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terça-feira, 17 de maio de 2011

Crônicas do Japão XVIII: Nara - templos e tempos


(Templo Kasuga)

Chegar a Nara vindo de Kyoto sua vizinha é retornar mais ainda ao lendário passado histórico do Japão, a pequena Nara foi por 84 anos (710 a 794 DC) a capital do Japão, tendo inclusive um período histórico com leva seu nome. A ida da capital para pequena Nara foi a preparação para surgimento dos grandes xogunatos futuros.

As principais religiões (Xintoísmo e Budismo) do Japão encontraram campo fértil para seus desenvolvimentos em Nara, mas particularmente o budismo teve ampla expansão e os monges tiveram grande influência na casa imperial. Por conta disto a capital mais uma vez mudou, sendo fixada em Kyoto, por mais de 1000 anos.

A cidade apesar de bem pequena respira história e seus 1300 anos de vida, gira em torno dos grandes templos, principalmente os três maiores e com grande significado:
  • Kofukuji – o maior Pagode japonês
  • Todaiji - o grande Buda
  • Kasuga – templo das lanternas vermelhas



Kofukuj - o maior Pagode japonês

Arquivo: Kofukuji0411.jpg

Foi por muito tempo o templo mais influente, pois foi construído pela importante família Fujiwara, com a doença do patriarca sua esposa mandou a construção do templo consagrada aos budistas. Erguido na cidade Yamashina em 669, foi transferido para Nara ao se tornar capital, em 710.

Era um conjunto arquitetônico com pelo menos seis grandes edificações, destacando-se o Pagode de cinco cúpulas que demonstrava a força dos que haviam erigido.  A força dos monges que cuidavam do templo e suas relações políticas com os Fujiwara perduraram por longo tempo, mesmo depois da transferência da capital para Kyoto.


Várias vezes o templo foi invadido e incendiado nas guerras civis pelo poder, dos seis palácios apenas dois chegaram até nós, sendo o principal o Pagode integralmente preservado, imponente e com a fama de ser o maior do Japão. Ele realmente impressiona quanto mais nos aproximamos mais ele se parece maior. Imagino o trabalho humano de deslocá-lo por quase 50 km de onde fora construído originalmente.

Todaiji - o grande Buda (Daibutsu)

Arquivo: den Daibutsu em Todaiji Nara01bs3200.jpg

O templo Todaiji foi construído por volta do ano de 750 DC depois de um grande período de instabilidade política e de doenças graves na capital do império, inclusive a morte de um príncipe sucessor.

O Imperador Shomu liderou o pedido de ajuda a população para que se envolvesse diretamente na construção do templo e do grande Buda, pois assim pelo exemplo de humildade de Buda este retribuiria com paz e livraria a população das doenças e desastres. Este esforço levou com mais de dois milhões e meio de japoneses de todas as regiões doassem bens para construção da imensa obra.

Tudo impressiona neste templo, a sua entrada protegida pelos dois guardiões gigantes Agyo e Bishamoten , seu pórtico imenso e a os 50 metros de altura do templo dão a grandiosidade desta belíssima construção. Ao lado da imagem há uma coluna de madeira com mais cinco metros de diâmetro ela foi vazada e aquele que a atravessa sua próxima geração será iluminada.


O pavilhão central tinha dois pagode com 100 metros de altura, a grande casa de Buda hoje tem 50 metros de altura a estatua original media 16 metros, uma coisa gigantesca, sofre com dois terremotos e incêndios mas hoje tem as seguintes medidas:
  • Altura: 14,98 m
  • Rosto: 5,33
  • Olhos: 1,02 m
  • Nariz: 0,5 m
  • Orelhas: 2,54

A estátua pesa 500 toneladas


Se no templo Zen sua mente tinha que entrar em perfeito estado de equilíbrio para que enxergasse todas as pedras do jardim para você chegar à iluminação, neste é seu corpo que terá que minguar para atravessar a coluna pelo mesmo objetivo. De um lado a aridez do jardim de pedra de outro a fenda na madeira são caminhos simbólicos para luz.

Arquivo: NaraTodaijiL0219.jpg

Sim a Luz que a clarabóia deixa penetrar o salão escuro reforça o brilho da imensa estatua de Buda, a construção dos olhos que fixa o visitante em qualquer ângulo do imenso salão, nos avisa que ele nos olha e acolhe. Aquela luz rebate na imagem e chega até nossos corações emociados. Nunca me senti tão iluminado como ali.


Pictures of Japan : 6530 nara todaiji daibutsu den - todaiji buddhist temple hall of the great buddha



Kasuga – templo das lanternas vermelhas

Inside, Minamimon (South Gate), Kasuga Taisha Shrine, Nara, Kansai, Japan

O templo das lanternas vermelhas foi construído em 768 DC pela família Fujiwara em homenagem as mulheres da casa imperial, sua longa alameda com as 3000 lanternas são de tirar o fôlego.


Este templo dedicado ao xintoísmo pela tradição tinha que ser demolido e reconstruído a cada 20 anos para que a pureza fosse conservada. As lanternas eram doadas por pessoas comuns em ato de fé e eram acesas todas as noites, mesmo de bronze em contraste as paredes vermelhas, quando acesas dão o tom avermelhado como se o sol continuasse a brilhar. Estas reconstruções foram constantes até 1863.

KASUGA SHRINE in spring[example]©Nara Prefecture/©JNTO

Hoje o templo é usado para cerimônias como “batismo” e principalmente casamentos, mas precisa ser muito rico para realizar uma cerimônia ali. Tem que mais rica ainda para que seja noturna. Por uma feliz coincidência quando estava lá assisti a um “batismo” e um casamento. Aqueles jardins de glicínias e o templo com as lanternas são absolutamente lindos.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Crônicas do Japão XVII: Kyoto IV – O caminho da Iluminação


A cidade de Kyoto combina magnificamente o passado glorioso de capital imperial por mais de 1000 anos com a preservação de seus templos de castelos com o desenvolvimento moderno, com belas avenidas, prédios novos e imponentes, dão ar a esta cidade de 1,5 milhões de habitantes.

Os posts anteriores foram dedicados aos templos históricos e marcantes, mas como falei anteriormente esta cidade tem 1200 templos suas avenidas e ruas sempre podem aparecer uma surpresa de passado medieval ao lado de prédios futuristas, convivendo lado a lado e a cultura sendo respeitada.


Esta coisa de respeitar o passado é tão impressionante que uma imensa avenida central em Kyoto de repente acaba e vira uma viela minúscula que lado a lado antigas casas medievais foram transformadas em mercado e restaurantes, uma coisa linda demais.


Vale a pena ver ainda três belíssimas edificações do passado, por sua grandiosidade e significado particular.

Heian

Heian Jingu Shrine

O castelo da dinastia Heian, fundadora da cidade, hoje conhecido como palácio das lanternas que até pouco tempo era usado como palácio de veraneio pela família imperial, tem um jardim majestoso que dizem que a própria imperatriz cuidava.

Por três séculos ele foi a sede política e administrativa do Japão, o conjunto de prédio que faziam parte do complexo era meticulosamente distribuído em salas privadas e salões de recepção que fazia uso o imperador no trato da administração pública. Num destes prédios era dedicado a residência e aposentos imperiais.

Heian Jingu Shrine Chinese Bridge

Após vários incêndios e mudanças de sede administrativa, uma parte apenas do antigo palácio foi reconstruído, dando uma visão da construção original, seu belo jardim, a combinação perfeita de flores, pedras, o lago. Causando contraste com as paredes brancas e as colunas vermelhas.

Heian Jingu Lily Pond

Nijo-Jo

Arquivo: Castle.jpg Nijo

O famoso castelo construído pelo Xogum Tokugawa no início do século XVII é uma obra de grande porte que impressiona e a engenharia, parte do complexo, são dois palácios o de Ninomaru e Honmaru, foi deslocada de outras cidades peças inteira como o pórtico gigantesco (Karamon) da entrada principal.

Arquivo: NinomaruPalace.jpg

O conjunto arquitetônico fica numa área central que ocupa 275 mil metros quadrados com 8 mil metros construídos e amplos jardins, fontes de pedras, pomares de cereja e ameixas. O mais belo destes jardins/lago é o Ninomaru, que foi delicadamente desenhado e executado por paisagistas, inclusive com o apoio de um mestre de Chá.

Arquivo: NijojoGarden3317.jpg

O pé direito é altíssimo, as obras de artes de pinturas no teto dão um tom de sofisticação aos castelos, as amplas salas de cerimoniais, como a de reuniões do xoguns com seus vassalos, a construção da hierarquia dele fica num tatame só que mais elevado, tudo detalhadamente planejado.

Arquivo: Nijojo-roka-tenjo2.jpg

O castelo foi amplamente usado como sede administrativa e política da realeza até 1939, inclusive em 1928 o imperador Hiroito foi coroado neste castelo demonstrando a sua importância para o povo japonês, o passado de glória do xogunato não foi enterrado pelo capitalismo florescente naquela época.

Arquivo: Taisehokan.jpg

Ryoan-Ji

 

O templo do Dragão em paz (Ryoan-Ji) é bem pequeno, mas de grande significado, pois é o mais famoso templo Zen do mundo. Era residência da Família Fujiwara, mas foi desapropriado após a Guerra Onin, o clã Hosokawa tomou a propriedade e mandou destruir a construção original, erguendo em seu lugar o famoso templo, que serviu de cemitério para os imperadores desta dinastia.

As sete tumbas dos imperadores Hosokawa: - Uda , Kazan , Ichijō , Go-Suzaku , Go-Reizei , Go-Sanjo e Horikawa  foram lá enterrados como símbolo da humildade após a morte. A Tsukubai (agachar) local da bacia de água que cai e o visitante se curva para lavar as mãos e boca para se purificar, o modo como foi construído obriga o gesto de semi-ajoelhar. No topo está escrito: "o que se tem é tudo que se precisa" É o ensinamento básico e anti-materialista do budismo.

Arquivo: Tsukubai2.JPG

Mas, o que mais impressiona mesmo é o jardim das pedras, uma pequena arquibancada de três batentes ao longo do jardim é o local que cada um deve se sentar e tentar ver todas as pedras de uma única vez. Só aquele que se concentra e atinge a iluminação consegue vê-las todas juntas. Esta contemplação, mais que um desafio, é a busca da reflexão, da necessidade de se abstrair do mundo material e se conectar com o etéreo. Olhamos e vemos rapidamente ao mesmo instante 14 pedras, mas a 15ª sempre nos escapa. Esta é a essência do lugar, a humildade de saber reconhecer nossos limites.


Este jardim de pedra seca é amplamente estudado, gerando vários estudos sobre eixo de simetria e eixo medial. Ao se atingir grande grau de concentração as 15 pedras formam uma imagem nova, uma projeção cerebral totalmente diferente do imaginado.

20070726_Ryoan-ji_veranda.jpg

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Crônicas do Japão XVI: Kyoto III - Kinkakuji (Templo de Ouro)



Uma das maiores atrações turísticas do Japão é o Kinkakuji, o templo de Ouro, é mais visitado e mais belo dos templos que visitei, é a construção mais imponente de Kyoto, daquelas que você precisa ver uma vez na vida, para nunca mais esquecer.

Construído pelo grande Xogum Ashikaga Yomishimitsu, durante a Era Muromachi, ele é o esplendor de uma época, conhecida como a de Ouro, as antigas instalações datavam do ano 1200, mas com a compra da propriedade por Yomishimtsu tomou a forma final que conhecemos hoje.

A glória daquela época foi talhada em grandes e imponentes construções a finalização do Kinkakuhi foi por volta de 1397, àquela construção que seria a moradia do grande Xogum, se transformou no mais importante templo Zen-budista do Japão. Todo folheado a ouro ele virou a casa de Budda.

A construção foi várias vezes incendiada, em particular nas Guerras Onin, foi definitivamente reconstruído em 1950, porém em 1955 sofreu novo ataque de um monge que tentou queimar o templo, a imagem de Yomishimitsu foi parcialmente destruída neste ataque, sendo restaurada depois.

Quem o visita jamais esquecerá as alamedas que lhe dão acesso, fortemente protegida pela polícia japonesa, coisa raríssima em qualquer parte do país, é a primeira coisa que se nota, você vai se aproximando e o coração dispara, o sol bate no templo e resplandece, encandeia, é um espetáculo sensacional, ninguém pode atravessar o lago que dar acesso ao templo.

File:Kinkaku3402CBcropped.jpg

A contemplação é próxima, ver aquela “nave dourada” como se andasse sobre a água, o conjunto de pedras que caracteriza o estilo Zen dá equilíbrio e força ao cenário. A imaginação voa ao passado tentando entender como homens rústicos construíram algo tão fenomenal, beleza, imponência, arte e vida.



Conhecer aquele templo e encontrar alguma palavra que possa dizer o que senti é muito difícil, tudo que diga não darão a noção exata do que o templo, sua força, a incrível atração que exerce sobre nós, em todos os ângulos que se possa admirá-lo ele se revela mais bonito, visto da chegada ou ir a um monte  logo atrás para observá-lo de um ponto mais alto, mais aumenta a paixão que ele desperta.

Crônicas do Japão XV: Kioto II - Ginkakuji (Templo de Prata)

Ficheiro:Ginkakuji.jpg

Ginkakuji – O templo de Prata

O templo de Prata é a expressão de um momento da vida e cultura de Kyoto depois do século de Ouro, que teve no Kinkakuji( templo de Ouro) seu auge, a nova Era,porém de austeridade e de grande incerteza.

Yoshimasa Ashikaga, era neto do grande Xogum Yomishimitsu, resolveu construir o templo de prata para que fosse símbolo dos novos tempos em Kyoto, a simplicidade e delicadeza do templo, contrastando com o tempo anterior de riqueza e glória.

As guerras e a disputa do poder punham em risco a sobrevivência da sociedade japonesa, os valores de hierarquia e obediência estavam sendo quebrados, tempos difíceis de conflitos incessante que puseram fim a uma era, quase duzentos anos de decadência se seguiram.



Yoshimasa era um amante das artes e escreveu poesias tipo Tanka e um destes permanece na entrada do templo: "Minha casa ao pé do monte Tsukimachi, aguardando a noite de luar." A cerimônia do chá (sadō) também foi uma arte cultuada naquela casa.



O Ginkakuji é um templo austero, sóbrio, seria uma quase residência de um poderoso que ao morrer deixou-o para virar um templo budista, passando à posterioridade a imagem do seu criador, seus belos jardins que combinam pedrinhas com arbustos faz nos sentirmos andando em bonsais.

A sensação de grande harmonia e equilíbrio entre a natureza que circunda o templo e as intervenções humanas é de tirar o fôlego. A Beleza da construção com a lâmina de prata, uma tentativa de brilhar a lua na escuridão que sobreveio à sociedade naquela época. O templo parece flutuar sobre o pequeno lago que o circunda.



A beleza do Koyo( a floração avermelhada do outono) e as pedras do jardim, ambiente apropriado para meditação do Zen-budismo.

Crônicas do Japão XIV: Kyoto I-Kiyomizudera(Templo da Água)

Arquivo: Kyoto01.jpg

Rumo a Kyoto



Vindo de Hiroshima/Miyajima num moderno Shinkansen(trem bala) e entrando à noite não dar para reparar direito o que nos espera da cidade que se revela à luz do sol, bem como ao anoitecer. Uma grande cidade com excelente transporte coletivo articulado por trens da JR, assim como Tókio que apesar de antigos vagões, são limpos e pontuais.

A viagem a Kyoto é antes de tudo uma volta ao passado e um ato de fé na vida, a cidade reúne o passado feudal preservado nos templos e castelos combinada com uma arquitetura de presente e de prédios futuristas. Chegar à cidade é ter certeza que você entrou quase num cenário de filme.

Kyoto foi capital do Japão por mais de 1000 anos, sofreu destruições nas várias guerras dos samurais, foi palco da glória dos Xogunatos e da longa dinastia de Heian. Kyoto significa capital, vem do nome Kyō ( 京 ), sendo ToKYO ( capital do Oriente). A longa história da cidade e sua preservação encanta que a visita.

Saímos da estação central depois de um Noriakai (baldeação) do Shinkansen para o trem urbano, chegamos com rapidez e segurança ao Hotel, dia muito cansativo cheio de emoções, só deu tempo de tomar um banho de ofurô (ninguém, é de ferro) e cair direto na cama, noutro dia seria muito longo.

Logo muito cedo saímos do hotel rumo ao templos e tempos de Kyoto, a cidade tem incríveis 1200 templos, que vão desde pequenos oratórios numa pequena porta aos majestosos Kiyomizudera (Templo da Água pura), templo de Prata (Ginkakuji), passando pelo Heian(Templo das Laternas - antigo palácio Imperial) ao mais espetacular de todos que via na vida: Kinkakuji – o templo de Ouro.

Kiyomizudera – a água da vida

Ficheiro:Kiyomizu-dera.jpg

O Kiyomizudera é uma ampla instalação, construída no final do VIII que continua lindamente preservado, sendo na verdade um conjunto de templos dos Hosso uma das seitas mais antigas do Budismo.

É um templo afastado do centro de Kyoto, numa encosta de um monte, se chega de carro até determinado ponto e depois se segue a pé. A caminhada é entre belos arbustos extremamente bem cuidados, os cortes são tão perfeitos que parecem terem sido feitos por uma máquina que o esquadrinhasse. A Entrada é ampla, com uma construção central ao pé da encosta do morro.

Ficheiro:Japan Kyoto KiyoMizuDera temple from afar DSC00653.jpg

Neste primeiro templo são feitas as orações e se amarra os pedidos em pequenas tabuletas, o aroma de fumaça se eleva a todos, um cheiro gostoso que purifica a alma e abre a mente para o lugar que se visita. Por uma alameda se saí rumo aos outros templos do conjunto, só ali são 12 templos diferentes e com significados próprios.

O principal templo é o da água pura, que devemos tomar para termos saúde e disposição, uma fonte de água caí e uma pequena caneca é usada para recolher a água e tomá-la.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Crônicas do Japão XIII: Miyajima, fé e poesia

Saindo de Hiroshima

 Torii of Miyajima - Miyajima, Hiroshima

O coração de quem vai a Hiroshima nunca mais será o mesmo, a reflexão que as imagens nos impõem nos transforma em primeiro lugar em pacifista em segundo uma sensação de vergonha pelo que a humanidade fez. Construir uma arma tão terrível, capaz de dizimar milhares de pessoas em poucos instantes, e matar terrivelmente por longos anos.

Pelo menos três gerações depois os efeitos da radioatividade ainda são sentido nas pessoas, várias doenças são comuns na região em particular leucemia, má formação, câncer, apenas para citar as mais graves e aparentes. Os tormentos dos flagelos da bomba marcam a alma do povo da cidade e de quem a visita.

Saímos de Hiroshima e fomos a Miyajima, uma pequena ilha em frente da cidade, atravessamos num pequeno catamarã, senti-me na barca de caronte, olhava para trás e via aquela bela cidade reconstruída, mas nunca mais será a mesma, do outro lado o imenso Tori nos lembra passado e fé, mais ainda esperança de uma vida melhor, seria uma espécie de ilha dos bem-aventurados.


A Ilha dos Bem-aventurados

Miyajima é uma ilha da fé, o Tori é sua entrada, ao atravessar o mar a maré baixa do inicio da tarde vemos a terra no pedestal dele, e no fim do dia a exuberante imagem do mar cobrindo-o seus sustentáculos com água a pouco mais de um metro, parece que o Tori flutua ou anda sobre as águas é uma imagem linda de natureza e obra humana.


Pelas ruas de terra da ilha vimos muitos cervos andando livremente entre as pessoas misturados na paisagem dão boas vindas aos que chegam esperando por comida que são vendidas aos turistas para distribuir aos cervos, mansos e dóceis comem felizes em nossas mãos, alisamos seus pêlos, belos animais.


Ao lado do Píer de desembarque há um templo com amplo alpendre, lembrou-me as casas antigas de fazenda no nordeste, a diferença é que é pintado de vermelho. Em frente do templo um longo tablado como se fosse um palco de teatro o que mais tarde confirmei que era algo assim. Uma rica encenação com tambores, roupas antigas, espadas compunham o cenário para exibição de uma espécie de ritual, atentamente acompanhado por nós.


A ilha tinha uma encosta que subimos e pelo caminho havia vários pequenos templos em homenagem as imagens budista, numa delas um Buda dourado reluzente deitado como se vigiasse os que por ele passam. Pouco à frente um poço em que se bebia uma água pura, mais no alto era feitas libações, incenso e era aspergida água perfumada em quem passava. Depois a fumaça de uma espécie de Turíbio de um aroma gostoso.

 

 

Atingimos o ponto mais alto da pequena ilha e a visão era deslumbrante, uma espécie de mirante permitia ver a ilha e seus templos, a pracinha de chegada cheia de cervos, o templo principal e seu tablado, mas o principal era o Tori, agora já com água cobrindo-lhe os pés. Ficamos por muito tempo ali admirando, olhando mais longe vendo Hiroshima o contraste dos dois locais era impressionante. A sensação provocada na dupla visão aliviou o sofrer do outro momento.


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Crônicas do Japão XII: Hiroshima nossa dor


Hiroshima



Estar em Hiroshima é uma experiência das mais estranhas que se possa sentir, o Shinkansen foi se aproximando da cidade e uma sensação de dor, amargura foi tomando conta de mim, era por volta da meia noite, depois de um dia muito especial em Ise, a terra mais sagrada dos xintoístas, e um fim de tarde maravilhoso andando sem rumo por Nagoya.

Saímos de Nagoya rumo a Hiroshima feliz por andar de Shinkansen mesmo sendo noite apreciamos as paradas e nos divertimos pela viagem, porém nosso destino era lá, acabara de ler um livro de Kenzaburo Oe e a “guerra” ainda rondava minha cabeça.

Ao chegar à estação central rapidamente peguei um taxi e fui ao hotel, um mesmo Sun Garden que morava em Kashiwa, já quebrou um pouco do temor pela cidade nova, tentei dormir logo, mas o incomodo não deixava, não era cansaço, era a aura da cidade, a carga emocional.

Monumento pela Paz Mundial


(museu pela paz mundial)

Consegui a muito custo dormir, e acordei muito cedo, encontrei meus amigos passamos numa lanchonete comemos alguma coisa e partimos para o Domo, o local que os americanos miraram ao jogar a bomba atômica, que os japoneses fizeram questão de preservar seus escombros. O Domo era a cúpula de uma fábrica de armas, pela maquete que vi depois, era o único prédio de concreto armado da cidade. Em 1996, 41 anos depois da explosão o nível radioativo perto do Domo ainda é acima do normal, há equipamento que mostram os valores instalados em volta.


(escombros do Domo - epicentro da Bomba Atômica)

Logo ao lado dele há o imenso museu, a praça, a catedral ecumênica e a pira da paz mundial sempre acesa pela paz, para que nunca mais se jogue novas bombas. Entramos no museu, é um prédio longo de três ou quatro andares, em que tudo relacionado ao ataque americano está preservado lá: fotos, objetos, o artefato que carregou a ogiva, uma réplica do Domo, representação dos corpos dilacerados.

Ao entrar há vários monitores de TV em que você escolhe entre 128 idiomas para que seja detalhadamente contado o dia do ataque, e suas conseqüências malditas, por exemplo, ao tocar o solo e liberar a explosão 20 mil pessoas morreram imediatamente em pouco mais de 30 minutos, o calor no epicentro da bomba chegou a oito mil graus, num raio de 20 km ceifou a vida impiedosamente 200 mil pessoas.

As lágrimas e a sensação de dor aumentam gradativamente, um silêncio sepulcral toma conta do museu, nem entre nós encontramos palavras para dizer o que sentíamos apenas nos olhávamos e todos choravam, não há o que falar, é refletir toda maldade humana daquele gesto cruel, quem entra neste museu não saí igual, a dor é imensa, o repúdio à bomba e aos americanos toma conta.

A sabedoria japonesa transformou aquele local terrível em poesia, um lindo e imenso labirinto de jardins foi construído em frente ao museu tendo à esquerda o monumento da esperança cheio de feixes de Origamis em homenagem a garota que viveu 1000 dias mesmo gravemente doente, pois o médico lhe dizia a cada Origami você ganhará um dia de vida(pausa para lágrimas). De todo lugar do mundo as pessoas mandam os feixes de origamis que são respeitosamente depositados em frente ao monumento.

Hiroshima, Japan: Childrens Peace Monument

Pouco mais à frente a Pira que nunca apaga, ela deve ser sempre acesa para que nos lembremos do mal da bomba, das pessoas mortas, do flagelo humano, que reflitamos sobre nossas escolhas e vida, as pessoas chegam perto da pira sentem o calor, se iluminam e saem silenciosas.


Deste conjunto arquitetônico também faz parte a catedral pela paz mundial, ela não pertence à religião alguma, mas qualquer que processe alguma fé, ou mesmo quem não tenha religião vai prestar sua solidariedade aos mortos da imensa tragédia, os soluços, os cantos, as orações em várias línguas são ouvidas, o pensamento é único.

Toda e qualquer coisa que escreva dirão pouco do que foi a visita a Hiroshima, muito difícil expressar, parei várias vezes aqui lembrando as coisas e chorando, um nó na garganta, uma coisa em particular marcou muito, nenhum de nós conseguiu bater fotos de lá, nada se capta numa foto nossa ou do lugar, talvez inconsciente fosse nossa maneira de respeitar o lugar e as pessoas, entramos em Hiroshima cheio de si, saímos pequenos de nós, envergonhados pelo que fizemos a nós mesmos.

Rosa de Hiroshima

(Vinicius/Gerson Conrad)

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada