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segunda-feira, 16 de maio de 2011

#GenteDiferenciada : O novo está nascendo?


O movimento #GenteDiferenciada foi uma reação extremamente politizada e bem humorada a uma frase, um ato falho, de uma psicóloga(??), moradora do aristocrático bairro de Higienópolis: “Eu não uso metrô e não usaria. Isso vai acabar com a tradição do bairro. Você já viu o tipo de gente que fica ao redor das estações do metrô? Drogados, mendigos, uma gente diferenciada...”

A frase simbólica representava o repúdio à implantação de uma estação de metrô no bairro, um abaixo-assinado com 3500 assinatura foi entregue ao Governo de São Paulo e aceito como desejo da comunidade de Higienópolis demonstrando todo seu compromisso com a parcela mais rica e privilegiada da cidade. Uma cidade carente de transporte público sonega o direito aos trabalhadores que ali labutam a facilidade de se locomover e chegar no horário e ter uma melhor qualidade de vida. Tudo isto em nome de um grupo que, em regra, não precisam de horários rígidos ou se incomodam de andar com seus ricos carros de luxos ou seus helicópteros.


Através do Facebook e Twitter começou um Hashtag viral: #GenteDiferenciada e a convocação de Churrascão desta gente diferenciada em frente ao templo de consumo do bairro, o que parecia apenas uma brincadeira dos que apenas se revoltam desde seus sofás virou um movimento de fato, uma inusitada manifestação seguiu pelo bairro, mostrando uma nova cara, uma nova forma de exercício de cidadania. As caras espantadas nas janelas no começo deram lugar a sorrisos, houve um entendimento que as pessoas ali embaixo não eram contra o bairro, a comunidade.



Alguns se excederam via Twitter e Facebook descambando para frases anti-semitas, mas a imensa maioria passou ao largo destas manifestações, inclusive foi de grande utilidade a frase anti-semita do CQC, pois dali se diferenciou os que querem o novo dos escatológicos oportunistas. No ato houve um repúdio generalizado ao CQC com corinho impublicável, mas bem humorado como todos os outros. Até nisto a manifestação foi célebre.



O clima nas ruas de Higienópolis era de festa, nos olhávamos e sabíamos que de alguma forma estávamos fazendo história, mexendo com temas caros a uma grande metrópole:

1)   Para quem se deve governar;

2)   Transporte Público e ocupação urbana;

3)   Cidadania e urbanidade;




A Velha Mídia é Velha mesmo



Mais ainda este movimento foi fora de qualquer estrutura: Partidos, Sindicatos, entidades estudantis, mesmo os grupos que se acham “donos” do “cyberativismo” foram pegos de surpresa, entraram com o bonde andando, mas sem poder de definir nada, provando que na rede “ninguém é de ninguém”. foi espontâneo, viral, algo que já ocorreu nas revoluções no Egito, por exemplo. Os números são secundários, a mídia quer dar peso em algo que não pesa, querem desqualificar o novo, o inusitado, agem como o establishment, lembrou-me exatamente o comportamento da TV estatal egípcia que mostrava ruas vazias enquanto a Al jazeera mostrava a revolução em Tahir, exceto o portal Terra Maganize ninguém cobriu ao vivo e captou o sentido do ato.

Dezenas de articulistas da mídia tradicional queimam papel e pestana para desqualificar o inqualificável, não tem como enquadrar na lógica formal de movimento o que é o #GenteDiferenciada, que pode ser apenas uma chuva outonal ou um novo movimento político, que nasce de uma geração que não aceita caciques nem políticos, nem midiáticos, tocados por coisas concretas, que explodem sempre numa sociedade de classes e polarizada.

São sintomáticas que este novo momento decai velhas estrelas, basta ver a reacionária entrevista do Caetano Veloso, é emblemático, o velho, não de idade, mas de espírito não captar o que se passa na rede, como bem definiu a Vange Leonel ( @vleonel ): “A rede é passagem, é fluída”. Esta luta encarniçada da velha mídia, velhas formas de artes baseadas no “mando” dará lugar uma visão mais anárquica, mas muito mais crítica e radical à sociedade de consumo.

As bases de algo novo estão surgindo no mundo, na periferia, nas lan houses, na nova forma cifrada de se comunicar, de pensar a vida de forma mais simples e descomplicada. O #GenteDiferenciada é a representação deste novo, quem foi e viu sabe do que falo. Grande passo é ir aos bairros da periferia e misturar tudo num novo movimento

sábado, 14 de maio de 2011

#GenteDiferenciada: quem será?

O meu querido amigo @biosbug ( São Paulo - O Gigante se mo ) de #TeiaLivre simplesmente escreveu de forma maravilhosa tudo que tinha a falar sobre o que ele e eu sentimos ao participarmos do "Churrascão do #GenteDiferenciada". Assim vou postar apenas as fotos em complemento ao que ele fez magnificamente fez no seu post.

Nunca antes na historia este bairro aristocrático presenciou uma manifestação tão colorida e politizada, lembrando as inusitadas manifestações da Praça de Tahir que levou à queda de Mubarak. Inédito e espontâneo, convocado quase como brincadeira via Facebook/Twitter, as fotos revelam a alegria e a nova cidadania em movimento.

Na minha chegada : A polícia protege a Sacrossanta Propriedade Privada


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@mariafro e @urbeslz conversam e uma senhora do bairro que estava feliz com a manifestação"

ECAD nele!!! Camelô que Horror!!!

Carrinho Multimídia que coisa doida..somos todos baianos!!!


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#gentediferenciada e com grife na camiseta e na cabeça!!!


Também fui de Timão, #gentediferenciada é aqui!!!


"A grande Renata Falzoni (@rfalzoni ) , chamou o povo na rádio @espnestadao e veio mesmo"

"Amigas queridas presentes: @na_faixa , @urbeslz e @vleonel"

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Crônicas do Japão XII: Hiroshima nossa dor


Hiroshima



Estar em Hiroshima é uma experiência das mais estranhas que se possa sentir, o Shinkansen foi se aproximando da cidade e uma sensação de dor, amargura foi tomando conta de mim, era por volta da meia noite, depois de um dia muito especial em Ise, a terra mais sagrada dos xintoístas, e um fim de tarde maravilhoso andando sem rumo por Nagoya.

Saímos de Nagoya rumo a Hiroshima feliz por andar de Shinkansen mesmo sendo noite apreciamos as paradas e nos divertimos pela viagem, porém nosso destino era lá, acabara de ler um livro de Kenzaburo Oe e a “guerra” ainda rondava minha cabeça.

Ao chegar à estação central rapidamente peguei um taxi e fui ao hotel, um mesmo Sun Garden que morava em Kashiwa, já quebrou um pouco do temor pela cidade nova, tentei dormir logo, mas o incomodo não deixava, não era cansaço, era a aura da cidade, a carga emocional.

Monumento pela Paz Mundial


(museu pela paz mundial)

Consegui a muito custo dormir, e acordei muito cedo, encontrei meus amigos passamos numa lanchonete comemos alguma coisa e partimos para o Domo, o local que os americanos miraram ao jogar a bomba atômica, que os japoneses fizeram questão de preservar seus escombros. O Domo era a cúpula de uma fábrica de armas, pela maquete que vi depois, era o único prédio de concreto armado da cidade. Em 1996, 41 anos depois da explosão o nível radioativo perto do Domo ainda é acima do normal, há equipamento que mostram os valores instalados em volta.


(escombros do Domo - epicentro da Bomba Atômica)

Logo ao lado dele há o imenso museu, a praça, a catedral ecumênica e a pira da paz mundial sempre acesa pela paz, para que nunca mais se jogue novas bombas. Entramos no museu, é um prédio longo de três ou quatro andares, em que tudo relacionado ao ataque americano está preservado lá: fotos, objetos, o artefato que carregou a ogiva, uma réplica do Domo, representação dos corpos dilacerados.

Ao entrar há vários monitores de TV em que você escolhe entre 128 idiomas para que seja detalhadamente contado o dia do ataque, e suas conseqüências malditas, por exemplo, ao tocar o solo e liberar a explosão 20 mil pessoas morreram imediatamente em pouco mais de 30 minutos, o calor no epicentro da bomba chegou a oito mil graus, num raio de 20 km ceifou a vida impiedosamente 200 mil pessoas.

As lágrimas e a sensação de dor aumentam gradativamente, um silêncio sepulcral toma conta do museu, nem entre nós encontramos palavras para dizer o que sentíamos apenas nos olhávamos e todos choravam, não há o que falar, é refletir toda maldade humana daquele gesto cruel, quem entra neste museu não saí igual, a dor é imensa, o repúdio à bomba e aos americanos toma conta.

A sabedoria japonesa transformou aquele local terrível em poesia, um lindo e imenso labirinto de jardins foi construído em frente ao museu tendo à esquerda o monumento da esperança cheio de feixes de Origamis em homenagem a garota que viveu 1000 dias mesmo gravemente doente, pois o médico lhe dizia a cada Origami você ganhará um dia de vida(pausa para lágrimas). De todo lugar do mundo as pessoas mandam os feixes de origamis que são respeitosamente depositados em frente ao monumento.

Hiroshima, Japan: Childrens Peace Monument

Pouco mais à frente a Pira que nunca apaga, ela deve ser sempre acesa para que nos lembremos do mal da bomba, das pessoas mortas, do flagelo humano, que reflitamos sobre nossas escolhas e vida, as pessoas chegam perto da pira sentem o calor, se iluminam e saem silenciosas.


Deste conjunto arquitetônico também faz parte a catedral pela paz mundial, ela não pertence à religião alguma, mas qualquer que processe alguma fé, ou mesmo quem não tenha religião vai prestar sua solidariedade aos mortos da imensa tragédia, os soluços, os cantos, as orações em várias línguas são ouvidas, o pensamento é único.

Toda e qualquer coisa que escreva dirão pouco do que foi a visita a Hiroshima, muito difícil expressar, parei várias vezes aqui lembrando as coisas e chorando, um nó na garganta, uma coisa em particular marcou muito, nenhum de nós conseguiu bater fotos de lá, nada se capta numa foto nossa ou do lugar, talvez inconsciente fosse nossa maneira de respeitar o lugar e as pessoas, entramos em Hiroshima cheio de si, saímos pequenos de nós, envergonhados pelo que fizemos a nós mesmos.

Rosa de Hiroshima

(Vinicius/Gerson Conrad)

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Obama x Osama: Como no velho oeste


Obama matou Osama, não é um mero trocadilho de B e S dos nomes, mas algo mais grave e pior, o Prêmio Nobel da Paz anuncia com galhardia que matou o inimigo público americano número 1, assim cheio de satisfação, nem um pesar ou qualquer lamentação. As congratulações aos envolvidos na macabra operação de caça e morte, com ordem expressa de não deixá-lo vivo, julgar para que mesmo?

Mas é preciso rebobinar o filme e melhor localizar a questão cinematográfica, pois como de costume os roteiros estão prontos, para nova saga do herói que mata, não julga, e não se preocupa com a História, apenas com a Estória que irá contar.

Obama I: A vitória do inesperado

Coincidência ou não, mas o motor da chegada de Obama a Casa Branca foi o desastre Bush Jr, sem isto, ouso afirmar, jamais um negro, com família com vínculos ao islã, lá chegaria. Além da economia em frangalhos Bush Jr promoveu a caça fracassada a Osama, item sensível para o americano médio, seu poder no mundo estava em baixa, um reles fanático consegue se esconder das mais modernas máquinas tecnológicas do mundo.

Obama era o outsider da máquina do Partido Democrata, amplamente  controlada pelos Clintons, e sua favorita Hillary a indicação do Partido seria mera formalidade. Porém Obama surge avassalador e numa hipótese pouco cogitada, seis meses antes, leva um negro à presidência. Vitória de um outsider total.

Obama fez um acordo dentro do partido em que entrega a Secretaria de Estado, ministério mais importante americano, a sua adversária Hillary. Enfrentando uma crise sem precedentes, mais ou menos dividiu seu Governo em dois: no front interno liderado por ele, tenta aprovar reformas na saúde e recompor a economia em frangalhos. No front externo entregue a Hillary e os falcões mais reacionários, como boa conhecedora da máquina de guerra, Hillary tem seu desempenho facilitada pelos crescentes conflitos advindo da ampla crise financeira mundial.

Assume a presidência naquela que é considerada a segunda maior grande depressão da história do capitalismo, o país mergulhado num atoleiro no Iraque e Afeganistão, com pouquíssimo espaço de manobra, uma herança mais do que MALDITA, sob desconfiança da elite reacionária, que aceitou a derrota na batalha, mas prolonga a guerra via mídia. Neste contexto dentro do próprio partido Democrata, Obama tem poucos aliados confiáveis, é obrigado a montar um ministério de composição com as alas conservadoras e ainda manter um presidente do FED comprometido ainda com o Neoliberalismo.

Estes fatores combinados, recessão violenta, desemprego, sensação de decadência duas guerras no front, uma mídia hostil, deixam pouco, ou quase nada, espaço de manobra para Obama se movimentar.



Economia de Obama : O mais do mesmo


Houve uma piora sensível nas condições políticas e de governabilidade, acentuada agora pela imensa derrota nas eleições congressuais bianuais, com a perda da maioria na Câmara Federal e redução na maioria do Senado federal.

Os grandes bancos receberam pesados recursos do tesouro, sendo salvos os banqueiros, os megainvestidores, mas nada sobrou para os endividados em hipotecas, passou a idéia de que é melhor salvar os ricos, sem se preocupar com quem realmente perdeu tudo.

Desde o início da crise iniciada em Setembro de 2008, mais precisamente a apresentação da conta salgada do resgate dos bancos e corporações feitas pelos planos de Bush I e II, e os três ajustes de Obama nos Estados Unidos. Apenas Bush injetou no sistema bancário americano combalido cerca de 1,5 Trilhões de Dólares que foi reforçado por Obama ainda na transição e nos seguidos ajustes de 2009, 2010 e o último agora de 2011. A dívida pública americana saltou de 8,7 Trilhões (62% do PIB) em 2007 para 15,2 Trilhões (99,5% do PIB) em 2010.

Como conseqüência mais visível as 400 maiores fortunas nos EUA têm mais dinheiro do que 155 milhões de americanos, uma brutal concentração de renda típica de “terceiro mundo”, que se aprofundou mais no governo Obama. Depois da “crise” em recente pesquisa foi constatada que aumentou o número de americanos com mais de US$ 1 milhão em investimentos, situação contraditória numa crise sem precedentes.

Mas a outra ponta da economia há aumento no índice de desemprego e mais ainda o aumento drástico da população que recebe os Food Stamps (programa equivalente à Bolsa Família, no final tem um link sobre o programa) de Fevereiro de 2010 a Outubro passou de 39 milhões 42,4 milhões de pessoas (quase 10%)

Neste ambiente Obama jogou todo peso para aprovar uma espécie de SUS plano de saúde público, pois cerca de 45 milhões de americanos não tinham nenhuma proteção hospitalar e assistência médica (número coincidente com participantes do Food Stamps). O custo do seguro saúde é muito alto e devido à precarização do emprego e mesmo subemprego impedia que esta faixa da população tivesse atendimento médico.

Porém o custo político foi desastroso, Obama foi pintado como “Bolchevique” Socialista que quer acabar com a livre iniciativa, a dura batalha no congresso foi divorciada da sociedade, um movimento Proto-Fascista, Tea Party, cresceu de forma assustadora, elegeu inclusive representantes no novo congresso.

Política externa : Obama Bush Jr


A dura visão do Departamento de Estado, dominado pela Direita dos democratas, escolhe seus “inimigos”, o principal deles o Irã, mesmo com o refluxo no Iraque a aventura no oriente médio ainda é prioritária, atende a demanda da indústria bélica, do setor petrolífero, do militares e dos falcões de Israel.

Parece que nada mudou desde Bush Jr, a Sra. Clinton continua sua escalada de medo e ódio pelo mundo, Obama quase nada se diferencia, sua submissão é total ao que Hillary faz e desfaz.

Neste contexto cada dia mais a China crescem como pólo aglutinador de forças econômicas e alternativa de investimentos, em particular no chamado 3º mundo. Com 5 Trilhões de reservas cambiais, a China hoje é o principal credor americano, boa parte do destino do Dólar está nas mãos dos chineses.

Esta sensação de perda do poder hegemônico mundial é mais uma derrota do Governo Obama, a extrema dificuldade de dialogar com o mundo leva a um isolamento e o império apenas é reconhecido pelo poder militar.

Mesmo em relação ao G20, Obama/Hillary nada fez para se aproximar e quebrar a influência chinesa é inconcebível que Obama não tenha visitado o Brasil, o articulador mais dinâmico do G20. Este desprezo pelas relações diplomáticas torna a saída da crise americana mais distante ou em condições piores.

A recente desvalorização do Dólar apenas reforça a visão equivocada de G2 (EUA-China) fechando os olhos para o resto do mundo. Ao comprar a guerra cambial com a China, Obama fecha às portas para qualquer dialogo com o restante do G20, em particular com Brasil, Índia, Rússia e África do Sul



Obama II: Sem enfrentamento interno e o fator morte Osama

O surgimento de um movimento de extrema-direita nos EUA é reflexo da falta de combatividade de Obama, a complexa situação da economia, o empobrecimento crescente vistos a olhos nus, fez surgir no seio da classe média americana a Hybris do ódio e ressentimento.

Consubstanciado no caricato Tea Party algo parecido com típicos movimentos proto-fascistas que surgem na ebulição de grandes crises, em sínteses são ultra liberais contra governo, o de Obama em particular, contra impostos, saúde publica e que querem resgatar o “sonho americano”. No fundo não passa de mais um pesadelo.

Aqui mais uma vez houve a maior falha de Obama, ele não tomou para si às rédeas de seu governo, foi bombardeado internamente pelos Clintons,Nancy Pelosi e outros falcões democratas. Do lado de fora o combalido Partido Republicano ressurgiu mais forte e mais à direita, galvanizando a letargia e porque não a covardia do Governo Obama de enfrentar seus inimigos.

Logo no seu relançamento Obama prometeu cortar 4 trilhões da dívida em 4 anos e reduzir o déficit público para 3,5% até 2016, como bem definiu Clinton em 1994 na luta contra Bush Pai: “é a economia estúpido”  que explica a vitória ou derrota de um candidato presidente, assim será mais uma vez com Obama.


A morte e a "morte" de Osama



A grande jogada de marketing que traria algo espetacular e a salvação da lavoura,  veio com o anuncio da morte de Osama, toda mídia mundial saudou o evento, como algo especial, sem nenhuma crítica ao fato de ter sido aparentemente dominado, sem que fosse preciso executá-lo, parece apenas um mero detalhe.

Hoje se ver pelas imagens que os americanos estão jubilosos com a morte de Osama, se sentem “vingados”, mas também foi lhes negado o “troféu” como Bush Jr fez ao matar Saddam. A se confirmar que jogaram os restos mortais de Osama ao mar, além de um ato estúpido e cruel, cria mais animosidade e reforça a tese que os EUA não respeitam o estado de direito, muito menos a democracia.

Mas para máquina de guerra não pode parar, há 100 mil soldados no Afeganistão o que farão agora? O inimigo número 1 está morto o que fazer lá? Deslocamento para Líbia? É mais um capítulo desta dura realidade americana, sustentar o motor de sua economia através da morte e do medo.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Crise Mundial e um Novo Mundo


Os elementos da Crise



Segundo matéria do caderno de Economia do Estadão deste domingo, 24/04/2011, “A dívida de um punhado de países ricos aumentou em US$ 16 trilhões (mais que o PIB americano) desde 2007, e atinge hoje US$ 42 trilhões, ou 61% do PIB global, representando uma das principais ameaças à recuperação da economia mundial”.

Ora, estamos vivendo um novo momento da crise iniciada em Setembro de 2008, mais precisamente a apresentação da conta salgada do resgate dos bancos e corporações feitas pelos planos de Bush I e II, e os três ajustes de Obama nos Estados Unidos. Apenas Bush injetou no sistema bancário americano combalido cerca de 1,5 Trilhões de Dólares que foi reforçado por Obama ainda na transição e nos seguidos ajustes de 2009, 2010 e o último agora de 2011.

Na Europa, na Zona do Euro - França, Alemanha e Inglaterra – também participaram do “salvamento” do sistema bancário mundial, numa cota menor, mas não menos significativa, algo como 1 Trilhão de Euros. O Japão vem ano a ano num processo crescente de endividamento público, agravado com a crise de 2008, também pagou sua cota com 800 bilhões.

A dívida pública que havia fechado 2007 em 26 trilhões, algo próximo a 47% do PIB mundial explodiu em menos de 3 anos para 42 Trilhões, apenas neste trio: EUA/ EU e Japão. Chegando assim a 61% da produção de riqueza anual de todos os países do planeta.

Ainda segundo o estadão: “O problema americano é que, com a crise global de 2008 e 2009 - e os grandes déficits públicos que foram usados como alavanca para relançar a economia -, a dívida pública explodiu.

Segundo os dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), a dívida bruta do governo americano saltou de 62% do PIB em 2007 para projetados 99,5% em 2011 (e deve chegar a 112% em 2016). “Hoje, a dívida está entre US$ 14 trilhões e US$ 15 trilhões.”

País


Divida Pública 2007


Divida Pública 2011


%PIB 2007


%PIB 2011


EUA


8,7


15,2


62


99,5


Zona do Euro


8,2


11,3


66


87


Japão


8,2


13,3


188


229


Fonte FMI



Economias falidas

O reflexo deste imenso endividamento é a degola das economias mais periféricas, como Grécia, Portugal, Irlanda e mais presente Espanha. Estes países que receberam grande inversão de capitais para se adequarem à zona do Euro, hoje estão totalmente insolventes, tecnicamente falidos, vivendo da esperança de aporte da Alemanha e do FMI.

As imensas subvenções européias ao sistema financeiro fez saltar o déficit publico de 3,3% em 2007 para 6% em 2009 e 2010, com cortes orçamentários para 2011 reduzir para 4,4%, sobrando assim pouco alento em salvar estes países que irremediavelmente sofrem todas as conseqüências do desastre econômico, apenas Espanha tem hoje 22,5% da população economicamente ativa desempregada. Portugal numa crise de governabilidade.

Esta realidade catastrófica é exposta neste momento de aparente calmaria, depois do colapso profundo de 2008 e 2009, 2010 ficou numa zona de baixa turbulência, pois o EUA provocou uma guerra cambial terrível despejando apenas ano passado 600 bilhões de dólares no mercado mundial sobrevalorizando moedas e tornando suas mercadorias competitivas.

Porém estas imensas dívidas pública, que provoca um déficit fiscal de 10% ano nos EUA, ameaça qualquer perspectiva, em curto prazo, de uma leve recuperação, o custo social é altíssimo, programas sociais, incentivos aos trabalhadores e desempregados são cortados e, paradoxalmente, produziu uma ampliação dos bilionários nos EUA nos últimos 3 anos. O resgate estatal se deu justamente para socorrer os mais ricos.

Estado de Bem estar Social dos Ricos

Ideologicamente chega a ser risível, todo o floreado do ultra liberalismo, teve sua morte na prática, não no discurso, no socorro do ESTADO aos ricos. Todos os anos de pregação contra o Estado, pelo seu fim, não resistiu à grande crise, todos os bancos que fizeram a maior ciranda financeira da história foi salvo com dinheiro público, com a possibilidade remota de um dia o Estado receber qualquer coisa de volta. Nem mesmo os famosos bônus milionários foram cortados nos pacotes de ajuda aos bancos e grandes empresas, daí se explicam o crescente número de bilionário na crise.

O próximo conflito interno americano será a eleição presidencial de 2010, Obama já se lançou, em algo inédito para padrão americano, um ano e meio antes do pleito. "O compromisso (entre os partidos) é a única alternativa ao suicídio econômico, portanto ele virá: a única pergunta é: depois de quanta deterioração?" - resume para o Estado o economista Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia em Berkeley.(Fonte: Estadão).

Logo no seu relançamento Obama prometeu cortar 4 trilhões da dívida em 4 anos e reduzir o déficit público para 3,5% até 2016, como bem definiu Clinton em 1994 na luta contra Bush Pai: “é a economia estúpido”  que explica a vitória ou derrota de um candidato presidente, assim será mais uma vez com Obama.

Porém a bolsa de apostas das agências de riscos e especuladores é que este interregno da crise terá seu fim em 2013 com uma nova e mais profundo crise de ajuste global, reduzindo em muitos os ciclos de grandes crises: "Os investidores estão preocupados com 2013, não com hoje, e foi também sobre 2013 que a S&P falou - estamos a dois anos da crise, em outras palavras", nota Einchengreen.

Marx define a Crise como sendo a “Pletora do capital” a sua expansão, abundancia é que leva a crise não sua falta. A superprodução de bens e capitais é a característica principal do ápice da crise, uma leitura vulgar, pensa que o contrário que leva à crise capitalista. A injeção dos Bilhões do FED combinado com o estoque de títulos por China e Japão (dois trilhões de dólares) é o epicentro da próxima crise global que se avizinha.

BRICS – Um mundo Novo


Quase um mundo à parte é a realidade dos BRICS( Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), mesmo depois da sacudida provocada pela crise de 2008, este conjunto de países que na prática pôs abaixo o G7 em nome do G20, experimenta uma situação econômica distinta e torna-se cada dia mais um modelo de expansão e crescimento à despeito da crise.


A iniciativa deste conjunto de países de buscar modelos alternativos ao capitalismo central, tem se demonstrado correta, mesmo na maior crise econômica mundial desde 1929, o abalo provocado foi relativamente baixo. Aproveitando-se de uma dinâmica econômica diferente, apostando em suas economias locais, cada um a seu modo enfrentou/enfrenta bravamente a crise sem reflexos graves aos seus povos.

A China que lidera o crescimento mundial neste novo século combina sua imensa população que oferece mão de obra abundante e relativamente barata, com um alto nível educacional, rapidamente se tornou a segunda maior economia mundial, é a grande compradora e vendedora do comercio mundial, uma agressiva estratégia levou que as empresas chinesas passassem de mera manufatura à grande produtora de valor agregado, com a introdução moderna parque tecnológico. Este imenso mercado é também hoje o maior consumidor de commodities mundial.

Suas imensas reservas, que hoje gira em 3,03 trilhões de dólares, fez dela a maior credora americana, apenas de títulos americanos os chineses têm 1,3 trilhões, cerca de 10% da dívida dos EUA. O BC chinês pensa em formar um fundo de investimento que pode potencializar ainda mais a economia chinesa, abreviando longos anos para alcançar a hegemonia mundial.

Fato que a falta de democracia para uma imensa classe média que se forma na China será um entrave no futuro, regime ultra centralizado do PC e sua velha burocracia será cobrado muito em breve, apenas em 2010 houve 13 milhões de petições diretas sobre abusos e desrespeitos aos direitos, é uma face invisível desta nova geração que vai querer poder.

A Rússia que era vista apenas por seu potencial bélico e suas imensas reservas de petróleo, também cresceu a taxas significativas até 2008, foi o elemento dos BRICS mais atingindo pela crise, pois sua economia depende diretamente das exportações para Europa e EUA, baseadas em petróleo. Mas os acordos com a China em 2009/2010, num grande movimento de aproximação voltou a crescer e espantar a crise. Grande problema russo continua sendo a pouca estrutura democrática e poucos dirigentes capazes de liderar o país.

A Índia é o país que aproveitou muito sua população com domínio do Inglês e virou uma grande plataforma de serviços globais, empregos de suporte técnico de grandes empresas, com imensos call centers se estabeleceram lá trazendo empregos e crescimento. Além disto, indústrias de software têm na Índia hoje uma das maiores plataformas mundiais, produz valor e inteligência. Há um amplo crescimento interno que sustenta suas taxas de PIBs, mesmo na Crise.

Sobre Brasil, tentarei escrever esta dinâmica em artigo autônomo, mas apenas para constar em consonância com os BRICS, o Governo Lula sem dúvida impulsionou as principais iniciativas do combate a crise, tanto no âmbito interno, como no front externo. A rápida e dinâmica recuperação de sua economia é objeto de estudo e debates no mundo, sua população e dimensão continental que combina crescimento, distribuição de renda com uma democracia ampla é o elemento mais destacado nos BRICS. Claro que há atrasos cruciais na Educação, Saúde, Infraestrutura, mas o país experimenta um dos mais longos e duradouros período de prosperidade, mais de 30 milhões saíram da miséria em poucos mais de 6 anos, a nova classe média já responde por 53% do PIB. Todos estes fatores serão trabalhados posteriormente com mais acura.

Crônicas do Japão X: Mundo do Trabalho II - a armadilha

 

Boas vindas (?)

Como falei no outro artigo sobre o local de trabalho, ele reflete a hierarquia da sociedade e do trabalho, a posição que você ocupa na mesa coletiva, quanto mais próximo da frente cargo mais importante, assim como nas mesas da frente quanto mais próximo do centro, cargo maior.

Nosso grupo de trabalho era formado por cinco pessoas nos apresentamos aos gerentes, entregamos os presentes e nada aconteceu, havia um lugar reservado numa mesa grande, e ficamos mais ou menos isolados das outras pessoas, ficamos à frente, perto das mesas gerenciais. Uma secretária nos informou do horário de almoço e que eles pediam “Bentô” que deveríamos pedir o nosso até as 10 horas da manhã.

Ficamos nos olhando, sem saber exatamente o que estava acontecendo, nosso Sensei (professor) estava em viagem viria apenas na semana seguinte. Até aí tudo bem, uma semana sem aulas, teríamos tempo de estudar materiais de trabalho, era um modelo novo de central telefônica que estava em desenvolvimento, assim acabaria sendo bom este tempo para um primeiro contato com o equipamento, manuais.

Mas havia algo estranho no ar, ficamos isolados, ninguém conversava conosco, exceto o protocolar Oyahô Gozaimassu (Bom dia) e o Oyassuminasai (boa noite, bom descanso). Aquilo incomodou, mas começamos a levar na boa, e como bons brasileiros, fomos fazendo brincadeiras, apelidos, piadas, sem nos expor muito, mas sempre rolava um clima mais “festivo” entre nós.



A armadilha

 



No quarto dia de trabalho já estávamos mais que à vontade, porém na hora do almoço ao descermos no elevador, estava bem cheio, um dos amigos, que era grande e estava bem gordo, recebeu uma piada em português até bom, “tem que fazer regime né, senão não cabe no elevador cheio”. Olhamos-nos meio espantados, um senhor japonês deu uma risadinha e saiu.

Quase não almoçamos, pois aquele senhor, ele se chama Tsuchiya, se sentava bem próximo de nós na mesa grande, ao voltar do almoço fui imediato ao lado dele e perguntei onde ele aprendeu português e tão bem. Ele disse que tinha morado no Brasil uns oito anos antes, tinha ficado um ano e dois meses aqui, e que estávamos cercados em todos os lados por pessoas que falavam português ou pelo menos entendia bem o que dizíamos mais ainda no final do dia eles se reuniam para mais ou menos passar a impressão de cada um sobre nós ao chefe.

Ou seja, caímos numa armadilha, e foi nosso primeiro choque de realidade de trabalho no Japão. Aquela semana “livre” no fundo era uma avaliação de comportamento, que dependendo, poderíamos até ser mandados de volta ao Brasil sem nem termos começado a trabalhar. No fundo, o amigo, ele se tornou grande amigo nosso até hoje, nos salvou de nossa própria tolice.

Nosso filme estava “queimado”, por sorte tinha feito um grande amigo, Yonekura, aqui no Brasil, que viera nos ajudar no começo da implantação do sistema celular, procurei desesperadamente o fone dele, e torci para que ele estivesse no Japão, pois ele trabalhava num departamento de trabalhos internacionais da empresa. Consegui falar com ele na sexta-feira e expliquei nossa situação. Ele deu risada e foi logo falando, vou marcar um jantar com todos estes chefes do escritório para apaziguar a situação.

Solidariedade de amigos

 

Semana seguinte ele fez um excelente meio de campo num jantar com boa parte dos caras do escritório, ele era chefe também e muito respeitado porque morou muito tempo fora do Japão. Reapresentou-nos para os chefes, falou que no Brasil tinha sido bem tratado por mim, aliviou a nossa parte.

Detalhe beberam muito, comeram muito também, entre nós tínhamos combinado pagar a conta, já estávamos preocupado com o valor, porque eles pediam de tudo, mas vai valer à pena. O certo é que no fim de tudo, umas 22 horas, lá tudo se encerra neste horário, Yonekura pediu a conta, lá vem à dolorosa, ele olhou o valor e deu ordem, para cada um deles pagasse uma parte de acordo com o cargo que ocupava, ainda saímos no lucro.

Figuras como Tsuchiya e Yonekura, que viveram fora do Japão, passam a ter uma visão mais aberta do mundo, respeitam os seus costumes, mas sabem da diversidade fora de lá. Sem dúvida, entendem melhor a vida, os costumes, sabe que determinadas idiossincrasias japonesas, como esta de querer “conhecer” quem os visita não é natural no mundo tão global.

Yonekura se definia como “carioca” e flamenguista, amava o Brasil, as pessoas, gostava de sair e de conhecer os lugares. Sempre que podia nos levava a restaurantes e bares, lugares escondidos que funcionavam até depois das 22 horas. Certa vez nos levou a um local, que parecia uma residência, na verdade era um pequeno restaurante caseiro, que tinha apenas três mesas. A especialidade era Yonesabe ( algo como cozido de panela), uma panela grande numa grelha cozinhava de tudo, pedaços de frango, peixe, frutos do mar e temperos variados, de vez em quando o dono do restaurante vinha com algo mais, e neste ínterim Yonekura ia mexendo a uma concha longa para dar o gosto. Um manjar dos deuses, feita ali na hora, ótima conversa, ele contando sobre o Brasil e a vida no Japão, talvez tenha aprendido mais ali de que em qualquer manual, ou artigo de jornal sobre os costumes e a essência daquele povo tão diferente e único.

Tsuchiya era um intelectual, engenheiro de telecomunicações estava migrando de telefonia para um novo ramo que estava surgindo: Internet. Ele trabalhava com Software aplicado, específico aos equipamento da Nec, pelo tempo de experiência já era uma espécie de consultor na empresa, como escolhera a carreira internacional, estava fora da hierarquia formal da empresa, apesar de ter cargo, na época era Shunin (chefe de seção), prestes a virar Catchô (Gerente médio), ele tinha apenas um subordinado e uma assistente. Foi um dos primeiros caras que conheci que estava saindo do mundo de telefonia e indo para o lado IP. Quando morou no Brasil, entre 1987 e 1988, além do português aprendeu a gostar de bossa nova, para minha surpresa conhecia quase tudo de Elis Regina, Tom Jobim. Falou-me, certa vez, que levara quase 50 LPs de música brasileira daqui. Era sempre um prazer conversar com ele, recentemente reencontrei-o no Facebook, vamos reativar a amizade.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Crônicas do Japão VIII: Dekasseguis


Crise dos anos 90

Comecei a trabalhar numa empresa japonesa em 1989 todos os diretores eram japoneses vindos de lá, uma espécie de prêmio, pois dificilmente lá teriam a mesma chance de crescimento hierárquico, aqui significava uma vida de mais conforto e uma aposentadoria mais gorda, pois o cargo aqui era remunerado e tinha status do equivalente no Japão. Poucos brasileiros tinham funções dirigentes, o principal impeditivo era a língua, idioma oficioso na empresa era o Nihon-go.

Entre os meses de Fevereiro e Junho de 1990 no meu departamento ficamos sem novas obras de implantação de centrais telefônicas, apenas os contratos velhos estava em andamento, chegamos a ficar no escritório 90 a 100 técnicos e engenheiros amontoados em salas de reuniões. Mas aí aconteceu um fenômeno impressionante, destes quase 100 funcionários, 85 eram descendentes de japoneses, cerca de 60 pediu demissão e foram embora para o Japão, teve dias de saírem 5 funcionários.

A grande crise inflacionária do final do governo Sarney e o confisco da poupança do Collor foram o combustível para a grande emigração dos descendentes japoneses rumo a terra de seus bisavós, avós e eventualmente pais. Os chamados Dekasseguis brasileiros constituem-se como a maior colônia de brasileira na Ásia e terceira no mundo.

Dekassegui


Dekassegui é uma combinação de palavras japonesas Deru Sair) com Kasegu (buscar trabalho) que genericamente era usada para identificar os trabalhadores que saiam de províncias distantes(Hokkaido, Okinawa) e iam para cidades maiores(Tókio e Osaka) trabalhar principalmente nas colheitas, depois na industrialização acelerada,serviam de mão de obra barata, o termo é pejorativo, também significando “ladrão de emprego”.

O termo passou a designar os estrangeiros, descendentes ou não de japoneses, que chegaram a grandes levas na metade dos anos 80 ao Japão, devido ao grande crescimento econômico e a crescente sofisticação da sociedade japonesa, os empregos denominados: Sujos, Pesados e Perigosos, que eram abundantes e mal remunerados, passou a ser feito por estrangeiros, houve uma leva de iranianos para construção civil pesada. Mas a diferença cultural não permitia sua integração.


Com a crise generalizada na America Latina, Brasil, Argentina, Peru, que havia recebido grandes levas de japoneses no início do século XX, acabaram sendo ponto de recrutamento desta mão de obra complementar. Havia sinais de identificação cultural, laços com povo e um conhecimento rudimentar do idioma.

Brasileiros no Japão


Milhares de jovens e adultos largaram emprego, insegurança, família e foram em busca de dinheiro e conforto no país de seus ancestrais. Arregimentados ainda no Brasil por empresas terceirizadas das grandes empresas, muito já chegavam lá devendo meses de salários. A necessidade de cobrir estas despesas, além de moradia, o alto custo de vida, fazia com que estes brasileiros e latinos se submetessem a longas jornadas para receber a Zangyō (Hora extra).


A dura realidade não desanimou estes heróicos cidadãos, que aqui no Brasil eram vistos como japoneses, porém lá era apenas um cidadão de terceira categoria, muitas vezes desprezados por não dominarem a língua, assinavam contratos lesivos, jamais tinham chance de ascensão social. Os salários altíssimos para o padrão brasileiros, não chegava a um terço ou metade de um japonês nato, sendo apenas compensado com jornadas mais longas, cansativas e perigosas. Muitos sociólogos estudando a vida destes trabalhadores estrangeiros chegam a falar de “escravidão remunerada” em determinado sentido é isto que se percebia.

O mais incrível é que lá o sentido de brasilidade acabou criando uma colônia mais rica e solidária cheia de criatividade, vários pequenos mercados com produtos brasileiros em pequenos caminhões, ou em casas se disseminou. Viraram ponto de encontro de troca de idéias, de apoio aos que perdiam emprego ou passavam por apertos típicos de um país estrangeiro. Viraram a maior colônia que fala português na Ásia.

Lembro que os jornais brasileiros eram vendidos nas lojinhas com 3 dias de atraso e as novelas eram gravadas em fitas VHS e alugadas, parece até brincadeira. Os brasileiros fundaram jornais direcionados para colônia em português, fizeram um canal de TV com noticias em português e matérias sobre o Brasil, com o avanço da Internet e das TVs a cabo, tudo facilitou, mas em 1996 era uma maravilha ler uma revista brasileira lá.


A colônia criou carnavais brasileiros, restaurantes, clubes, escolas, praticamente todos à margem da sociedade japonesa, os casamentos quase sempre dentro da colônia, pois um japonês (a) nato não se mistura. Em 2005 chegou a ter 302 mil brasileiros (descendentes ou não) morando no Japão, devido a crise de 2008 e 2009, 50 mil voltaram, pois perderam praticamente tudo.


O sonho de ir ao Japão ficar 2 a 4 anos para muitos virou a vida inteira, famílias constituídas aqui foram abandonadas, com separação ou não, e nova construídas lá. Mas um fluxo de 1,5 a 2 Bilhões de Dólares ano é o resultado do trabalho dos brasileiros lá que mantém vínculos aqui. Alguns compraram casas, terras, terrenos aqui para no futuro voltarem para casa. Outros voltaram, mas não se adaptaram, muitos ficam no ir e voltar. O certo é que a colônia brasileira segue firme na sua luta dia a dia por sua afirmação no Japão.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

FHC: A Democracia sem Povão

O mais novo deboche que FHC fez ao povo brasileiro foi inaugurar uma nova fase na cultura política de seu partido: A Democracia sem Povo, ou em suas palavras – Povão – esta massa ignara que tem pouco ou nenhum discernimento político que é a presa fácil para partidos de esquerda. (ver Blog do Nassif - FHC: o político à procura de um discurso ). A Folha de S  Paulo lhe deu amplo destaque, pois , é a preparação de FHC lançar seu Portal de Política - ou seja - vai ensinar a fazer : Política sem Povo.

Por este raciocínio faz todo sentido, prescinde-se de “povão”, o ideal é concentrar esforços na elite, nas classes médias gerenciais, a partir delas se deve apenas indicar os números nas urnas eletrônicas que esta massa inculta votará. Por esta lógica para que eleição? Ou para que ir votar, libera-se e incute-se nas cabeças que a democracia não faz sentido algum, pois os ignorantes não a entendem.

Num clássico rompimento com as conquistas elementares de representação popular o príncipe da sociologia brasileira faz sua melhor reflexão, expondo a nu todo seu elitismo, sua visão autoritária e aristocrática de condução de uma nação. Os laços, até liberais, dos ideais da revolução francesa, são quebrados no novo modelo partidário e de conquista do poder. Ao escolher o caminho da “democracia” sem “povão” se despreza o sujeito social que é fim último de qualquer democracia real ou formal.

Ler mais um conjunto de obviedades, trasvestidas de pompa de intelectual pobre e burlesca, parecem um último suspiro do combalido PSDB e de seu maior representante. Mesmo na loucura, ele revela um método, nos diz Shakespeare, que é a busca diuturna para se criar uma casta, uma elite - política, intelectual e gerencial - que prescinda do Povão, foi assim em todo seu governo, em particular no desastrado segundo mandato, assacado na ameaça da desvalorização do real e medo de que Lula poria fogo no Brasil.

Rupturas no PSDB



Em significativa entrevista de rompimento com o PSDB, Bresser Pereira,( via Blog do Nassif Bresser-Pereira deixa o PSDB) fundador e um de seus maiores intelectuais, diz claramente qual a opção política e intelectual que norteou o governo FHC e seus desdobramentos sinistros com a perda da identidade nacional, era uma apologia cega ao mercado, uma certeza inútil de que a globalização no abriria o mundo.

Os primeiros anos dourados do Real deram lugar à crueza das crises dos tigres asiáticos e posterior crise russa, que abalou definitivamente a fé no mercado, com um agravante, os instrumentos de estado, tinham sido completamente destruídos, levou o Brasil a passar 4 anos de profunda agonia (Janeiro de 1999 a Setembro de 2003).

A herança maldita, a que Lula se referia, era uma combinação de estado desmobilizado com uma profunda crise econômica. Dívida pública astronômica, déficit publico, exportações engessadas e falta de iniciativa de buscar novos mercados. Setores inteiros completamente destruídos, como setor elétrico, com apagão e pouca expectativa de melhoria.

O artigo vai à contramão das maiores conquistas dos últimos anos, que foi a ampla incorporação de parcela significativa dos trabalhadores que vivia à margem do mercado, sem renda ou cidadania. Este “povão”, que FHC despreza, é que hoje faz a diferença do Brasil no mundo, é o legado de Lula.

A busca do discurso pela oposição já gerou seu primeiro fiasco, apesar do amplo destaque que a mídia dócil ao ex-presidente, afasta mais ainda a oposição da vida real da maioria da população brasileira. Continuam fazendo, agora assumidamente, política sem Povão, para uma elite bem determinada. Enfraquece a democracia de qualquer maneira a falta de maior qualificação do debate e do embate político e programático.


terça-feira, 22 de março de 2011

Formação Humana


Introdução



Pós-muro de Berlim, aqueles que militavam no campo da esquerda passaram a viver num mundo estranho, todos os sonhos e ideologia postos em xeque, a crueza do leste revelada em sua plenitude, houve dois movimentos no começo dos 90 muito significativos na militância:

1) Abandono da perspectiva socialista;

2) Reflexão e volta aos clássicos;

Por volta de 91 e 92 participava de um pequeno grupo, que se propôs a fazer esta reflexão para compreender o que houve no leste europeu, maioria de nós era “pró-soviético” oriundos do PCB. Teve companheiro que em 1986 chegou a dizer que bom mesmo não era Gorbachev, mas sim o prefeito de Moscou, Boris Yeltsin, o verdadeiro revolucionário, sabemos hoje no que deu.

Esta cegueira advinha de uma crença quase religiosa na revolução, em particular na interpretação russa do escritos de Marx, que teve em Lênin grande continuador, mas adstrito a realidade russa, mas que foi tomada como universal.

Aquele impacto de ruir todo o leste europeu fez com que vários companheiros simplesmente abandonarem a luta política, acreditando que aquela era a experiência definitiva do que se convencionou chamar de “socialismo real”. Honestamente derrotados, incapaz de continuarem a militar, se recolheram, trancaram a vida para qualquer nova reflexão.

Como sempre ocorre nestes períodos de crise, um setor que sempre militou quase como 5ª coluna, aderiu de vez ao ideário burguês, no Brasil a ruptura do PCB, já em frangalhos, liderados por Bob Freire, cria o PPS, todos sabemos os seus passos posteriores de traição e alianças preferenciais à direita (PSDB e DEM).

Volta aos clássicos

Vários de nós, em pequenos grupos e círculos intelectuais, voltaram aos estudos dos clássicos, não apenas os escritos de Marx, mas de toda a tradição humanista, revisitar os filósofos gregos, os cânones literários, as fontes únicas do pensamento humano.

Esta dolorosa tarefa no meio militante é sempre muito complicada, cheia de barreiras, parte dos dirigentes despreza a ampliação do conhecimento, pois as tarefas diárias se impõem. A baixa compreensão, da formação política e intelectual também se torna adversário deste “mergulho”.

Fizemos um roteiro longo em que buscávamos ampliar os horizontes para além da teoria política, inserindo novos desafios de entender o homem sob uma perspectiva histórica, filosófica e cultural, que abarcasse a Teoria do conhecimento humano em todos seus vastos campos.






(Texto de Introdução - escrito em 1992)






Origem dos Homens



O Comunismo Primitivo

O início dos tempos tem diversas explicações, desde a dos cristãos, segundo a qual Deus (Jeová) criou o mundo e depois o homem, a partir do barro ( Adão) e de sua costela, a mulher (Eva). Estes entes pecam perante Deus e são expulsos do paraíso – começa propriamente dita a procriação, sendo estes marcados pelo pecado original.

Já para Gregos, Egípcios e Romanos o surgimento do homem é produto dos deuses e semideuses, estes foram criados para adorá-los. Sua relação com os deuses, porém, não é a do medo (como cristãos) do pecado original – homens e mulheres mantêm relações íntimas com estes deuses. Por exemplo, Aquiles, herói grego da guerra de tróia, era filho de Tétis, uma deusa do mar com Peleu, um rei de Ftia (região grega).

Na visão dos materialistas (marxistas ou não) o homem surge, assim como o universo, do produto das transformações da matéria, sendo seu estágio mais elaborado o homem e seu cérebro, pois este foi capaz de criar condições para sua própria existência e transformação. Este processo durou milhões de anos, tendo o homem passado por diversos estágios até chegar ao que é hoje.

Alguns avanços foram fundamentais para este desenvolvimento, como a descoberta do fogo, a linguagem e o começo da vida coletiva. Logo a seguir, a descoberta da roda, as primeiras divisões do trabalho, a caça e a pesca, e depois a lavoura, tudo isso feito por todos em conjunto, talvez não por um desejo consciente de união, mas como único meio de sobrevivência. A este período conhecido vulgarmente como pré-história ou idade da pedra, nós damos o nome de

Sociedade Comunista Primitiva



A Divisão dos Homens

A sociedade de classes, o escravagismo, o primeiro estágio

O homem se desenvolve continuamente e surge a grande divisão social do trabalho, que passa a ser o motor de um acelerado desenvolvimento da vida: o trabalho intelectual versus trabalho manual.

Alguns homens começam a se apropriar do excedente da agricultura, pecuária e pesca, e percebem que é melhor pensar como melhor produzir e outros continuarem produzindo. No mesmo instante, nas guerras de tribos já não se libertam os presos inimigos, os quais passam a ser mão-de-obra escrava dos vencedores, dando o poder econômico maior a alguns membros.

As respostas aos fenômenos da natureza, como a lua, sol, rios etc. levam o homem a adorá-los e sendo alguns destacados para organizar estes cultos, o germe do estado-religião começa a ser plantado, as decisões coletivas já não dão respostas às novas fases de produção.

Começam a se gestar decisões individuais, e aqueles que têm seus escravos de tribo inimiga agora escravizam homens de sua própria tribo; os primeiros conflitos desta divisão precisam de autoridades para resolvê-los – eis nosso “poder” de estado em conjunto com os dos sacerdotes estruturam o estado. Em uma palavra, a revolução social está completa.

Nós devemos entender como foi importante esta divisão, pois permitiu ao homem se desenvolver em escala nunca experimentada, se desenvolvem as ciências – a medicina, a astronomia, a matemática, a física – surgem os primeiros filósofos, literatos, historiadores. O mundo se livra da ameaça simples de destruição catastrófica produzida pela natureza, que o homem passa a dominar. É o senhor dos mares, das terras e dos ares.

É neste contexto que vamos estudar a sociedade escravagista: Sua literatura, a história e filosofia da época, a política e a economia

Estudo da Teoria do Conhecimento Humano (corte ocidental)


Parte I

Sociedade Escravagista



Modulo I – Literatura

Homero: Ilíada e Odisséia

A) Épicos                   Virgílio: Eneida

Heródoto: História

B) Mitologia     Hesíodo: Teogonia e O trabalho e os dias

C) Costumes    Suetônio: A vida dos doze Césares

Modulo II – Teatro

Sófocles: Prometeu Acorrentado

Ésquilo: Oréstia

Eurípedes: As Bacantes

Modulo III - Filmes

Fellini: Satirycon

Pasollini: Medeia

Roma (mini serie – acrescida hoje)

Stanley Kubrick: Spartacus

Modulo IV – Filosofia

Platão: Fedro

Aristóteles: Ética a Nicômaco

Modulo V – Política e Estado

Plutarco: Alexandre e César, vidas comparadas

Tácito: Os anais

quinta-feira, 17 de março de 2011

Obama e seus fracassos

“Deixai toda esperança ó vós que entrais.

Inferno 3:9”(Inferno – Dante Alighieri)


A visita de Barack Obama ao Brasil coincide com um momento muito particular da política americana: sua imensa crise que vai pra os 30 meses sem que haja a perspectiva de solução. O governo Obama sofreu fragorosa derrota nas recentes eleições parlamentares, perdendo a maioria na Câmara e o poder de decisão unilateral no Senado.

Enfrenta também crise de credibilidade pelos documentos tornados públicos pelo Wikileaks, numa clara divisão interna de comando no Departamento de Estado. Aos olhos do mundo, Obama é visto cada vez mais como decepção e sem rumo, muitas políticas dos governos republicanos foram continuadas e, até em alguns casos, pioradas.

O texto abaixo busca fazer um balanço desde a vitória de Obama até sua recente derrota eleitoral, que coloca em xeque sua reeleição no próximo ano.

Um link com Roosevelt

A primeira coisa de que me lembro com Obama na presidência é de outro grande presidente americano, talvez o maior e mais singular deles, Franklin Delano Roosevelt. Herdeiro da catástrofe econômica de 29, assumiu a presidência em 32 vencendo a máquina partidária e com um programa de amplas reformas; rompeu com o liberalismo predominante e implementou fundamentalmente um programa keynesiano clássico, de intervenção estatal pesada. O New Deal foi centrado nos seguintes itens:
  • Controle sobre bancos e instituições financeiras;
  • Construção de obras de infraestrutura para a geração de empregos e aumento do mercado consumidor;
  • Concessão de subsídios e crédito agrícola a pequenos produtores familiares;
  • Criação de Previdência Social, que estipulou um salário mínimo, além de garantias a idosos, desempregados e inválidos;
  • Controle da corrupção no governo;
  • Incentivo à criação de sindicatos para aumentar o poder de negociação dos trabalhadores e facilitar a defesa dos novos direitos instituídos.

Roosevelt, apesar de vir do seio da burguesia americana – seu primo Theodore havia sido presidente em 1908 –, foi sempre taxado de comunista, esquerdista, e enfrentou oposição terrível do início ao fim do mandato; tudo em sua vida era motivo de exploração nos jornais. Espertamente ele resolveu fazer comunicação direta com o povo falando em cadeia de rádio sem intermediário, e assim rompeu o cerco que a mídia (jornais) tentou lhe impor. Para quem tiver curiosidade sobre esta época ler “Anos dourados” (Gore Vidal), romance que localiza bem a luta política enfrentada.

Fator Obama


Coincidência ou não, o motor da chegada de Obama à Casa Branca foi o desastre Bush Jr. Sem isto, ouso afirmar, jamais um negro, com família com vínculos ao islã, lá chegaria. Sua ascensão é algo extraordinário, inimaginável há 10 anos, quem de nós conseguiria vislumbrar algo tão luminar?

Obama surge do nada, ganha da favorita Hillary a indicação do Partido Democrata. Uma hipótese pouco cogitada seis meses antes, um negro na presidência. Vitória de um outsider total, sem um pé na máquina partidária, dominada pelos Clintons.

Obama faz um acordo cruel, entrega a Secretaria de Estado, ministério mais importante americano, a sua adversária Hillary. Enfrentando uma crise sem precedentes, mais ou menos dividiu seu governo em dois: no front interno liderado por ele, tenta aprovar reformas na saúde e recompor a economia em frangalhos. O front externo é entregue a Hillary e aos falcões mais reacionários. Como boa conhecedora da máquina de guerra, Hillary tem seu desempenho facilitado pelos crescentes conflitos advindos da ampla crise financeira mundial.

Assume a presidência naquela que é considerada a segunda maior grande depressão da história do capitalismo, o país mergulhado num atoleiro no Iraque e no Afeganistão, com pouquíssimo espaço de manobra, uma herança mais do que MALDITA, sob desconfiança da elite reacionária, que aceitou a derrota na batalha, mas prolonga a guerra via mídia. Neste contexto, no próprio Partido Democrata Obama tem poucos aliados confiáveis, é obrigado a montar um ministério de composição com as alas conservadoras e ainda manter um presidente do FED comprometido ainda com o neoliberalismo.

Estes fatores combinados, recessão violenta, desemprego, sensação de decadência, duas guerras no front, uma mídia hostil deixam pouco, ou quase nada, espaço de manobra para Obama se movimentar. Para nós que estamos de fora apontar o dedo de por que ele continua as guerras é fácil, por que ele não enfrenta os lobbies armamentistas, grupos poderosos etc. Seu próprio chanceler Hilary Clinton sabota-lhe  o trabalho: negociou com os golpistas hondurenhos, por exemplo, mas são as concessões inevitáveis de governo novo no meio do caos. Aqui não quero justificar os erros de conduta de Obama, mas tentar explicar os fatos com isenção.



Economia continua em crise, desemprego piorou muito nestes anos


Houve uma piora sensível nas condições políticas e de governabilidade, acentuada agora pela imensa derrota nas eleições congressuais bianuais, com a perda da maioria na Câmara e redução na maioria do Senado.

Os grandes bancos receberam pesados recursos do Tesouro, sendo salvos os banqueiros, os megainvestidores, mas nada sobrou para os endividados em hipotecas: passou a idéia de que é melhor salvar os ricos, sem se preocupar com quem realmente perdeu tudo.

As 400 maiores fortunas nos EUA têm mais dinheiro do que 155 milhões de americanos, uma brutal concentração de renda típica de “terceiro mundo”, que se aprofundou mais no governo Obama. Depois da “crise”, em recente pesquisa foi constatado que aumentou o número de americanos com mais de US$ 1 milhão em investimentos, situação contraditória numa crise sem precedentes.

Mas na outra ponta da economia há aumento no índice de desemprego e mais ainda o aumento drástico da população que recebe os Food Stamps (programa equivalente ao Bolsa Família (no pé do texto há um link sobre o programa): de fevereiro de 2010 a outubro passou de 39 milhões a 42,4 milhões de pessoas (quase 10%).

De acordo com o United States Department of Agriculture, as estatísticas para o programa de assistência alimentar são os seguintes:
  • 51 por cento de todos os participantes são crianças (17 anos ou menos), e 65 por cento deles vivem em famílias monoparentais.
  • 55 por cento dos domicílios do vale-refeição incluem crianças.
  • 9 por cento de todos os participantes são idosos (60 anos ou mais).
  • 79 por cento de todos os benefícios vão para as famílias com filhos, 14 por cento vão para as famílias com pessoas com deficiência e sete por cento vão para as famílias com pessoas idosas.
  • 36 por cento dos agregados familiares com crianças eram chefiadas por uma mãe solteira, a esmagadora maioria dos quais eram mulheres.
  • O tamanho médio do agregado familiar é de 2,3 pessoas.
  • A renda bruta média mensal por agregado familiar do vale-refeição é de R $ 640.
  • 41 por cento dos participantes são brancos, 36 por cento são Africano-americanos, não-hispânicos, 18 por cento são hispânicos; 3 por cento são asiáticos, 2 por cento são indígenas, e 1 por cento são de raça ou etnia desconhecida.

Neste ambiente Obama jogou todo o seu peso para aprovar uma espécie de SUS, plano de saúde público, pois cerca de 45 milhões de americanos não tinham nenhuma proteção hospitalar e assistência médica (número coincidente com participantes do Food Stamps). O custo do seguro saúde é muito alto: a precarização do emprego e mesmo do subemprego impediam que esta faixa da população tivesse atendimento médico.

Porém o custo político foi desastroso, Obama foi pintado como “bolchevique”, socialista que quer acabar com a livre iniciativa. A dura batalha no Congresso foi divorciada da sociedade; um movimento protofascista, o Tea Party, cresceu de forma assustadora, elegeu inclusive representantes no novo Congresso.

Política externa desastrosa ruim com de perda de poder e influência no mundo



A dura visão do Departamento de Estado, dominado pela direita dos democratas, escolhe seus “inimigos”, o principal deles o Irã. Mesmo com o refluxo no Iraque a aventura no oriente médio ainda é prioritária, atende às demandas da indústria bélica, do setor petrolífero, dos militares e dos falcões de Israel.

Parece que nada mudou desde Bush Jr. A Sra. Clinton continua sua escalada de medo e ódio pelo mundo, Obama quase nada se diferencia, sua submissão é total ao que Hillary faz e desfaz.

Neste contexto, cada dia mais a China cresce como pólo aglutinador de forças econômicas e alternativa de investimentos, em particular no chamado 3º mundo. Com 5 trilhões de reservas cambiais, a China hoje é o principal credor americano, boa parte do destino do dólar está nas mãos dos chineses.

Esta sensação de perda do poder hegemônico mundial é mais uma derrota do governo Obama. A extrema dificuldade de dialogar com o mundo leva ao isolamento, e o império apenas é reconhecido pelo poder militar.

Mesmo em relação ao G20, Obama e Hillary nada fizeram para se aproximar e quebrar a influência chinesa. É inconcebível que Obama não tenha visitado o Brasil, o articulador mais dinâmico do G20. Este desprezo pelas relações diplomáticas torna a saída da crise americana mais distante ou em condições piores.

A recente desvalorização do dólar apenas reforça a visão equivocada de G2 (EUA-China) fechando os olhos para o resto do mundo. Ao comprar a guerra cambial com a China, Obama fecha as portas para qualquer diálogo com o restante do G20, em particular com Brasil, Índia, Rússia e África do Sul.

Falta de enfrentamento político com adversários

O surgimento de um movimento de extrema-direita nos EUA é reflexo da falta de combatividade de Obama, a complexa situação da economia, o empobrecimento crescente vistos a olho nu fizeram surgir no seio da classe média americana a Hybris do ódio e do ressentimento.

Consubstanciado no caricato Tea Party, algo parecido com típicos movimentos protofascistas que surgem na ebulição de grandes crises, em síntese são os ultraliberais contra o governo, o de Obama em particular, contra impostos, saúde pública, que querem resgatar o “sonho americano”. No fundo não passa de mais um pesadelo.

Aqui mais uma vez houve a maior falha de Obama: ele não tomou para si as rédeas de seu governo, foi bombardeado internamente pelos Clintons, por Nancy Pelosi e outros falcões democratas. Do lado de fora, o combalido Partido Republicano ressurgiu mais forte e mais à direita, galvanizando a letargia e, por que não, a covardia do governo Obama de enfrentar seus inimigos.

A imensa derrota nas eleições foi a maio senha de que Obama precisa agir com firmeza, afastar os adversários de dentro do governo, ir ter com o povo diretamente, sem meias medidas. Talvez este momento seja muito parecido com o que Lula viveu na crise do mensalão. Daquele momento em diante Lula assumiu seu destino. Será que Obama assumirá o seu? Parece que caminha para ser um novo Jimmy Carter.