppositorum. E assim sendo, talvez se pudesse encerrar o presente capítulo com uma outra "conjugação dos opostos": se de um lado a "idealização é um apotropismo secreto, porque se idealiza, quando se quer conjurar um perigo", de outro, não se pode abandonar por completo a "idealização heróica", porque "quando o homem perde a capacidade de idealizar, sobrevém fatalmente a morte do mundo heróico", um mundo que faz falta, porquanto "uma das grandes crises do mundo moderno é a esterilização da imaginação".





É bom não esquecer que o termo imaginatio, "imaginação" é correlato de imago, "imagem" e perder a "imagem" pode não ser muito conveniente...