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terça-feira, 10 de maio de 2011

Crônicas do Japão XVII: Kyoto IV – O caminho da Iluminação


A cidade de Kyoto combina magnificamente o passado glorioso de capital imperial por mais de 1000 anos com a preservação de seus templos de castelos com o desenvolvimento moderno, com belas avenidas, prédios novos e imponentes, dão ar a esta cidade de 1,5 milhões de habitantes.

Os posts anteriores foram dedicados aos templos históricos e marcantes, mas como falei anteriormente esta cidade tem 1200 templos suas avenidas e ruas sempre podem aparecer uma surpresa de passado medieval ao lado de prédios futuristas, convivendo lado a lado e a cultura sendo respeitada.


Esta coisa de respeitar o passado é tão impressionante que uma imensa avenida central em Kyoto de repente acaba e vira uma viela minúscula que lado a lado antigas casas medievais foram transformadas em mercado e restaurantes, uma coisa linda demais.


Vale a pena ver ainda três belíssimas edificações do passado, por sua grandiosidade e significado particular.

Heian

Heian Jingu Shrine

O castelo da dinastia Heian, fundadora da cidade, hoje conhecido como palácio das lanternas que até pouco tempo era usado como palácio de veraneio pela família imperial, tem um jardim majestoso que dizem que a própria imperatriz cuidava.

Por três séculos ele foi a sede política e administrativa do Japão, o conjunto de prédio que faziam parte do complexo era meticulosamente distribuído em salas privadas e salões de recepção que fazia uso o imperador no trato da administração pública. Num destes prédios era dedicado a residência e aposentos imperiais.

Heian Jingu Shrine Chinese Bridge

Após vários incêndios e mudanças de sede administrativa, uma parte apenas do antigo palácio foi reconstruído, dando uma visão da construção original, seu belo jardim, a combinação perfeita de flores, pedras, o lago. Causando contraste com as paredes brancas e as colunas vermelhas.

Heian Jingu Lily Pond

Nijo-Jo

Arquivo: Castle.jpg Nijo

O famoso castelo construído pelo Xogum Tokugawa no início do século XVII é uma obra de grande porte que impressiona e a engenharia, parte do complexo, são dois palácios o de Ninomaru e Honmaru, foi deslocada de outras cidades peças inteira como o pórtico gigantesco (Karamon) da entrada principal.

Arquivo: NinomaruPalace.jpg

O conjunto arquitetônico fica numa área central que ocupa 275 mil metros quadrados com 8 mil metros construídos e amplos jardins, fontes de pedras, pomares de cereja e ameixas. O mais belo destes jardins/lago é o Ninomaru, que foi delicadamente desenhado e executado por paisagistas, inclusive com o apoio de um mestre de Chá.

Arquivo: NijojoGarden3317.jpg

O pé direito é altíssimo, as obras de artes de pinturas no teto dão um tom de sofisticação aos castelos, as amplas salas de cerimoniais, como a de reuniões do xoguns com seus vassalos, a construção da hierarquia dele fica num tatame só que mais elevado, tudo detalhadamente planejado.

Arquivo: Nijojo-roka-tenjo2.jpg

O castelo foi amplamente usado como sede administrativa e política da realeza até 1939, inclusive em 1928 o imperador Hiroito foi coroado neste castelo demonstrando a sua importância para o povo japonês, o passado de glória do xogunato não foi enterrado pelo capitalismo florescente naquela época.

Arquivo: Taisehokan.jpg

Ryoan-Ji

 

O templo do Dragão em paz (Ryoan-Ji) é bem pequeno, mas de grande significado, pois é o mais famoso templo Zen do mundo. Era residência da Família Fujiwara, mas foi desapropriado após a Guerra Onin, o clã Hosokawa tomou a propriedade e mandou destruir a construção original, erguendo em seu lugar o famoso templo, que serviu de cemitério para os imperadores desta dinastia.

As sete tumbas dos imperadores Hosokawa: - Uda , Kazan , Ichijō , Go-Suzaku , Go-Reizei , Go-Sanjo e Horikawa  foram lá enterrados como símbolo da humildade após a morte. A Tsukubai (agachar) local da bacia de água que cai e o visitante se curva para lavar as mãos e boca para se purificar, o modo como foi construído obriga o gesto de semi-ajoelhar. No topo está escrito: "o que se tem é tudo que se precisa" É o ensinamento básico e anti-materialista do budismo.

Arquivo: Tsukubai2.JPG

Mas, o que mais impressiona mesmo é o jardim das pedras, uma pequena arquibancada de três batentes ao longo do jardim é o local que cada um deve se sentar e tentar ver todas as pedras de uma única vez. Só aquele que se concentra e atinge a iluminação consegue vê-las todas juntas. Esta contemplação, mais que um desafio, é a busca da reflexão, da necessidade de se abstrair do mundo material e se conectar com o etéreo. Olhamos e vemos rapidamente ao mesmo instante 14 pedras, mas a 15ª sempre nos escapa. Esta é a essência do lugar, a humildade de saber reconhecer nossos limites.


Este jardim de pedra seca é amplamente estudado, gerando vários estudos sobre eixo de simetria e eixo medial. Ao se atingir grande grau de concentração as 15 pedras formam uma imagem nova, uma projeção cerebral totalmente diferente do imaginado.

20070726_Ryoan-ji_veranda.jpg

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Crônicas do Japão XVI: Kyoto III - Kinkakuji (Templo de Ouro)



Uma das maiores atrações turísticas do Japão é o Kinkakuji, o templo de Ouro, é mais visitado e mais belo dos templos que visitei, é a construção mais imponente de Kyoto, daquelas que você precisa ver uma vez na vida, para nunca mais esquecer.

Construído pelo grande Xogum Ashikaga Yomishimitsu, durante a Era Muromachi, ele é o esplendor de uma época, conhecida como a de Ouro, as antigas instalações datavam do ano 1200, mas com a compra da propriedade por Yomishimtsu tomou a forma final que conhecemos hoje.

A glória daquela época foi talhada em grandes e imponentes construções a finalização do Kinkakuhi foi por volta de 1397, àquela construção que seria a moradia do grande Xogum, se transformou no mais importante templo Zen-budista do Japão. Todo folheado a ouro ele virou a casa de Budda.

A construção foi várias vezes incendiada, em particular nas Guerras Onin, foi definitivamente reconstruído em 1950, porém em 1955 sofreu novo ataque de um monge que tentou queimar o templo, a imagem de Yomishimitsu foi parcialmente destruída neste ataque, sendo restaurada depois.

Quem o visita jamais esquecerá as alamedas que lhe dão acesso, fortemente protegida pela polícia japonesa, coisa raríssima em qualquer parte do país, é a primeira coisa que se nota, você vai se aproximando e o coração dispara, o sol bate no templo e resplandece, encandeia, é um espetáculo sensacional, ninguém pode atravessar o lago que dar acesso ao templo.

File:Kinkaku3402CBcropped.jpg

A contemplação é próxima, ver aquela “nave dourada” como se andasse sobre a água, o conjunto de pedras que caracteriza o estilo Zen dá equilíbrio e força ao cenário. A imaginação voa ao passado tentando entender como homens rústicos construíram algo tão fenomenal, beleza, imponência, arte e vida.



Conhecer aquele templo e encontrar alguma palavra que possa dizer o que senti é muito difícil, tudo que diga não darão a noção exata do que o templo, sua força, a incrível atração que exerce sobre nós, em todos os ângulos que se possa admirá-lo ele se revela mais bonito, visto da chegada ou ir a um monte  logo atrás para observá-lo de um ponto mais alto, mais aumenta a paixão que ele desperta.

Crônicas do Japão XV: Kioto II - Ginkakuji (Templo de Prata)

Ficheiro:Ginkakuji.jpg

Ginkakuji – O templo de Prata

O templo de Prata é a expressão de um momento da vida e cultura de Kyoto depois do século de Ouro, que teve no Kinkakuji( templo de Ouro) seu auge, a nova Era,porém de austeridade e de grande incerteza.

Yoshimasa Ashikaga, era neto do grande Xogum Yomishimitsu, resolveu construir o templo de prata para que fosse símbolo dos novos tempos em Kyoto, a simplicidade e delicadeza do templo, contrastando com o tempo anterior de riqueza e glória.

As guerras e a disputa do poder punham em risco a sobrevivência da sociedade japonesa, os valores de hierarquia e obediência estavam sendo quebrados, tempos difíceis de conflitos incessante que puseram fim a uma era, quase duzentos anos de decadência se seguiram.



Yoshimasa era um amante das artes e escreveu poesias tipo Tanka e um destes permanece na entrada do templo: "Minha casa ao pé do monte Tsukimachi, aguardando a noite de luar." A cerimônia do chá (sadō) também foi uma arte cultuada naquela casa.



O Ginkakuji é um templo austero, sóbrio, seria uma quase residência de um poderoso que ao morrer deixou-o para virar um templo budista, passando à posterioridade a imagem do seu criador, seus belos jardins que combinam pedrinhas com arbustos faz nos sentirmos andando em bonsais.

A sensação de grande harmonia e equilíbrio entre a natureza que circunda o templo e as intervenções humanas é de tirar o fôlego. A Beleza da construção com a lâmina de prata, uma tentativa de brilhar a lua na escuridão que sobreveio à sociedade naquela época. O templo parece flutuar sobre o pequeno lago que o circunda.



A beleza do Koyo( a floração avermelhada do outono) e as pedras do jardim, ambiente apropriado para meditação do Zen-budismo.

Crônicas do Japão XIV: Kyoto I-Kiyomizudera(Templo da Água)

Arquivo: Kyoto01.jpg

Rumo a Kyoto



Vindo de Hiroshima/Miyajima num moderno Shinkansen(trem bala) e entrando à noite não dar para reparar direito o que nos espera da cidade que se revela à luz do sol, bem como ao anoitecer. Uma grande cidade com excelente transporte coletivo articulado por trens da JR, assim como Tókio que apesar de antigos vagões, são limpos e pontuais.

A viagem a Kyoto é antes de tudo uma volta ao passado e um ato de fé na vida, a cidade reúne o passado feudal preservado nos templos e castelos combinada com uma arquitetura de presente e de prédios futuristas. Chegar à cidade é ter certeza que você entrou quase num cenário de filme.

Kyoto foi capital do Japão por mais de 1000 anos, sofreu destruições nas várias guerras dos samurais, foi palco da glória dos Xogunatos e da longa dinastia de Heian. Kyoto significa capital, vem do nome Kyō ( 京 ), sendo ToKYO ( capital do Oriente). A longa história da cidade e sua preservação encanta que a visita.

Saímos da estação central depois de um Noriakai (baldeação) do Shinkansen para o trem urbano, chegamos com rapidez e segurança ao Hotel, dia muito cansativo cheio de emoções, só deu tempo de tomar um banho de ofurô (ninguém, é de ferro) e cair direto na cama, noutro dia seria muito longo.

Logo muito cedo saímos do hotel rumo ao templos e tempos de Kyoto, a cidade tem incríveis 1200 templos, que vão desde pequenos oratórios numa pequena porta aos majestosos Kiyomizudera (Templo da Água pura), templo de Prata (Ginkakuji), passando pelo Heian(Templo das Laternas - antigo palácio Imperial) ao mais espetacular de todos que via na vida: Kinkakuji – o templo de Ouro.

Kiyomizudera – a água da vida

Ficheiro:Kiyomizu-dera.jpg

O Kiyomizudera é uma ampla instalação, construída no final do VIII que continua lindamente preservado, sendo na verdade um conjunto de templos dos Hosso uma das seitas mais antigas do Budismo.

É um templo afastado do centro de Kyoto, numa encosta de um monte, se chega de carro até determinado ponto e depois se segue a pé. A caminhada é entre belos arbustos extremamente bem cuidados, os cortes são tão perfeitos que parecem terem sido feitos por uma máquina que o esquadrinhasse. A Entrada é ampla, com uma construção central ao pé da encosta do morro.

Ficheiro:Japan Kyoto KiyoMizuDera temple from afar DSC00653.jpg

Neste primeiro templo são feitas as orações e se amarra os pedidos em pequenas tabuletas, o aroma de fumaça se eleva a todos, um cheiro gostoso que purifica a alma e abre a mente para o lugar que se visita. Por uma alameda se saí rumo aos outros templos do conjunto, só ali são 12 templos diferentes e com significados próprios.

O principal templo é o da água pura, que devemos tomar para termos saúde e disposição, uma fonte de água caí e uma pequena caneca é usada para recolher a água e tomá-la.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Crônicas do Japão XIII: Miyajima, fé e poesia

Saindo de Hiroshima

 Torii of Miyajima - Miyajima, Hiroshima

O coração de quem vai a Hiroshima nunca mais será o mesmo, a reflexão que as imagens nos impõem nos transforma em primeiro lugar em pacifista em segundo uma sensação de vergonha pelo que a humanidade fez. Construir uma arma tão terrível, capaz de dizimar milhares de pessoas em poucos instantes, e matar terrivelmente por longos anos.

Pelo menos três gerações depois os efeitos da radioatividade ainda são sentido nas pessoas, várias doenças são comuns na região em particular leucemia, má formação, câncer, apenas para citar as mais graves e aparentes. Os tormentos dos flagelos da bomba marcam a alma do povo da cidade e de quem a visita.

Saímos de Hiroshima e fomos a Miyajima, uma pequena ilha em frente da cidade, atravessamos num pequeno catamarã, senti-me na barca de caronte, olhava para trás e via aquela bela cidade reconstruída, mas nunca mais será a mesma, do outro lado o imenso Tori nos lembra passado e fé, mais ainda esperança de uma vida melhor, seria uma espécie de ilha dos bem-aventurados.


A Ilha dos Bem-aventurados

Miyajima é uma ilha da fé, o Tori é sua entrada, ao atravessar o mar a maré baixa do inicio da tarde vemos a terra no pedestal dele, e no fim do dia a exuberante imagem do mar cobrindo-o seus sustentáculos com água a pouco mais de um metro, parece que o Tori flutua ou anda sobre as águas é uma imagem linda de natureza e obra humana.


Pelas ruas de terra da ilha vimos muitos cervos andando livremente entre as pessoas misturados na paisagem dão boas vindas aos que chegam esperando por comida que são vendidas aos turistas para distribuir aos cervos, mansos e dóceis comem felizes em nossas mãos, alisamos seus pêlos, belos animais.


Ao lado do Píer de desembarque há um templo com amplo alpendre, lembrou-me as casas antigas de fazenda no nordeste, a diferença é que é pintado de vermelho. Em frente do templo um longo tablado como se fosse um palco de teatro o que mais tarde confirmei que era algo assim. Uma rica encenação com tambores, roupas antigas, espadas compunham o cenário para exibição de uma espécie de ritual, atentamente acompanhado por nós.


A ilha tinha uma encosta que subimos e pelo caminho havia vários pequenos templos em homenagem as imagens budista, numa delas um Buda dourado reluzente deitado como se vigiasse os que por ele passam. Pouco à frente um poço em que se bebia uma água pura, mais no alto era feitas libações, incenso e era aspergida água perfumada em quem passava. Depois a fumaça de uma espécie de Turíbio de um aroma gostoso.

 

 

Atingimos o ponto mais alto da pequena ilha e a visão era deslumbrante, uma espécie de mirante permitia ver a ilha e seus templos, a pracinha de chegada cheia de cervos, o templo principal e seu tablado, mas o principal era o Tori, agora já com água cobrindo-lhe os pés. Ficamos por muito tempo ali admirando, olhando mais longe vendo Hiroshima o contraste dos dois locais era impressionante. A sensação provocada na dupla visão aliviou o sofrer do outro momento.


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Crônicas do Japão XII: Hiroshima nossa dor


Hiroshima



Estar em Hiroshima é uma experiência das mais estranhas que se possa sentir, o Shinkansen foi se aproximando da cidade e uma sensação de dor, amargura foi tomando conta de mim, era por volta da meia noite, depois de um dia muito especial em Ise, a terra mais sagrada dos xintoístas, e um fim de tarde maravilhoso andando sem rumo por Nagoya.

Saímos de Nagoya rumo a Hiroshima feliz por andar de Shinkansen mesmo sendo noite apreciamos as paradas e nos divertimos pela viagem, porém nosso destino era lá, acabara de ler um livro de Kenzaburo Oe e a “guerra” ainda rondava minha cabeça.

Ao chegar à estação central rapidamente peguei um taxi e fui ao hotel, um mesmo Sun Garden que morava em Kashiwa, já quebrou um pouco do temor pela cidade nova, tentei dormir logo, mas o incomodo não deixava, não era cansaço, era a aura da cidade, a carga emocional.

Monumento pela Paz Mundial


(museu pela paz mundial)

Consegui a muito custo dormir, e acordei muito cedo, encontrei meus amigos passamos numa lanchonete comemos alguma coisa e partimos para o Domo, o local que os americanos miraram ao jogar a bomba atômica, que os japoneses fizeram questão de preservar seus escombros. O Domo era a cúpula de uma fábrica de armas, pela maquete que vi depois, era o único prédio de concreto armado da cidade. Em 1996, 41 anos depois da explosão o nível radioativo perto do Domo ainda é acima do normal, há equipamento que mostram os valores instalados em volta.


(escombros do Domo - epicentro da Bomba Atômica)

Logo ao lado dele há o imenso museu, a praça, a catedral ecumênica e a pira da paz mundial sempre acesa pela paz, para que nunca mais se jogue novas bombas. Entramos no museu, é um prédio longo de três ou quatro andares, em que tudo relacionado ao ataque americano está preservado lá: fotos, objetos, o artefato que carregou a ogiva, uma réplica do Domo, representação dos corpos dilacerados.

Ao entrar há vários monitores de TV em que você escolhe entre 128 idiomas para que seja detalhadamente contado o dia do ataque, e suas conseqüências malditas, por exemplo, ao tocar o solo e liberar a explosão 20 mil pessoas morreram imediatamente em pouco mais de 30 minutos, o calor no epicentro da bomba chegou a oito mil graus, num raio de 20 km ceifou a vida impiedosamente 200 mil pessoas.

As lágrimas e a sensação de dor aumentam gradativamente, um silêncio sepulcral toma conta do museu, nem entre nós encontramos palavras para dizer o que sentíamos apenas nos olhávamos e todos choravam, não há o que falar, é refletir toda maldade humana daquele gesto cruel, quem entra neste museu não saí igual, a dor é imensa, o repúdio à bomba e aos americanos toma conta.

A sabedoria japonesa transformou aquele local terrível em poesia, um lindo e imenso labirinto de jardins foi construído em frente ao museu tendo à esquerda o monumento da esperança cheio de feixes de Origamis em homenagem a garota que viveu 1000 dias mesmo gravemente doente, pois o médico lhe dizia a cada Origami você ganhará um dia de vida(pausa para lágrimas). De todo lugar do mundo as pessoas mandam os feixes de origamis que são respeitosamente depositados em frente ao monumento.

Hiroshima, Japan: Childrens Peace Monument

Pouco mais à frente a Pira que nunca apaga, ela deve ser sempre acesa para que nos lembremos do mal da bomba, das pessoas mortas, do flagelo humano, que reflitamos sobre nossas escolhas e vida, as pessoas chegam perto da pira sentem o calor, se iluminam e saem silenciosas.


Deste conjunto arquitetônico também faz parte a catedral pela paz mundial, ela não pertence à religião alguma, mas qualquer que processe alguma fé, ou mesmo quem não tenha religião vai prestar sua solidariedade aos mortos da imensa tragédia, os soluços, os cantos, as orações em várias línguas são ouvidas, o pensamento é único.

Toda e qualquer coisa que escreva dirão pouco do que foi a visita a Hiroshima, muito difícil expressar, parei várias vezes aqui lembrando as coisas e chorando, um nó na garganta, uma coisa em particular marcou muito, nenhum de nós conseguiu bater fotos de lá, nada se capta numa foto nossa ou do lugar, talvez inconsciente fosse nossa maneira de respeitar o lugar e as pessoas, entramos em Hiroshima cheio de si, saímos pequenos de nós, envergonhados pelo que fizemos a nós mesmos.

Rosa de Hiroshima

(Vinicius/Gerson Conrad)

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

terça-feira, 3 de maio de 2011

Crônicas do Japão XI: Lojas de Música


A riqueza cultural do Japão realmente é impressionante, as várias manifestações de sociedade moderna e antiga, combinando passado, presente e futuro, tudo o que se pensar de variedade se encontra nas grandes cidades japonesas, museus, templos, ginásios, galerias de artes, pintura, escultura. Depois especificamente sobre literatura vou escrever em particular sobre Kenzaburo Oe, que me encanta profundamente e tanto me emociona.

Mas hoje quero falar do que era “forte” em 1996 e mais me distraia: freqüentar as imensas lojas de CDs, vocês não têm idéia do que era ficar até 9 horas ouvindo, descobrindo preciosidades nestes verdadeiros templos em homenagem a música mundial.

Logo de cara a loja da Virgin em Tókio, no chique e moderno bairro de Shibuya é um caso à parte, vários andares de músicas (na época CDs) e vídeos, catalogados por estilos, ritmos, países, numa infinidade de produções que impressiona mesmo os mais entendidos no assunto.


(Nana Kitade - J-Pop)

Apenas a seção dedicada ao Brasil encontrei cada preciosidade inacreditável, que nunca tinha visto aqui no Brasil, por exemplo, havia um CD em homenagem ao Tom Jobim feito após sua morte por grandes jazzistas americanos, com os maiores Hits dele, produzido no Japão(claro que comprei) até hoje nunca achei um igual no Brasil. Tem um outro do Vinicius também inédito aqui. O catalogo brasileiro era dominado por bossa nova, samba, samba rock.

O que me espantava também era a qualidade, não apenas das gravações, mas também os folhetos internos, a riqueza de detalhes, as letras originais e transcritas em Nihon-go, totalmente na contramão dos produzidos aqui e até mesmo nos USA. O álbum valorizava o artista e sua obra, explicativo, didático sem chato. O preço do CD produzido no Japão chegava a ser 20% mais caro do que os mesmo feitos nos USA, mas os encartes valiam pagar mais.

Cada andar da Virgin você podia gastar uma manhã inteira, o andar inteiro dedicado ao Jazz era estupendo, dividido por estilo, por época, por cantores, bandas, tudo fielmente cadastrado, as várias gravações, os álbuns de shows, os festivais com aquelas “canjas” imensas. Detalhe você podia ouvir sem precisar comprar, ou melhor, decidir na hora de comprar.

Lógico que dentro desta vasta loja havia lançamento de discos, de novos e consagrados artistas, as performances longamente acompanhada pelos fãs, um clube interno também funcionava, era um ambiente cheio de vida de cores, para uma nova classe média mais livre dos grilhões do trabalho, mas sempre na lógica do “mercado”.



Loja de CDs “Usados” de Kashiwa


Outra coisa sensacional era uma loja de CDs em Kashiwa, menor que a Virgin, óbvio, mas muito rica e mais confusa, mas tinha um detalhe que fazia toda diferença para mim: dois subsolos de CDs “usados”. Usado é modo de dizer, os caras compravam um CD no fim de semana ouviam e devolviam para loja, trocados por um novo.

Então estes CDs desciam para o subsolo, por 20 ou 30% do valor original, realmente era maravilha comprar, porque eles devolviam com capa, encarte, se qualquer o visse pensaria se tratar de um cd efetivamente novo. Comprei muitos, mas muitos CDs, quando voltei tive que comprar uma mochila grande só para CDs.

Era uma terapia descer ao subsolo, era muito louco tudo desorganizado, você tem que garimpar muito, mas faz parte de quem busca coisas raras e legais. Descobri uma infinidade de coisas diferentes de vários lugares do mundo: Rússia, Bulgária, Egito, Noruega, Holanda, Brasil, USA, Japão, Coréia etc. Coisas lindas demais que guardo até hoje, mesmo as rádios mais experimentais não tocam estas músicas, hoje com a internet facilita atualizar cantores como Origa(russa), Valensia(holandês), Secret Garden(Norueguês) pois jamais os ouviria aqui.

Crystal Winter




Outra coisa que vi que gostava demais eram das dezenas de CDs de shows, uma antecipação do que seria os futuros DVDs, vi muitas versões gravadas de grandes performances, só do Pink Floyd, formação clássica e sem Roger Water encontrei mais de 20 cds, alguns eu trouxe porque eram bons demais, leituras mais pesadas ou outras mais suaves de antigos clássicos.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Crônicas do Japão X: Mundo do Trabalho II - a armadilha

 

Boas vindas (?)

Como falei no outro artigo sobre o local de trabalho, ele reflete a hierarquia da sociedade e do trabalho, a posição que você ocupa na mesa coletiva, quanto mais próximo da frente cargo mais importante, assim como nas mesas da frente quanto mais próximo do centro, cargo maior.

Nosso grupo de trabalho era formado por cinco pessoas nos apresentamos aos gerentes, entregamos os presentes e nada aconteceu, havia um lugar reservado numa mesa grande, e ficamos mais ou menos isolados das outras pessoas, ficamos à frente, perto das mesas gerenciais. Uma secretária nos informou do horário de almoço e que eles pediam “Bentô” que deveríamos pedir o nosso até as 10 horas da manhã.

Ficamos nos olhando, sem saber exatamente o que estava acontecendo, nosso Sensei (professor) estava em viagem viria apenas na semana seguinte. Até aí tudo bem, uma semana sem aulas, teríamos tempo de estudar materiais de trabalho, era um modelo novo de central telefônica que estava em desenvolvimento, assim acabaria sendo bom este tempo para um primeiro contato com o equipamento, manuais.

Mas havia algo estranho no ar, ficamos isolados, ninguém conversava conosco, exceto o protocolar Oyahô Gozaimassu (Bom dia) e o Oyassuminasai (boa noite, bom descanso). Aquilo incomodou, mas começamos a levar na boa, e como bons brasileiros, fomos fazendo brincadeiras, apelidos, piadas, sem nos expor muito, mas sempre rolava um clima mais “festivo” entre nós.



A armadilha

 



No quarto dia de trabalho já estávamos mais que à vontade, porém na hora do almoço ao descermos no elevador, estava bem cheio, um dos amigos, que era grande e estava bem gordo, recebeu uma piada em português até bom, “tem que fazer regime né, senão não cabe no elevador cheio”. Olhamos-nos meio espantados, um senhor japonês deu uma risadinha e saiu.

Quase não almoçamos, pois aquele senhor, ele se chama Tsuchiya, se sentava bem próximo de nós na mesa grande, ao voltar do almoço fui imediato ao lado dele e perguntei onde ele aprendeu português e tão bem. Ele disse que tinha morado no Brasil uns oito anos antes, tinha ficado um ano e dois meses aqui, e que estávamos cercados em todos os lados por pessoas que falavam português ou pelo menos entendia bem o que dizíamos mais ainda no final do dia eles se reuniam para mais ou menos passar a impressão de cada um sobre nós ao chefe.

Ou seja, caímos numa armadilha, e foi nosso primeiro choque de realidade de trabalho no Japão. Aquela semana “livre” no fundo era uma avaliação de comportamento, que dependendo, poderíamos até ser mandados de volta ao Brasil sem nem termos começado a trabalhar. No fundo, o amigo, ele se tornou grande amigo nosso até hoje, nos salvou de nossa própria tolice.

Nosso filme estava “queimado”, por sorte tinha feito um grande amigo, Yonekura, aqui no Brasil, que viera nos ajudar no começo da implantação do sistema celular, procurei desesperadamente o fone dele, e torci para que ele estivesse no Japão, pois ele trabalhava num departamento de trabalhos internacionais da empresa. Consegui falar com ele na sexta-feira e expliquei nossa situação. Ele deu risada e foi logo falando, vou marcar um jantar com todos estes chefes do escritório para apaziguar a situação.

Solidariedade de amigos

 

Semana seguinte ele fez um excelente meio de campo num jantar com boa parte dos caras do escritório, ele era chefe também e muito respeitado porque morou muito tempo fora do Japão. Reapresentou-nos para os chefes, falou que no Brasil tinha sido bem tratado por mim, aliviou a nossa parte.

Detalhe beberam muito, comeram muito também, entre nós tínhamos combinado pagar a conta, já estávamos preocupado com o valor, porque eles pediam de tudo, mas vai valer à pena. O certo é que no fim de tudo, umas 22 horas, lá tudo se encerra neste horário, Yonekura pediu a conta, lá vem à dolorosa, ele olhou o valor e deu ordem, para cada um deles pagasse uma parte de acordo com o cargo que ocupava, ainda saímos no lucro.

Figuras como Tsuchiya e Yonekura, que viveram fora do Japão, passam a ter uma visão mais aberta do mundo, respeitam os seus costumes, mas sabem da diversidade fora de lá. Sem dúvida, entendem melhor a vida, os costumes, sabe que determinadas idiossincrasias japonesas, como esta de querer “conhecer” quem os visita não é natural no mundo tão global.

Yonekura se definia como “carioca” e flamenguista, amava o Brasil, as pessoas, gostava de sair e de conhecer os lugares. Sempre que podia nos levava a restaurantes e bares, lugares escondidos que funcionavam até depois das 22 horas. Certa vez nos levou a um local, que parecia uma residência, na verdade era um pequeno restaurante caseiro, que tinha apenas três mesas. A especialidade era Yonesabe ( algo como cozido de panela), uma panela grande numa grelha cozinhava de tudo, pedaços de frango, peixe, frutos do mar e temperos variados, de vez em quando o dono do restaurante vinha com algo mais, e neste ínterim Yonekura ia mexendo a uma concha longa para dar o gosto. Um manjar dos deuses, feita ali na hora, ótima conversa, ele contando sobre o Brasil e a vida no Japão, talvez tenha aprendido mais ali de que em qualquer manual, ou artigo de jornal sobre os costumes e a essência daquele povo tão diferente e único.

Tsuchiya era um intelectual, engenheiro de telecomunicações estava migrando de telefonia para um novo ramo que estava surgindo: Internet. Ele trabalhava com Software aplicado, específico aos equipamento da Nec, pelo tempo de experiência já era uma espécie de consultor na empresa, como escolhera a carreira internacional, estava fora da hierarquia formal da empresa, apesar de ter cargo, na época era Shunin (chefe de seção), prestes a virar Catchô (Gerente médio), ele tinha apenas um subordinado e uma assistente. Foi um dos primeiros caras que conheci que estava saindo do mundo de telefonia e indo para o lado IP. Quando morou no Brasil, entre 1987 e 1988, além do português aprendeu a gostar de bossa nova, para minha surpresa conhecia quase tudo de Elis Regina, Tom Jobim. Falou-me, certa vez, que levara quase 50 LPs de música brasileira daqui. Era sempre um prazer conversar com ele, recentemente reencontrei-o no Facebook, vamos reativar a amizade.