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terça-feira, 17 de maio de 2011

Crônicas do Japão XVIII: Nara - templos e tempos


(Templo Kasuga)

Chegar a Nara vindo de Kyoto sua vizinha é retornar mais ainda ao lendário passado histórico do Japão, a pequena Nara foi por 84 anos (710 a 794 DC) a capital do Japão, tendo inclusive um período histórico com leva seu nome. A ida da capital para pequena Nara foi a preparação para surgimento dos grandes xogunatos futuros.

As principais religiões (Xintoísmo e Budismo) do Japão encontraram campo fértil para seus desenvolvimentos em Nara, mas particularmente o budismo teve ampla expansão e os monges tiveram grande influência na casa imperial. Por conta disto a capital mais uma vez mudou, sendo fixada em Kyoto, por mais de 1000 anos.

A cidade apesar de bem pequena respira história e seus 1300 anos de vida, gira em torno dos grandes templos, principalmente os três maiores e com grande significado:
  • Kofukuji – o maior Pagode japonês
  • Todaiji - o grande Buda
  • Kasuga – templo das lanternas vermelhas



Kofukuj - o maior Pagode japonês

Arquivo: Kofukuji0411.jpg

Foi por muito tempo o templo mais influente, pois foi construído pela importante família Fujiwara, com a doença do patriarca sua esposa mandou a construção do templo consagrada aos budistas. Erguido na cidade Yamashina em 669, foi transferido para Nara ao se tornar capital, em 710.

Era um conjunto arquitetônico com pelo menos seis grandes edificações, destacando-se o Pagode de cinco cúpulas que demonstrava a força dos que haviam erigido.  A força dos monges que cuidavam do templo e suas relações políticas com os Fujiwara perduraram por longo tempo, mesmo depois da transferência da capital para Kyoto.


Várias vezes o templo foi invadido e incendiado nas guerras civis pelo poder, dos seis palácios apenas dois chegaram até nós, sendo o principal o Pagode integralmente preservado, imponente e com a fama de ser o maior do Japão. Ele realmente impressiona quanto mais nos aproximamos mais ele se parece maior. Imagino o trabalho humano de deslocá-lo por quase 50 km de onde fora construído originalmente.

Todaiji - o grande Buda (Daibutsu)

Arquivo: den Daibutsu em Todaiji Nara01bs3200.jpg

O templo Todaiji foi construído por volta do ano de 750 DC depois de um grande período de instabilidade política e de doenças graves na capital do império, inclusive a morte de um príncipe sucessor.

O Imperador Shomu liderou o pedido de ajuda a população para que se envolvesse diretamente na construção do templo e do grande Buda, pois assim pelo exemplo de humildade de Buda este retribuiria com paz e livraria a população das doenças e desastres. Este esforço levou com mais de dois milhões e meio de japoneses de todas as regiões doassem bens para construção da imensa obra.

Tudo impressiona neste templo, a sua entrada protegida pelos dois guardiões gigantes Agyo e Bishamoten , seu pórtico imenso e a os 50 metros de altura do templo dão a grandiosidade desta belíssima construção. Ao lado da imagem há uma coluna de madeira com mais cinco metros de diâmetro ela foi vazada e aquele que a atravessa sua próxima geração será iluminada.


O pavilhão central tinha dois pagode com 100 metros de altura, a grande casa de Buda hoje tem 50 metros de altura a estatua original media 16 metros, uma coisa gigantesca, sofre com dois terremotos e incêndios mas hoje tem as seguintes medidas:
  • Altura: 14,98 m
  • Rosto: 5,33
  • Olhos: 1,02 m
  • Nariz: 0,5 m
  • Orelhas: 2,54

A estátua pesa 500 toneladas


Se no templo Zen sua mente tinha que entrar em perfeito estado de equilíbrio para que enxergasse todas as pedras do jardim para você chegar à iluminação, neste é seu corpo que terá que minguar para atravessar a coluna pelo mesmo objetivo. De um lado a aridez do jardim de pedra de outro a fenda na madeira são caminhos simbólicos para luz.

Arquivo: NaraTodaijiL0219.jpg

Sim a Luz que a clarabóia deixa penetrar o salão escuro reforça o brilho da imensa estatua de Buda, a construção dos olhos que fixa o visitante em qualquer ângulo do imenso salão, nos avisa que ele nos olha e acolhe. Aquela luz rebate na imagem e chega até nossos corações emociados. Nunca me senti tão iluminado como ali.


Pictures of Japan : 6530 nara todaiji daibutsu den - todaiji buddhist temple hall of the great buddha



Kasuga – templo das lanternas vermelhas

Inside, Minamimon (South Gate), Kasuga Taisha Shrine, Nara, Kansai, Japan

O templo das lanternas vermelhas foi construído em 768 DC pela família Fujiwara em homenagem as mulheres da casa imperial, sua longa alameda com as 3000 lanternas são de tirar o fôlego.


Este templo dedicado ao xintoísmo pela tradição tinha que ser demolido e reconstruído a cada 20 anos para que a pureza fosse conservada. As lanternas eram doadas por pessoas comuns em ato de fé e eram acesas todas as noites, mesmo de bronze em contraste as paredes vermelhas, quando acesas dão o tom avermelhado como se o sol continuasse a brilhar. Estas reconstruções foram constantes até 1863.

KASUGA SHRINE in spring[example]©Nara Prefecture/©JNTO

Hoje o templo é usado para cerimônias como “batismo” e principalmente casamentos, mas precisa ser muito rico para realizar uma cerimônia ali. Tem que mais rica ainda para que seja noturna. Por uma feliz coincidência quando estava lá assisti a um “batismo” e um casamento. Aqueles jardins de glicínias e o templo com as lanternas são absolutamente lindos.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Alceste: Amor ou Morte


Alceste

Eurípedes



“de sacrifícios sangrentos estão cheios os altares de todos os deuses. Mas não há remédio para os males!”



Tema: Tragédia. Amor.

Resumo: Admeto com ajuda do Deus Apolo escapa à morte, porém um ente querido deve substituí-lo, a única pessoa que aceita o sacrifício é sua esposa Alceste .

O Livro



Admeto grande rei da Tessália, por desejo dos deuses deve morrer, porém, neste ínterim ele hospeda o Deus Apolo, que como castigo tem que viver como empregado por um ano à serviço de um mortal. Como Admeto,  sem saber que se trata de um Deus, recebe muito bem seu empregado, Apolo, agradecido, sabendo do destino de Admeto engana as Parcas (emissários de Tânatos(Morte)).

Pouco depois o próprio Tânatos sabendo do ardil de Apolo aceita a troca de Admeto por um parente próximo, desde que aceito espontaneamente. Os pais de Admeto, mesmo idosos, recusam-se a morrer, Admeto não quer que os filhos pequenos cumpram a promessa, sua linda e jovem esposa, Alceste, por grande amor ao marido, oferece-se para cumprir o sacrifício.

(...)

Admeto Ergue-te, infeliz, não me abandones; aos deuses poderosos suplica misericórdia.

Alceste Eu vejo, eu vejo num lago um barco de dois remos; e o barqueiro dos mortos, com a mão na vara, Caronte, já me chama: “Por que esperas? Apressa-te; estás a demorar-me!”

Assim, impetuoso, ele incita-me.

Admeto Ai de mim! A viagem de que falas é cruel. Ó infeliz, quanto nós sofremos!

(Alceste, com um grito de terror, debate-se nos braços de Admeto.)

Alceste Levam-me, levam-me, levam-me – não vês? – para a morada dos mortos. Sob o azul escuro das sobrancelhas, olha-me Hades, alado. Deixa-me estar. Que fazes? Larga-me. Que caminho sigo eu, desgraçada!

Cumprindo-se o fúnebre destino Alceste morre deixando desolado esposo e filhos, uma grande tristeza abate-se sob a Tessália. Por este tempo de passagem rumo ao seu 8º trabalho, Heracles, passa em visita ao seu amigo Admeto, como sempre é muito bem recebido, apesar da tristeza, sem o revelar o motivo, oferece amplo banquete e pompa. Heracles fica mais uma vez encantando com a hospitalidade que Admeto lhe faz.

(...)

Admeto De modo nenhum, senhor! Que eu não tenha de sofre essa desgraça!

Héracles Na infelicidade, a chegada de um hóspede é importuna.

Admeto Quem morreu está morto. Entra, pois, em casa.

Héracles Não fica bem a ninguém banquetear-se junto de amigos que choram.

Admeto Levar-te-emos para os quartos de hóspedes, que são à parte



(...)

Coro Que fazes? No meio de tal desgraça, Admeto, tens coragem para acolher hóspedes? Porque essa loucura?

Admeto Acaso me louvarias mais se de casa e da cidade eu expulsasse o hóspede que chegou? Não, certamente, visto que a minha desgraça não se tornaria menor e faltaria aos deveres da hospitalidade. Aos meus males juntar-se-ia outro mal, se a minha casa ganhasse a fama de ser hostil aos hóspedes. Eu próprio tenho achado nele o melhor acolhimento, sempre que vou ao árido país de Argos.

Coro Por que motivo lhe escondeste então a presente desgraça, se vem como amigo, como tu próprio dizes?

Admeto Nunca ele quereria entrar em casa, se descobrisse algo dos meus sofrimentos. Haverá, bem sei, quem repute o meu ato insensato e pouco digno de louvor, mas o meu teto não sabe repelir nem desonrar hóspedes.

Durante a ceia Heracles percebe a tristeza generalizada dos criados e passa a inquirir sobre o fato, um deles conta-lhe que realmente todos sofrem pelo destino terrível da estrangeira morta que na verdade era Alceste a doce esposa de Admeto. Envergonhado com a situação, por não percebido o real mal que se abatera ao amigo, e ainda mais admirado pela acolhida num momento tão ruim, Heracles decide ir ao Hades trazer de volta a esposa do amigo.

(...)

Héracles (sozinho em cena.)

Ó coração que tanto tens suportado, e tu, meu braço, mostrai agora que filho deu Zeus a Tiríntia, nascida de Eléctrion, Alcmena. Preciso de salvar a mulher que morreu há pouco e de trazer de novo para esta casa Alceste, a fim de recompensar Admeto. Irei espiar a Morte, a senhora dos mortos de negro manto, e hei de encontrá-la, penso eu, junto do túmulo, a beber o sangue das vítimas. E se eu me precipitar do meu lugar de emboscada e a apanhar, envolvê-la-ei com os meus braços e não haverá ninguém capaz de libertar os seus flancos doloridos antes que me seja entregue a mulher. Mas se me falhar esta presa, se ela não se aproximar da oferenda sangrenta, descerei aos Infernos, às sombrias moradas de Core e do Senhor, e farei a minha súplica. Estou convencido de que trarei à luz do dia Alceste, para a entregar nas mãos do hospedeiro que me recebeu em sua casa, e não me repeliu, embora ferido por pesada desgraça, e que, num requinte de nobreza, me ocultou esses fatos, por respeito para comigo. Quem, entre os Tessálios, é mais hospitaleiro? Quem, entre os habitantes da Grécia? Nunca ele terá de dizer que usou com um homem perverso da sua generosidade

(...)

Usando de toda sua força Heracles toma Alceste da Morte, devolve ao amigo, não sem antes um grande dialogo entre eles, sem revelar de quem se tratava, Heracles oferece a jovem envolta de mantas ao amigo, dizendo-lhe que morta a mulher, melhor seria novo casamento, este se recusa terminantemente, sem a esposa nenhum mulher levará ao seu leito.


(...)

Héracles

Sim, o amor que se tem por quem morreu conduz às lágrimas.

Admeto

Fiquei destruído, mas do que poderia dizer.

Héracles

Perdeste uma nobre esposa. Quem o nega?

Admeto

De tal modo que já não tenho prazer na vida.

Héracles

O tempo suavizará o mal que agora está em pleno vigor.

Admeto

O tempo, sim, podes dizê-lo, se o tempo é sinônimo de morte.

Héracles

Uma mulher, outras núpcias te consolarão.

Admeto

Cala-te. Que dizes? Não quero acreditar.

Héracles

O quê? Não te casas mais, ficará vazio o teu leito?

Admeto

Nenhuma mulher ao meu lado se deitará.

Héracles

Julgas tu que isto tem alguma utilidade para a morta?

Admeto

Onde quer que ela esteja, devo honrá-la.

Héracles

Aprovo isso, sim, aprovo; ganharás fama de louco.

Admeto

Nunca me chamarás noivo.

Héracles

Louvo-te pelo amor fiel que tens pela tua esposa.

Admeto

Que eu morra, se a trair, embora ela já não exista.

(...)

Pequeno Comentário

“Quem está para morrer, é como se já estivesse morto, e quem morreu não existe.”

Fechando um ciclo que comecei com Antígone, depois Hipólito em que a Morte é o contraponto a algum bem, tão ou mais importante. Em Antígone foi à liberdade de fazer algo certo, dar às honras fúnebres ao irmão morto, enfrentando o edito proibitório do tio, a autoridade tirânica que é punida severamente. No caso de Hipólito sua castidade e devoção a deusa Ártemis é sua desgraça, pagando com a vida.

Neste novo caso é uma provação em que o Amor por excelência de Alceste ao marido faz com que ela prefira morrer em seu lugar, renunciando a vida, pelo amor, mesmo jovem, em flagrante contradição ao pai de Admeto, que mesmo idoso, não se dispõe a se sacrificar.

Tema subjacente é o da hospitalidade, mesmo diante de um mal terrível, Admeto recebe o herói Heracles, poupando-lhe de saber do que acontecia no palácio. A recompensa ao tratamento e ao seu imenso amor pela esposa faz com que Heracles lutasse contra Tânatos (Morte) pela vida de Alceste. Ela volta mais jovem e bela, o amor rejuvenesce.

Anexo - Livro em PDF: ALCESTE

segunda-feira, 28 de março de 2011

Dúvidas da Luana

Minha filha Luana tem nove anos, outro dia estava lendo a "Bíblia para criança", que ganhou de sua tia, aí  lascou três perguntas para mim:

1)   Por que deus castigou Moisés e não o deixou chegar na terra prometida, mesmo tendo sido ele quem libertou o povo de deus no Egito?


2)   Por que deus é tão bom, mas judiou tanto de Jó?


3)    E, por fim, a definitiva: Por que deus está fazendo isto com a minha irmã Letícia(#Leucemia : Quando ela bate na sua porta!)?

Tentei argumentar que Moisés e o povo que o seguia começou adorar o "Bezerro de Ouro"..aí ela diz e daí o Bezerro também não era criação dos filhos de Deus? Sobre Jó falei que Deus testava sua fé...Luana responde: Precisa judiar dele assim? Bem, complicado explicar "teste de fé".

Como sempre a parte mais difícil, pra ela, e para mim, falar sobre a doença da Letícia, Leucemia, com 13 anos, corpo judiado pelas 50 quimioterapia em 9 meses, perda completa de cabelos, duas vezes...Luana se revolta em ver a irmã assim, de não podermos planejar nada pelos próximos 2 anos. Claro que não entende os mistérios da vida, de Deus, dos homens, da natureza. Mas como assunto era Deus( castigos, privações, bondade) fica quase impossível uma resposta satisfatória que acalme seu coraçãozinho, suas angústia, aplacar sua rebeldia.

Hoje refiz as três perguntas e minha irmã, Luciete, muito religiosa e sábia, manda as respostas via facebook:

"Na verdade Deus dá o livre arbítrio

1)   Moisés duvidou;

2)    Na história de Jó Deus permitiu, pois o Diabo estava atiçando, mas em troca Jó prosperou em tudo sofreu, mas não se rendeu a tentação;

3)   Quanto a Letícia ele permite, não é a vontade dele, mas a gente passa por tribulações é difícil entender apenas digo que confie sem questionar e a tempestade vai passar."

Bem e você o que acha?