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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Crônicas do Japão XIII: Miyajima, fé e poesia

Saindo de Hiroshima

 Torii of Miyajima - Miyajima, Hiroshima

O coração de quem vai a Hiroshima nunca mais será o mesmo, a reflexão que as imagens nos impõem nos transforma em primeiro lugar em pacifista em segundo uma sensação de vergonha pelo que a humanidade fez. Construir uma arma tão terrível, capaz de dizimar milhares de pessoas em poucos instantes, e matar terrivelmente por longos anos.

Pelo menos três gerações depois os efeitos da radioatividade ainda são sentido nas pessoas, várias doenças são comuns na região em particular leucemia, má formação, câncer, apenas para citar as mais graves e aparentes. Os tormentos dos flagelos da bomba marcam a alma do povo da cidade e de quem a visita.

Saímos de Hiroshima e fomos a Miyajima, uma pequena ilha em frente da cidade, atravessamos num pequeno catamarã, senti-me na barca de caronte, olhava para trás e via aquela bela cidade reconstruída, mas nunca mais será a mesma, do outro lado o imenso Tori nos lembra passado e fé, mais ainda esperança de uma vida melhor, seria uma espécie de ilha dos bem-aventurados.


A Ilha dos Bem-aventurados

Miyajima é uma ilha da fé, o Tori é sua entrada, ao atravessar o mar a maré baixa do inicio da tarde vemos a terra no pedestal dele, e no fim do dia a exuberante imagem do mar cobrindo-o seus sustentáculos com água a pouco mais de um metro, parece que o Tori flutua ou anda sobre as águas é uma imagem linda de natureza e obra humana.


Pelas ruas de terra da ilha vimos muitos cervos andando livremente entre as pessoas misturados na paisagem dão boas vindas aos que chegam esperando por comida que são vendidas aos turistas para distribuir aos cervos, mansos e dóceis comem felizes em nossas mãos, alisamos seus pêlos, belos animais.


Ao lado do Píer de desembarque há um templo com amplo alpendre, lembrou-me as casas antigas de fazenda no nordeste, a diferença é que é pintado de vermelho. Em frente do templo um longo tablado como se fosse um palco de teatro o que mais tarde confirmei que era algo assim. Uma rica encenação com tambores, roupas antigas, espadas compunham o cenário para exibição de uma espécie de ritual, atentamente acompanhado por nós.


A ilha tinha uma encosta que subimos e pelo caminho havia vários pequenos templos em homenagem as imagens budista, numa delas um Buda dourado reluzente deitado como se vigiasse os que por ele passam. Pouco à frente um poço em que se bebia uma água pura, mais no alto era feitas libações, incenso e era aspergida água perfumada em quem passava. Depois a fumaça de uma espécie de Turíbio de um aroma gostoso.

 

 

Atingimos o ponto mais alto da pequena ilha e a visão era deslumbrante, uma espécie de mirante permitia ver a ilha e seus templos, a pracinha de chegada cheia de cervos, o templo principal e seu tablado, mas o principal era o Tori, agora já com água cobrindo-lhe os pés. Ficamos por muito tempo ali admirando, olhando mais longe vendo Hiroshima o contraste dos dois locais era impressionante. A sensação provocada na dupla visão aliviou o sofrer do outro momento.


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Crônicas do Japão XII: Hiroshima nossa dor


Hiroshima



Estar em Hiroshima é uma experiência das mais estranhas que se possa sentir, o Shinkansen foi se aproximando da cidade e uma sensação de dor, amargura foi tomando conta de mim, era por volta da meia noite, depois de um dia muito especial em Ise, a terra mais sagrada dos xintoístas, e um fim de tarde maravilhoso andando sem rumo por Nagoya.

Saímos de Nagoya rumo a Hiroshima feliz por andar de Shinkansen mesmo sendo noite apreciamos as paradas e nos divertimos pela viagem, porém nosso destino era lá, acabara de ler um livro de Kenzaburo Oe e a “guerra” ainda rondava minha cabeça.

Ao chegar à estação central rapidamente peguei um taxi e fui ao hotel, um mesmo Sun Garden que morava em Kashiwa, já quebrou um pouco do temor pela cidade nova, tentei dormir logo, mas o incomodo não deixava, não era cansaço, era a aura da cidade, a carga emocional.

Monumento pela Paz Mundial


(museu pela paz mundial)

Consegui a muito custo dormir, e acordei muito cedo, encontrei meus amigos passamos numa lanchonete comemos alguma coisa e partimos para o Domo, o local que os americanos miraram ao jogar a bomba atômica, que os japoneses fizeram questão de preservar seus escombros. O Domo era a cúpula de uma fábrica de armas, pela maquete que vi depois, era o único prédio de concreto armado da cidade. Em 1996, 41 anos depois da explosão o nível radioativo perto do Domo ainda é acima do normal, há equipamento que mostram os valores instalados em volta.


(escombros do Domo - epicentro da Bomba Atômica)

Logo ao lado dele há o imenso museu, a praça, a catedral ecumênica e a pira da paz mundial sempre acesa pela paz, para que nunca mais se jogue novas bombas. Entramos no museu, é um prédio longo de três ou quatro andares, em que tudo relacionado ao ataque americano está preservado lá: fotos, objetos, o artefato que carregou a ogiva, uma réplica do Domo, representação dos corpos dilacerados.

Ao entrar há vários monitores de TV em que você escolhe entre 128 idiomas para que seja detalhadamente contado o dia do ataque, e suas conseqüências malditas, por exemplo, ao tocar o solo e liberar a explosão 20 mil pessoas morreram imediatamente em pouco mais de 30 minutos, o calor no epicentro da bomba chegou a oito mil graus, num raio de 20 km ceifou a vida impiedosamente 200 mil pessoas.

As lágrimas e a sensação de dor aumentam gradativamente, um silêncio sepulcral toma conta do museu, nem entre nós encontramos palavras para dizer o que sentíamos apenas nos olhávamos e todos choravam, não há o que falar, é refletir toda maldade humana daquele gesto cruel, quem entra neste museu não saí igual, a dor é imensa, o repúdio à bomba e aos americanos toma conta.

A sabedoria japonesa transformou aquele local terrível em poesia, um lindo e imenso labirinto de jardins foi construído em frente ao museu tendo à esquerda o monumento da esperança cheio de feixes de Origamis em homenagem a garota que viveu 1000 dias mesmo gravemente doente, pois o médico lhe dizia a cada Origami você ganhará um dia de vida(pausa para lágrimas). De todo lugar do mundo as pessoas mandam os feixes de origamis que são respeitosamente depositados em frente ao monumento.

Hiroshima, Japan: Childrens Peace Monument

Pouco mais à frente a Pira que nunca apaga, ela deve ser sempre acesa para que nos lembremos do mal da bomba, das pessoas mortas, do flagelo humano, que reflitamos sobre nossas escolhas e vida, as pessoas chegam perto da pira sentem o calor, se iluminam e saem silenciosas.


Deste conjunto arquitetônico também faz parte a catedral pela paz mundial, ela não pertence à religião alguma, mas qualquer que processe alguma fé, ou mesmo quem não tenha religião vai prestar sua solidariedade aos mortos da imensa tragédia, os soluços, os cantos, as orações em várias línguas são ouvidas, o pensamento é único.

Toda e qualquer coisa que escreva dirão pouco do que foi a visita a Hiroshima, muito difícil expressar, parei várias vezes aqui lembrando as coisas e chorando, um nó na garganta, uma coisa em particular marcou muito, nenhum de nós conseguiu bater fotos de lá, nada se capta numa foto nossa ou do lugar, talvez inconsciente fosse nossa maneira de respeitar o lugar e as pessoas, entramos em Hiroshima cheio de si, saímos pequenos de nós, envergonhados pelo que fizemos a nós mesmos.

Rosa de Hiroshima

(Vinicius/Gerson Conrad)

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada