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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Crônicas do Japão XII: Hiroshima nossa dor


Hiroshima



Estar em Hiroshima é uma experiência das mais estranhas que se possa sentir, o Shinkansen foi se aproximando da cidade e uma sensação de dor, amargura foi tomando conta de mim, era por volta da meia noite, depois de um dia muito especial em Ise, a terra mais sagrada dos xintoístas, e um fim de tarde maravilhoso andando sem rumo por Nagoya.

Saímos de Nagoya rumo a Hiroshima feliz por andar de Shinkansen mesmo sendo noite apreciamos as paradas e nos divertimos pela viagem, porém nosso destino era lá, acabara de ler um livro de Kenzaburo Oe e a “guerra” ainda rondava minha cabeça.

Ao chegar à estação central rapidamente peguei um taxi e fui ao hotel, um mesmo Sun Garden que morava em Kashiwa, já quebrou um pouco do temor pela cidade nova, tentei dormir logo, mas o incomodo não deixava, não era cansaço, era a aura da cidade, a carga emocional.

Monumento pela Paz Mundial


(museu pela paz mundial)

Consegui a muito custo dormir, e acordei muito cedo, encontrei meus amigos passamos numa lanchonete comemos alguma coisa e partimos para o Domo, o local que os americanos miraram ao jogar a bomba atômica, que os japoneses fizeram questão de preservar seus escombros. O Domo era a cúpula de uma fábrica de armas, pela maquete que vi depois, era o único prédio de concreto armado da cidade. Em 1996, 41 anos depois da explosão o nível radioativo perto do Domo ainda é acima do normal, há equipamento que mostram os valores instalados em volta.


(escombros do Domo - epicentro da Bomba Atômica)

Logo ao lado dele há o imenso museu, a praça, a catedral ecumênica e a pira da paz mundial sempre acesa pela paz, para que nunca mais se jogue novas bombas. Entramos no museu, é um prédio longo de três ou quatro andares, em que tudo relacionado ao ataque americano está preservado lá: fotos, objetos, o artefato que carregou a ogiva, uma réplica do Domo, representação dos corpos dilacerados.

Ao entrar há vários monitores de TV em que você escolhe entre 128 idiomas para que seja detalhadamente contado o dia do ataque, e suas conseqüências malditas, por exemplo, ao tocar o solo e liberar a explosão 20 mil pessoas morreram imediatamente em pouco mais de 30 minutos, o calor no epicentro da bomba chegou a oito mil graus, num raio de 20 km ceifou a vida impiedosamente 200 mil pessoas.

As lágrimas e a sensação de dor aumentam gradativamente, um silêncio sepulcral toma conta do museu, nem entre nós encontramos palavras para dizer o que sentíamos apenas nos olhávamos e todos choravam, não há o que falar, é refletir toda maldade humana daquele gesto cruel, quem entra neste museu não saí igual, a dor é imensa, o repúdio à bomba e aos americanos toma conta.

A sabedoria japonesa transformou aquele local terrível em poesia, um lindo e imenso labirinto de jardins foi construído em frente ao museu tendo à esquerda o monumento da esperança cheio de feixes de Origamis em homenagem a garota que viveu 1000 dias mesmo gravemente doente, pois o médico lhe dizia a cada Origami você ganhará um dia de vida(pausa para lágrimas). De todo lugar do mundo as pessoas mandam os feixes de origamis que são respeitosamente depositados em frente ao monumento.

Hiroshima, Japan: Childrens Peace Monument

Pouco mais à frente a Pira que nunca apaga, ela deve ser sempre acesa para que nos lembremos do mal da bomba, das pessoas mortas, do flagelo humano, que reflitamos sobre nossas escolhas e vida, as pessoas chegam perto da pira sentem o calor, se iluminam e saem silenciosas.


Deste conjunto arquitetônico também faz parte a catedral pela paz mundial, ela não pertence à religião alguma, mas qualquer que processe alguma fé, ou mesmo quem não tenha religião vai prestar sua solidariedade aos mortos da imensa tragédia, os soluços, os cantos, as orações em várias línguas são ouvidas, o pensamento é único.

Toda e qualquer coisa que escreva dirão pouco do que foi a visita a Hiroshima, muito difícil expressar, parei várias vezes aqui lembrando as coisas e chorando, um nó na garganta, uma coisa em particular marcou muito, nenhum de nós conseguiu bater fotos de lá, nada se capta numa foto nossa ou do lugar, talvez inconsciente fosse nossa maneira de respeitar o lugar e as pessoas, entramos em Hiroshima cheio de si, saímos pequenos de nós, envergonhados pelo que fizemos a nós mesmos.

Rosa de Hiroshima

(Vinicius/Gerson Conrad)

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

terça-feira, 3 de maio de 2011

Crônicas do Japão XI: Lojas de Música


A riqueza cultural do Japão realmente é impressionante, as várias manifestações de sociedade moderna e antiga, combinando passado, presente e futuro, tudo o que se pensar de variedade se encontra nas grandes cidades japonesas, museus, templos, ginásios, galerias de artes, pintura, escultura. Depois especificamente sobre literatura vou escrever em particular sobre Kenzaburo Oe, que me encanta profundamente e tanto me emociona.

Mas hoje quero falar do que era “forte” em 1996 e mais me distraia: freqüentar as imensas lojas de CDs, vocês não têm idéia do que era ficar até 9 horas ouvindo, descobrindo preciosidades nestes verdadeiros templos em homenagem a música mundial.

Logo de cara a loja da Virgin em Tókio, no chique e moderno bairro de Shibuya é um caso à parte, vários andares de músicas (na época CDs) e vídeos, catalogados por estilos, ritmos, países, numa infinidade de produções que impressiona mesmo os mais entendidos no assunto.


(Nana Kitade - J-Pop)

Apenas a seção dedicada ao Brasil encontrei cada preciosidade inacreditável, que nunca tinha visto aqui no Brasil, por exemplo, havia um CD em homenagem ao Tom Jobim feito após sua morte por grandes jazzistas americanos, com os maiores Hits dele, produzido no Japão(claro que comprei) até hoje nunca achei um igual no Brasil. Tem um outro do Vinicius também inédito aqui. O catalogo brasileiro era dominado por bossa nova, samba, samba rock.

O que me espantava também era a qualidade, não apenas das gravações, mas também os folhetos internos, a riqueza de detalhes, as letras originais e transcritas em Nihon-go, totalmente na contramão dos produzidos aqui e até mesmo nos USA. O álbum valorizava o artista e sua obra, explicativo, didático sem chato. O preço do CD produzido no Japão chegava a ser 20% mais caro do que os mesmo feitos nos USA, mas os encartes valiam pagar mais.

Cada andar da Virgin você podia gastar uma manhã inteira, o andar inteiro dedicado ao Jazz era estupendo, dividido por estilo, por época, por cantores, bandas, tudo fielmente cadastrado, as várias gravações, os álbuns de shows, os festivais com aquelas “canjas” imensas. Detalhe você podia ouvir sem precisar comprar, ou melhor, decidir na hora de comprar.

Lógico que dentro desta vasta loja havia lançamento de discos, de novos e consagrados artistas, as performances longamente acompanhada pelos fãs, um clube interno também funcionava, era um ambiente cheio de vida de cores, para uma nova classe média mais livre dos grilhões do trabalho, mas sempre na lógica do “mercado”.



Loja de CDs “Usados” de Kashiwa


Outra coisa sensacional era uma loja de CDs em Kashiwa, menor que a Virgin, óbvio, mas muito rica e mais confusa, mas tinha um detalhe que fazia toda diferença para mim: dois subsolos de CDs “usados”. Usado é modo de dizer, os caras compravam um CD no fim de semana ouviam e devolviam para loja, trocados por um novo.

Então estes CDs desciam para o subsolo, por 20 ou 30% do valor original, realmente era maravilha comprar, porque eles devolviam com capa, encarte, se qualquer o visse pensaria se tratar de um cd efetivamente novo. Comprei muitos, mas muitos CDs, quando voltei tive que comprar uma mochila grande só para CDs.

Era uma terapia descer ao subsolo, era muito louco tudo desorganizado, você tem que garimpar muito, mas faz parte de quem busca coisas raras e legais. Descobri uma infinidade de coisas diferentes de vários lugares do mundo: Rússia, Bulgária, Egito, Noruega, Holanda, Brasil, USA, Japão, Coréia etc. Coisas lindas demais que guardo até hoje, mesmo as rádios mais experimentais não tocam estas músicas, hoje com a internet facilita atualizar cantores como Origa(russa), Valensia(holandês), Secret Garden(Norueguês) pois jamais os ouviria aqui.

Crystal Winter




Outra coisa que vi que gostava demais eram das dezenas de CDs de shows, uma antecipação do que seria os futuros DVDs, vi muitas versões gravadas de grandes performances, só do Pink Floyd, formação clássica e sem Roger Water encontrei mais de 20 cds, alguns eu trouxe porque eram bons demais, leituras mais pesadas ou outras mais suaves de antigos clássicos.