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terça-feira, 17 de maio de 2011

Crônicas do Japão XVIII: Nara - templos e tempos


(Templo Kasuga)

Chegar a Nara vindo de Kyoto sua vizinha é retornar mais ainda ao lendário passado histórico do Japão, a pequena Nara foi por 84 anos (710 a 794 DC) a capital do Japão, tendo inclusive um período histórico com leva seu nome. A ida da capital para pequena Nara foi a preparação para surgimento dos grandes xogunatos futuros.

As principais religiões (Xintoísmo e Budismo) do Japão encontraram campo fértil para seus desenvolvimentos em Nara, mas particularmente o budismo teve ampla expansão e os monges tiveram grande influência na casa imperial. Por conta disto a capital mais uma vez mudou, sendo fixada em Kyoto, por mais de 1000 anos.

A cidade apesar de bem pequena respira história e seus 1300 anos de vida, gira em torno dos grandes templos, principalmente os três maiores e com grande significado:
  • Kofukuji – o maior Pagode japonês
  • Todaiji - o grande Buda
  • Kasuga – templo das lanternas vermelhas



Kofukuj - o maior Pagode japonês

Arquivo: Kofukuji0411.jpg

Foi por muito tempo o templo mais influente, pois foi construído pela importante família Fujiwara, com a doença do patriarca sua esposa mandou a construção do templo consagrada aos budistas. Erguido na cidade Yamashina em 669, foi transferido para Nara ao se tornar capital, em 710.

Era um conjunto arquitetônico com pelo menos seis grandes edificações, destacando-se o Pagode de cinco cúpulas que demonstrava a força dos que haviam erigido.  A força dos monges que cuidavam do templo e suas relações políticas com os Fujiwara perduraram por longo tempo, mesmo depois da transferência da capital para Kyoto.


Várias vezes o templo foi invadido e incendiado nas guerras civis pelo poder, dos seis palácios apenas dois chegaram até nós, sendo o principal o Pagode integralmente preservado, imponente e com a fama de ser o maior do Japão. Ele realmente impressiona quanto mais nos aproximamos mais ele se parece maior. Imagino o trabalho humano de deslocá-lo por quase 50 km de onde fora construído originalmente.

Todaiji - o grande Buda (Daibutsu)

Arquivo: den Daibutsu em Todaiji Nara01bs3200.jpg

O templo Todaiji foi construído por volta do ano de 750 DC depois de um grande período de instabilidade política e de doenças graves na capital do império, inclusive a morte de um príncipe sucessor.

O Imperador Shomu liderou o pedido de ajuda a população para que se envolvesse diretamente na construção do templo e do grande Buda, pois assim pelo exemplo de humildade de Buda este retribuiria com paz e livraria a população das doenças e desastres. Este esforço levou com mais de dois milhões e meio de japoneses de todas as regiões doassem bens para construção da imensa obra.

Tudo impressiona neste templo, a sua entrada protegida pelos dois guardiões gigantes Agyo e Bishamoten , seu pórtico imenso e a os 50 metros de altura do templo dão a grandiosidade desta belíssima construção. Ao lado da imagem há uma coluna de madeira com mais cinco metros de diâmetro ela foi vazada e aquele que a atravessa sua próxima geração será iluminada.


O pavilhão central tinha dois pagode com 100 metros de altura, a grande casa de Buda hoje tem 50 metros de altura a estatua original media 16 metros, uma coisa gigantesca, sofre com dois terremotos e incêndios mas hoje tem as seguintes medidas:
  • Altura: 14,98 m
  • Rosto: 5,33
  • Olhos: 1,02 m
  • Nariz: 0,5 m
  • Orelhas: 2,54

A estátua pesa 500 toneladas


Se no templo Zen sua mente tinha que entrar em perfeito estado de equilíbrio para que enxergasse todas as pedras do jardim para você chegar à iluminação, neste é seu corpo que terá que minguar para atravessar a coluna pelo mesmo objetivo. De um lado a aridez do jardim de pedra de outro a fenda na madeira são caminhos simbólicos para luz.

Arquivo: NaraTodaijiL0219.jpg

Sim a Luz que a clarabóia deixa penetrar o salão escuro reforça o brilho da imensa estatua de Buda, a construção dos olhos que fixa o visitante em qualquer ângulo do imenso salão, nos avisa que ele nos olha e acolhe. Aquela luz rebate na imagem e chega até nossos corações emociados. Nunca me senti tão iluminado como ali.


Pictures of Japan : 6530 nara todaiji daibutsu den - todaiji buddhist temple hall of the great buddha



Kasuga – templo das lanternas vermelhas

Inside, Minamimon (South Gate), Kasuga Taisha Shrine, Nara, Kansai, Japan

O templo das lanternas vermelhas foi construído em 768 DC pela família Fujiwara em homenagem as mulheres da casa imperial, sua longa alameda com as 3000 lanternas são de tirar o fôlego.


Este templo dedicado ao xintoísmo pela tradição tinha que ser demolido e reconstruído a cada 20 anos para que a pureza fosse conservada. As lanternas eram doadas por pessoas comuns em ato de fé e eram acesas todas as noites, mesmo de bronze em contraste as paredes vermelhas, quando acesas dão o tom avermelhado como se o sol continuasse a brilhar. Estas reconstruções foram constantes até 1863.

KASUGA SHRINE in spring[example]©Nara Prefecture/©JNTO

Hoje o templo é usado para cerimônias como “batismo” e principalmente casamentos, mas precisa ser muito rico para realizar uma cerimônia ali. Tem que mais rica ainda para que seja noturna. Por uma feliz coincidência quando estava lá assisti a um “batismo” e um casamento. Aqueles jardins de glicínias e o templo com as lanternas são absolutamente lindos.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Crônicas do Japão XVII: Kyoto IV – O caminho da Iluminação


A cidade de Kyoto combina magnificamente o passado glorioso de capital imperial por mais de 1000 anos com a preservação de seus templos de castelos com o desenvolvimento moderno, com belas avenidas, prédios novos e imponentes, dão ar a esta cidade de 1,5 milhões de habitantes.

Os posts anteriores foram dedicados aos templos históricos e marcantes, mas como falei anteriormente esta cidade tem 1200 templos suas avenidas e ruas sempre podem aparecer uma surpresa de passado medieval ao lado de prédios futuristas, convivendo lado a lado e a cultura sendo respeitada.


Esta coisa de respeitar o passado é tão impressionante que uma imensa avenida central em Kyoto de repente acaba e vira uma viela minúscula que lado a lado antigas casas medievais foram transformadas em mercado e restaurantes, uma coisa linda demais.


Vale a pena ver ainda três belíssimas edificações do passado, por sua grandiosidade e significado particular.

Heian

Heian Jingu Shrine

O castelo da dinastia Heian, fundadora da cidade, hoje conhecido como palácio das lanternas que até pouco tempo era usado como palácio de veraneio pela família imperial, tem um jardim majestoso que dizem que a própria imperatriz cuidava.

Por três séculos ele foi a sede política e administrativa do Japão, o conjunto de prédio que faziam parte do complexo era meticulosamente distribuído em salas privadas e salões de recepção que fazia uso o imperador no trato da administração pública. Num destes prédios era dedicado a residência e aposentos imperiais.

Heian Jingu Shrine Chinese Bridge

Após vários incêndios e mudanças de sede administrativa, uma parte apenas do antigo palácio foi reconstruído, dando uma visão da construção original, seu belo jardim, a combinação perfeita de flores, pedras, o lago. Causando contraste com as paredes brancas e as colunas vermelhas.

Heian Jingu Lily Pond

Nijo-Jo

Arquivo: Castle.jpg Nijo

O famoso castelo construído pelo Xogum Tokugawa no início do século XVII é uma obra de grande porte que impressiona e a engenharia, parte do complexo, são dois palácios o de Ninomaru e Honmaru, foi deslocada de outras cidades peças inteira como o pórtico gigantesco (Karamon) da entrada principal.

Arquivo: NinomaruPalace.jpg

O conjunto arquitetônico fica numa área central que ocupa 275 mil metros quadrados com 8 mil metros construídos e amplos jardins, fontes de pedras, pomares de cereja e ameixas. O mais belo destes jardins/lago é o Ninomaru, que foi delicadamente desenhado e executado por paisagistas, inclusive com o apoio de um mestre de Chá.

Arquivo: NijojoGarden3317.jpg

O pé direito é altíssimo, as obras de artes de pinturas no teto dão um tom de sofisticação aos castelos, as amplas salas de cerimoniais, como a de reuniões do xoguns com seus vassalos, a construção da hierarquia dele fica num tatame só que mais elevado, tudo detalhadamente planejado.

Arquivo: Nijojo-roka-tenjo2.jpg

O castelo foi amplamente usado como sede administrativa e política da realeza até 1939, inclusive em 1928 o imperador Hiroito foi coroado neste castelo demonstrando a sua importância para o povo japonês, o passado de glória do xogunato não foi enterrado pelo capitalismo florescente naquela época.

Arquivo: Taisehokan.jpg

Ryoan-Ji

 

O templo do Dragão em paz (Ryoan-Ji) é bem pequeno, mas de grande significado, pois é o mais famoso templo Zen do mundo. Era residência da Família Fujiwara, mas foi desapropriado após a Guerra Onin, o clã Hosokawa tomou a propriedade e mandou destruir a construção original, erguendo em seu lugar o famoso templo, que serviu de cemitério para os imperadores desta dinastia.

As sete tumbas dos imperadores Hosokawa: - Uda , Kazan , Ichijō , Go-Suzaku , Go-Reizei , Go-Sanjo e Horikawa  foram lá enterrados como símbolo da humildade após a morte. A Tsukubai (agachar) local da bacia de água que cai e o visitante se curva para lavar as mãos e boca para se purificar, o modo como foi construído obriga o gesto de semi-ajoelhar. No topo está escrito: "o que se tem é tudo que se precisa" É o ensinamento básico e anti-materialista do budismo.

Arquivo: Tsukubai2.JPG

Mas, o que mais impressiona mesmo é o jardim das pedras, uma pequena arquibancada de três batentes ao longo do jardim é o local que cada um deve se sentar e tentar ver todas as pedras de uma única vez. Só aquele que se concentra e atinge a iluminação consegue vê-las todas juntas. Esta contemplação, mais que um desafio, é a busca da reflexão, da necessidade de se abstrair do mundo material e se conectar com o etéreo. Olhamos e vemos rapidamente ao mesmo instante 14 pedras, mas a 15ª sempre nos escapa. Esta é a essência do lugar, a humildade de saber reconhecer nossos limites.


Este jardim de pedra seca é amplamente estudado, gerando vários estudos sobre eixo de simetria e eixo medial. Ao se atingir grande grau de concentração as 15 pedras formam uma imagem nova, uma projeção cerebral totalmente diferente do imaginado.

20070726_Ryoan-ji_veranda.jpg

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Crônicas do Japão XVI: Kyoto III - Kinkakuji (Templo de Ouro)



Uma das maiores atrações turísticas do Japão é o Kinkakuji, o templo de Ouro, é mais visitado e mais belo dos templos que visitei, é a construção mais imponente de Kyoto, daquelas que você precisa ver uma vez na vida, para nunca mais esquecer.

Construído pelo grande Xogum Ashikaga Yomishimitsu, durante a Era Muromachi, ele é o esplendor de uma época, conhecida como a de Ouro, as antigas instalações datavam do ano 1200, mas com a compra da propriedade por Yomishimtsu tomou a forma final que conhecemos hoje.

A glória daquela época foi talhada em grandes e imponentes construções a finalização do Kinkakuhi foi por volta de 1397, àquela construção que seria a moradia do grande Xogum, se transformou no mais importante templo Zen-budista do Japão. Todo folheado a ouro ele virou a casa de Budda.

A construção foi várias vezes incendiada, em particular nas Guerras Onin, foi definitivamente reconstruído em 1950, porém em 1955 sofreu novo ataque de um monge que tentou queimar o templo, a imagem de Yomishimitsu foi parcialmente destruída neste ataque, sendo restaurada depois.

Quem o visita jamais esquecerá as alamedas que lhe dão acesso, fortemente protegida pela polícia japonesa, coisa raríssima em qualquer parte do país, é a primeira coisa que se nota, você vai se aproximando e o coração dispara, o sol bate no templo e resplandece, encandeia, é um espetáculo sensacional, ninguém pode atravessar o lago que dar acesso ao templo.

File:Kinkaku3402CBcropped.jpg

A contemplação é próxima, ver aquela “nave dourada” como se andasse sobre a água, o conjunto de pedras que caracteriza o estilo Zen dá equilíbrio e força ao cenário. A imaginação voa ao passado tentando entender como homens rústicos construíram algo tão fenomenal, beleza, imponência, arte e vida.



Conhecer aquele templo e encontrar alguma palavra que possa dizer o que senti é muito difícil, tudo que diga não darão a noção exata do que o templo, sua força, a incrível atração que exerce sobre nós, em todos os ângulos que se possa admirá-lo ele se revela mais bonito, visto da chegada ou ir a um monte  logo atrás para observá-lo de um ponto mais alto, mais aumenta a paixão que ele desperta.

Crônicas do Japão XV: Kioto II - Ginkakuji (Templo de Prata)

Ficheiro:Ginkakuji.jpg

Ginkakuji – O templo de Prata

O templo de Prata é a expressão de um momento da vida e cultura de Kyoto depois do século de Ouro, que teve no Kinkakuji( templo de Ouro) seu auge, a nova Era,porém de austeridade e de grande incerteza.

Yoshimasa Ashikaga, era neto do grande Xogum Yomishimitsu, resolveu construir o templo de prata para que fosse símbolo dos novos tempos em Kyoto, a simplicidade e delicadeza do templo, contrastando com o tempo anterior de riqueza e glória.

As guerras e a disputa do poder punham em risco a sobrevivência da sociedade japonesa, os valores de hierarquia e obediência estavam sendo quebrados, tempos difíceis de conflitos incessante que puseram fim a uma era, quase duzentos anos de decadência se seguiram.



Yoshimasa era um amante das artes e escreveu poesias tipo Tanka e um destes permanece na entrada do templo: "Minha casa ao pé do monte Tsukimachi, aguardando a noite de luar." A cerimônia do chá (sadō) também foi uma arte cultuada naquela casa.



O Ginkakuji é um templo austero, sóbrio, seria uma quase residência de um poderoso que ao morrer deixou-o para virar um templo budista, passando à posterioridade a imagem do seu criador, seus belos jardins que combinam pedrinhas com arbustos faz nos sentirmos andando em bonsais.

A sensação de grande harmonia e equilíbrio entre a natureza que circunda o templo e as intervenções humanas é de tirar o fôlego. A Beleza da construção com a lâmina de prata, uma tentativa de brilhar a lua na escuridão que sobreveio à sociedade naquela época. O templo parece flutuar sobre o pequeno lago que o circunda.



A beleza do Koyo( a floração avermelhada do outono) e as pedras do jardim, ambiente apropriado para meditação do Zen-budismo.

Crônicas do Japão XIV: Kyoto I-Kiyomizudera(Templo da Água)

Arquivo: Kyoto01.jpg

Rumo a Kyoto



Vindo de Hiroshima/Miyajima num moderno Shinkansen(trem bala) e entrando à noite não dar para reparar direito o que nos espera da cidade que se revela à luz do sol, bem como ao anoitecer. Uma grande cidade com excelente transporte coletivo articulado por trens da JR, assim como Tókio que apesar de antigos vagões, são limpos e pontuais.

A viagem a Kyoto é antes de tudo uma volta ao passado e um ato de fé na vida, a cidade reúne o passado feudal preservado nos templos e castelos combinada com uma arquitetura de presente e de prédios futuristas. Chegar à cidade é ter certeza que você entrou quase num cenário de filme.

Kyoto foi capital do Japão por mais de 1000 anos, sofreu destruições nas várias guerras dos samurais, foi palco da glória dos Xogunatos e da longa dinastia de Heian. Kyoto significa capital, vem do nome Kyō ( 京 ), sendo ToKYO ( capital do Oriente). A longa história da cidade e sua preservação encanta que a visita.

Saímos da estação central depois de um Noriakai (baldeação) do Shinkansen para o trem urbano, chegamos com rapidez e segurança ao Hotel, dia muito cansativo cheio de emoções, só deu tempo de tomar um banho de ofurô (ninguém, é de ferro) e cair direto na cama, noutro dia seria muito longo.

Logo muito cedo saímos do hotel rumo ao templos e tempos de Kyoto, a cidade tem incríveis 1200 templos, que vão desde pequenos oratórios numa pequena porta aos majestosos Kiyomizudera (Templo da Água pura), templo de Prata (Ginkakuji), passando pelo Heian(Templo das Laternas - antigo palácio Imperial) ao mais espetacular de todos que via na vida: Kinkakuji – o templo de Ouro.

Kiyomizudera – a água da vida

Ficheiro:Kiyomizu-dera.jpg

O Kiyomizudera é uma ampla instalação, construída no final do VIII que continua lindamente preservado, sendo na verdade um conjunto de templos dos Hosso uma das seitas mais antigas do Budismo.

É um templo afastado do centro de Kyoto, numa encosta de um monte, se chega de carro até determinado ponto e depois se segue a pé. A caminhada é entre belos arbustos extremamente bem cuidados, os cortes são tão perfeitos que parecem terem sido feitos por uma máquina que o esquadrinhasse. A Entrada é ampla, com uma construção central ao pé da encosta do morro.

Ficheiro:Japan Kyoto KiyoMizuDera temple from afar DSC00653.jpg

Neste primeiro templo são feitas as orações e se amarra os pedidos em pequenas tabuletas, o aroma de fumaça se eleva a todos, um cheiro gostoso que purifica a alma e abre a mente para o lugar que se visita. Por uma alameda se saí rumo aos outros templos do conjunto, só ali são 12 templos diferentes e com significados próprios.

O principal templo é o da água pura, que devemos tomar para termos saúde e disposição, uma fonte de água caí e uma pequena caneca é usada para recolher a água e tomá-la.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Crônicas do Japão XII: Hiroshima nossa dor


Hiroshima



Estar em Hiroshima é uma experiência das mais estranhas que se possa sentir, o Shinkansen foi se aproximando da cidade e uma sensação de dor, amargura foi tomando conta de mim, era por volta da meia noite, depois de um dia muito especial em Ise, a terra mais sagrada dos xintoístas, e um fim de tarde maravilhoso andando sem rumo por Nagoya.

Saímos de Nagoya rumo a Hiroshima feliz por andar de Shinkansen mesmo sendo noite apreciamos as paradas e nos divertimos pela viagem, porém nosso destino era lá, acabara de ler um livro de Kenzaburo Oe e a “guerra” ainda rondava minha cabeça.

Ao chegar à estação central rapidamente peguei um taxi e fui ao hotel, um mesmo Sun Garden que morava em Kashiwa, já quebrou um pouco do temor pela cidade nova, tentei dormir logo, mas o incomodo não deixava, não era cansaço, era a aura da cidade, a carga emocional.

Monumento pela Paz Mundial


(museu pela paz mundial)

Consegui a muito custo dormir, e acordei muito cedo, encontrei meus amigos passamos numa lanchonete comemos alguma coisa e partimos para o Domo, o local que os americanos miraram ao jogar a bomba atômica, que os japoneses fizeram questão de preservar seus escombros. O Domo era a cúpula de uma fábrica de armas, pela maquete que vi depois, era o único prédio de concreto armado da cidade. Em 1996, 41 anos depois da explosão o nível radioativo perto do Domo ainda é acima do normal, há equipamento que mostram os valores instalados em volta.


(escombros do Domo - epicentro da Bomba Atômica)

Logo ao lado dele há o imenso museu, a praça, a catedral ecumênica e a pira da paz mundial sempre acesa pela paz, para que nunca mais se jogue novas bombas. Entramos no museu, é um prédio longo de três ou quatro andares, em que tudo relacionado ao ataque americano está preservado lá: fotos, objetos, o artefato que carregou a ogiva, uma réplica do Domo, representação dos corpos dilacerados.

Ao entrar há vários monitores de TV em que você escolhe entre 128 idiomas para que seja detalhadamente contado o dia do ataque, e suas conseqüências malditas, por exemplo, ao tocar o solo e liberar a explosão 20 mil pessoas morreram imediatamente em pouco mais de 30 minutos, o calor no epicentro da bomba chegou a oito mil graus, num raio de 20 km ceifou a vida impiedosamente 200 mil pessoas.

As lágrimas e a sensação de dor aumentam gradativamente, um silêncio sepulcral toma conta do museu, nem entre nós encontramos palavras para dizer o que sentíamos apenas nos olhávamos e todos choravam, não há o que falar, é refletir toda maldade humana daquele gesto cruel, quem entra neste museu não saí igual, a dor é imensa, o repúdio à bomba e aos americanos toma conta.

A sabedoria japonesa transformou aquele local terrível em poesia, um lindo e imenso labirinto de jardins foi construído em frente ao museu tendo à esquerda o monumento da esperança cheio de feixes de Origamis em homenagem a garota que viveu 1000 dias mesmo gravemente doente, pois o médico lhe dizia a cada Origami você ganhará um dia de vida(pausa para lágrimas). De todo lugar do mundo as pessoas mandam os feixes de origamis que são respeitosamente depositados em frente ao monumento.

Hiroshima, Japan: Childrens Peace Monument

Pouco mais à frente a Pira que nunca apaga, ela deve ser sempre acesa para que nos lembremos do mal da bomba, das pessoas mortas, do flagelo humano, que reflitamos sobre nossas escolhas e vida, as pessoas chegam perto da pira sentem o calor, se iluminam e saem silenciosas.


Deste conjunto arquitetônico também faz parte a catedral pela paz mundial, ela não pertence à religião alguma, mas qualquer que processe alguma fé, ou mesmo quem não tenha religião vai prestar sua solidariedade aos mortos da imensa tragédia, os soluços, os cantos, as orações em várias línguas são ouvidas, o pensamento é único.

Toda e qualquer coisa que escreva dirão pouco do que foi a visita a Hiroshima, muito difícil expressar, parei várias vezes aqui lembrando as coisas e chorando, um nó na garganta, uma coisa em particular marcou muito, nenhum de nós conseguiu bater fotos de lá, nada se capta numa foto nossa ou do lugar, talvez inconsciente fosse nossa maneira de respeitar o lugar e as pessoas, entramos em Hiroshima cheio de si, saímos pequenos de nós, envergonhados pelo que fizemos a nós mesmos.

Rosa de Hiroshima

(Vinicius/Gerson Conrad)

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

terça-feira, 3 de maio de 2011

Crônicas do Japão XI: Lojas de Música


A riqueza cultural do Japão realmente é impressionante, as várias manifestações de sociedade moderna e antiga, combinando passado, presente e futuro, tudo o que se pensar de variedade se encontra nas grandes cidades japonesas, museus, templos, ginásios, galerias de artes, pintura, escultura. Depois especificamente sobre literatura vou escrever em particular sobre Kenzaburo Oe, que me encanta profundamente e tanto me emociona.

Mas hoje quero falar do que era “forte” em 1996 e mais me distraia: freqüentar as imensas lojas de CDs, vocês não têm idéia do que era ficar até 9 horas ouvindo, descobrindo preciosidades nestes verdadeiros templos em homenagem a música mundial.

Logo de cara a loja da Virgin em Tókio, no chique e moderno bairro de Shibuya é um caso à parte, vários andares de músicas (na época CDs) e vídeos, catalogados por estilos, ritmos, países, numa infinidade de produções que impressiona mesmo os mais entendidos no assunto.


(Nana Kitade - J-Pop)

Apenas a seção dedicada ao Brasil encontrei cada preciosidade inacreditável, que nunca tinha visto aqui no Brasil, por exemplo, havia um CD em homenagem ao Tom Jobim feito após sua morte por grandes jazzistas americanos, com os maiores Hits dele, produzido no Japão(claro que comprei) até hoje nunca achei um igual no Brasil. Tem um outro do Vinicius também inédito aqui. O catalogo brasileiro era dominado por bossa nova, samba, samba rock.

O que me espantava também era a qualidade, não apenas das gravações, mas também os folhetos internos, a riqueza de detalhes, as letras originais e transcritas em Nihon-go, totalmente na contramão dos produzidos aqui e até mesmo nos USA. O álbum valorizava o artista e sua obra, explicativo, didático sem chato. O preço do CD produzido no Japão chegava a ser 20% mais caro do que os mesmo feitos nos USA, mas os encartes valiam pagar mais.

Cada andar da Virgin você podia gastar uma manhã inteira, o andar inteiro dedicado ao Jazz era estupendo, dividido por estilo, por época, por cantores, bandas, tudo fielmente cadastrado, as várias gravações, os álbuns de shows, os festivais com aquelas “canjas” imensas. Detalhe você podia ouvir sem precisar comprar, ou melhor, decidir na hora de comprar.

Lógico que dentro desta vasta loja havia lançamento de discos, de novos e consagrados artistas, as performances longamente acompanhada pelos fãs, um clube interno também funcionava, era um ambiente cheio de vida de cores, para uma nova classe média mais livre dos grilhões do trabalho, mas sempre na lógica do “mercado”.



Loja de CDs “Usados” de Kashiwa


Outra coisa sensacional era uma loja de CDs em Kashiwa, menor que a Virgin, óbvio, mas muito rica e mais confusa, mas tinha um detalhe que fazia toda diferença para mim: dois subsolos de CDs “usados”. Usado é modo de dizer, os caras compravam um CD no fim de semana ouviam e devolviam para loja, trocados por um novo.

Então estes CDs desciam para o subsolo, por 20 ou 30% do valor original, realmente era maravilha comprar, porque eles devolviam com capa, encarte, se qualquer o visse pensaria se tratar de um cd efetivamente novo. Comprei muitos, mas muitos CDs, quando voltei tive que comprar uma mochila grande só para CDs.

Era uma terapia descer ao subsolo, era muito louco tudo desorganizado, você tem que garimpar muito, mas faz parte de quem busca coisas raras e legais. Descobri uma infinidade de coisas diferentes de vários lugares do mundo: Rússia, Bulgária, Egito, Noruega, Holanda, Brasil, USA, Japão, Coréia etc. Coisas lindas demais que guardo até hoje, mesmo as rádios mais experimentais não tocam estas músicas, hoje com a internet facilita atualizar cantores como Origa(russa), Valensia(holandês), Secret Garden(Norueguês) pois jamais os ouviria aqui.

Crystal Winter




Outra coisa que vi que gostava demais eram das dezenas de CDs de shows, uma antecipação do que seria os futuros DVDs, vi muitas versões gravadas de grandes performances, só do Pink Floyd, formação clássica e sem Roger Water encontrei mais de 20 cds, alguns eu trouxe porque eram bons demais, leituras mais pesadas ou outras mais suaves de antigos clássicos.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Obama x Osama: Como no velho oeste


Obama matou Osama, não é um mero trocadilho de B e S dos nomes, mas algo mais grave e pior, o Prêmio Nobel da Paz anuncia com galhardia que matou o inimigo público americano número 1, assim cheio de satisfação, nem um pesar ou qualquer lamentação. As congratulações aos envolvidos na macabra operação de caça e morte, com ordem expressa de não deixá-lo vivo, julgar para que mesmo?

Mas é preciso rebobinar o filme e melhor localizar a questão cinematográfica, pois como de costume os roteiros estão prontos, para nova saga do herói que mata, não julga, e não se preocupa com a História, apenas com a Estória que irá contar.

Obama I: A vitória do inesperado

Coincidência ou não, mas o motor da chegada de Obama a Casa Branca foi o desastre Bush Jr, sem isto, ouso afirmar, jamais um negro, com família com vínculos ao islã, lá chegaria. Além da economia em frangalhos Bush Jr promoveu a caça fracassada a Osama, item sensível para o americano médio, seu poder no mundo estava em baixa, um reles fanático consegue se esconder das mais modernas máquinas tecnológicas do mundo.

Obama era o outsider da máquina do Partido Democrata, amplamente  controlada pelos Clintons, e sua favorita Hillary a indicação do Partido seria mera formalidade. Porém Obama surge avassalador e numa hipótese pouco cogitada, seis meses antes, leva um negro à presidência. Vitória de um outsider total.

Obama fez um acordo dentro do partido em que entrega a Secretaria de Estado, ministério mais importante americano, a sua adversária Hillary. Enfrentando uma crise sem precedentes, mais ou menos dividiu seu Governo em dois: no front interno liderado por ele, tenta aprovar reformas na saúde e recompor a economia em frangalhos. No front externo entregue a Hillary e os falcões mais reacionários, como boa conhecedora da máquina de guerra, Hillary tem seu desempenho facilitada pelos crescentes conflitos advindo da ampla crise financeira mundial.

Assume a presidência naquela que é considerada a segunda maior grande depressão da história do capitalismo, o país mergulhado num atoleiro no Iraque e Afeganistão, com pouquíssimo espaço de manobra, uma herança mais do que MALDITA, sob desconfiança da elite reacionária, que aceitou a derrota na batalha, mas prolonga a guerra via mídia. Neste contexto dentro do próprio partido Democrata, Obama tem poucos aliados confiáveis, é obrigado a montar um ministério de composição com as alas conservadoras e ainda manter um presidente do FED comprometido ainda com o Neoliberalismo.

Estes fatores combinados, recessão violenta, desemprego, sensação de decadência duas guerras no front, uma mídia hostil, deixam pouco, ou quase nada, espaço de manobra para Obama se movimentar.



Economia de Obama : O mais do mesmo


Houve uma piora sensível nas condições políticas e de governabilidade, acentuada agora pela imensa derrota nas eleições congressuais bianuais, com a perda da maioria na Câmara Federal e redução na maioria do Senado federal.

Os grandes bancos receberam pesados recursos do tesouro, sendo salvos os banqueiros, os megainvestidores, mas nada sobrou para os endividados em hipotecas, passou a idéia de que é melhor salvar os ricos, sem se preocupar com quem realmente perdeu tudo.

Desde o início da crise iniciada em Setembro de 2008, mais precisamente a apresentação da conta salgada do resgate dos bancos e corporações feitas pelos planos de Bush I e II, e os três ajustes de Obama nos Estados Unidos. Apenas Bush injetou no sistema bancário americano combalido cerca de 1,5 Trilhões de Dólares que foi reforçado por Obama ainda na transição e nos seguidos ajustes de 2009, 2010 e o último agora de 2011. A dívida pública americana saltou de 8,7 Trilhões (62% do PIB) em 2007 para 15,2 Trilhões (99,5% do PIB) em 2010.

Como conseqüência mais visível as 400 maiores fortunas nos EUA têm mais dinheiro do que 155 milhões de americanos, uma brutal concentração de renda típica de “terceiro mundo”, que se aprofundou mais no governo Obama. Depois da “crise” em recente pesquisa foi constatada que aumentou o número de americanos com mais de US$ 1 milhão em investimentos, situação contraditória numa crise sem precedentes.

Mas a outra ponta da economia há aumento no índice de desemprego e mais ainda o aumento drástico da população que recebe os Food Stamps (programa equivalente à Bolsa Família, no final tem um link sobre o programa) de Fevereiro de 2010 a Outubro passou de 39 milhões 42,4 milhões de pessoas (quase 10%)

Neste ambiente Obama jogou todo peso para aprovar uma espécie de SUS plano de saúde público, pois cerca de 45 milhões de americanos não tinham nenhuma proteção hospitalar e assistência médica (número coincidente com participantes do Food Stamps). O custo do seguro saúde é muito alto e devido à precarização do emprego e mesmo subemprego impedia que esta faixa da população tivesse atendimento médico.

Porém o custo político foi desastroso, Obama foi pintado como “Bolchevique” Socialista que quer acabar com a livre iniciativa, a dura batalha no congresso foi divorciada da sociedade, um movimento Proto-Fascista, Tea Party, cresceu de forma assustadora, elegeu inclusive representantes no novo congresso.

Política externa : Obama Bush Jr


A dura visão do Departamento de Estado, dominado pela Direita dos democratas, escolhe seus “inimigos”, o principal deles o Irã, mesmo com o refluxo no Iraque a aventura no oriente médio ainda é prioritária, atende a demanda da indústria bélica, do setor petrolífero, do militares e dos falcões de Israel.

Parece que nada mudou desde Bush Jr, a Sra. Clinton continua sua escalada de medo e ódio pelo mundo, Obama quase nada se diferencia, sua submissão é total ao que Hillary faz e desfaz.

Neste contexto cada dia mais a China crescem como pólo aglutinador de forças econômicas e alternativa de investimentos, em particular no chamado 3º mundo. Com 5 Trilhões de reservas cambiais, a China hoje é o principal credor americano, boa parte do destino do Dólar está nas mãos dos chineses.

Esta sensação de perda do poder hegemônico mundial é mais uma derrota do Governo Obama, a extrema dificuldade de dialogar com o mundo leva a um isolamento e o império apenas é reconhecido pelo poder militar.

Mesmo em relação ao G20, Obama/Hillary nada fez para se aproximar e quebrar a influência chinesa é inconcebível que Obama não tenha visitado o Brasil, o articulador mais dinâmico do G20. Este desprezo pelas relações diplomáticas torna a saída da crise americana mais distante ou em condições piores.

A recente desvalorização do Dólar apenas reforça a visão equivocada de G2 (EUA-China) fechando os olhos para o resto do mundo. Ao comprar a guerra cambial com a China, Obama fecha às portas para qualquer dialogo com o restante do G20, em particular com Brasil, Índia, Rússia e África do Sul



Obama II: Sem enfrentamento interno e o fator morte Osama

O surgimento de um movimento de extrema-direita nos EUA é reflexo da falta de combatividade de Obama, a complexa situação da economia, o empobrecimento crescente vistos a olhos nus, fez surgir no seio da classe média americana a Hybris do ódio e ressentimento.

Consubstanciado no caricato Tea Party algo parecido com típicos movimentos proto-fascistas que surgem na ebulição de grandes crises, em sínteses são ultra liberais contra governo, o de Obama em particular, contra impostos, saúde publica e que querem resgatar o “sonho americano”. No fundo não passa de mais um pesadelo.

Aqui mais uma vez houve a maior falha de Obama, ele não tomou para si às rédeas de seu governo, foi bombardeado internamente pelos Clintons,Nancy Pelosi e outros falcões democratas. Do lado de fora o combalido Partido Republicano ressurgiu mais forte e mais à direita, galvanizando a letargia e porque não a covardia do Governo Obama de enfrentar seus inimigos.

Logo no seu relançamento Obama prometeu cortar 4 trilhões da dívida em 4 anos e reduzir o déficit público para 3,5% até 2016, como bem definiu Clinton em 1994 na luta contra Bush Pai: “é a economia estúpido”  que explica a vitória ou derrota de um candidato presidente, assim será mais uma vez com Obama.


A morte e a "morte" de Osama



A grande jogada de marketing que traria algo espetacular e a salvação da lavoura,  veio com o anuncio da morte de Osama, toda mídia mundial saudou o evento, como algo especial, sem nenhuma crítica ao fato de ter sido aparentemente dominado, sem que fosse preciso executá-lo, parece apenas um mero detalhe.

Hoje se ver pelas imagens que os americanos estão jubilosos com a morte de Osama, se sentem “vingados”, mas também foi lhes negado o “troféu” como Bush Jr fez ao matar Saddam. A se confirmar que jogaram os restos mortais de Osama ao mar, além de um ato estúpido e cruel, cria mais animosidade e reforça a tese que os EUA não respeitam o estado de direito, muito menos a democracia.

Mas para máquina de guerra não pode parar, há 100 mil soldados no Afeganistão o que farão agora? O inimigo número 1 está morto o que fazer lá? Deslocamento para Líbia? É mais um capítulo desta dura realidade americana, sustentar o motor de sua economia através da morte e do medo.