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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Obama x Osama: Como no velho oeste


Obama matou Osama, não é um mero trocadilho de B e S dos nomes, mas algo mais grave e pior, o Prêmio Nobel da Paz anuncia com galhardia que matou o inimigo público americano número 1, assim cheio de satisfação, nem um pesar ou qualquer lamentação. As congratulações aos envolvidos na macabra operação de caça e morte, com ordem expressa de não deixá-lo vivo, julgar para que mesmo?

Mas é preciso rebobinar o filme e melhor localizar a questão cinematográfica, pois como de costume os roteiros estão prontos, para nova saga do herói que mata, não julga, e não se preocupa com a História, apenas com a Estória que irá contar.

Obama I: A vitória do inesperado

Coincidência ou não, mas o motor da chegada de Obama a Casa Branca foi o desastre Bush Jr, sem isto, ouso afirmar, jamais um negro, com família com vínculos ao islã, lá chegaria. Além da economia em frangalhos Bush Jr promoveu a caça fracassada a Osama, item sensível para o americano médio, seu poder no mundo estava em baixa, um reles fanático consegue se esconder das mais modernas máquinas tecnológicas do mundo.

Obama era o outsider da máquina do Partido Democrata, amplamente  controlada pelos Clintons, e sua favorita Hillary a indicação do Partido seria mera formalidade. Porém Obama surge avassalador e numa hipótese pouco cogitada, seis meses antes, leva um negro à presidência. Vitória de um outsider total.

Obama fez um acordo dentro do partido em que entrega a Secretaria de Estado, ministério mais importante americano, a sua adversária Hillary. Enfrentando uma crise sem precedentes, mais ou menos dividiu seu Governo em dois: no front interno liderado por ele, tenta aprovar reformas na saúde e recompor a economia em frangalhos. No front externo entregue a Hillary e os falcões mais reacionários, como boa conhecedora da máquina de guerra, Hillary tem seu desempenho facilitada pelos crescentes conflitos advindo da ampla crise financeira mundial.

Assume a presidência naquela que é considerada a segunda maior grande depressão da história do capitalismo, o país mergulhado num atoleiro no Iraque e Afeganistão, com pouquíssimo espaço de manobra, uma herança mais do que MALDITA, sob desconfiança da elite reacionária, que aceitou a derrota na batalha, mas prolonga a guerra via mídia. Neste contexto dentro do próprio partido Democrata, Obama tem poucos aliados confiáveis, é obrigado a montar um ministério de composição com as alas conservadoras e ainda manter um presidente do FED comprometido ainda com o Neoliberalismo.

Estes fatores combinados, recessão violenta, desemprego, sensação de decadência duas guerras no front, uma mídia hostil, deixam pouco, ou quase nada, espaço de manobra para Obama se movimentar.



Economia de Obama : O mais do mesmo


Houve uma piora sensível nas condições políticas e de governabilidade, acentuada agora pela imensa derrota nas eleições congressuais bianuais, com a perda da maioria na Câmara Federal e redução na maioria do Senado federal.

Os grandes bancos receberam pesados recursos do tesouro, sendo salvos os banqueiros, os megainvestidores, mas nada sobrou para os endividados em hipotecas, passou a idéia de que é melhor salvar os ricos, sem se preocupar com quem realmente perdeu tudo.

Desde o início da crise iniciada em Setembro de 2008, mais precisamente a apresentação da conta salgada do resgate dos bancos e corporações feitas pelos planos de Bush I e II, e os três ajustes de Obama nos Estados Unidos. Apenas Bush injetou no sistema bancário americano combalido cerca de 1,5 Trilhões de Dólares que foi reforçado por Obama ainda na transição e nos seguidos ajustes de 2009, 2010 e o último agora de 2011. A dívida pública americana saltou de 8,7 Trilhões (62% do PIB) em 2007 para 15,2 Trilhões (99,5% do PIB) em 2010.

Como conseqüência mais visível as 400 maiores fortunas nos EUA têm mais dinheiro do que 155 milhões de americanos, uma brutal concentração de renda típica de “terceiro mundo”, que se aprofundou mais no governo Obama. Depois da “crise” em recente pesquisa foi constatada que aumentou o número de americanos com mais de US$ 1 milhão em investimentos, situação contraditória numa crise sem precedentes.

Mas a outra ponta da economia há aumento no índice de desemprego e mais ainda o aumento drástico da população que recebe os Food Stamps (programa equivalente à Bolsa Família, no final tem um link sobre o programa) de Fevereiro de 2010 a Outubro passou de 39 milhões 42,4 milhões de pessoas (quase 10%)

Neste ambiente Obama jogou todo peso para aprovar uma espécie de SUS plano de saúde público, pois cerca de 45 milhões de americanos não tinham nenhuma proteção hospitalar e assistência médica (número coincidente com participantes do Food Stamps). O custo do seguro saúde é muito alto e devido à precarização do emprego e mesmo subemprego impedia que esta faixa da população tivesse atendimento médico.

Porém o custo político foi desastroso, Obama foi pintado como “Bolchevique” Socialista que quer acabar com a livre iniciativa, a dura batalha no congresso foi divorciada da sociedade, um movimento Proto-Fascista, Tea Party, cresceu de forma assustadora, elegeu inclusive representantes no novo congresso.

Política externa : Obama Bush Jr


A dura visão do Departamento de Estado, dominado pela Direita dos democratas, escolhe seus “inimigos”, o principal deles o Irã, mesmo com o refluxo no Iraque a aventura no oriente médio ainda é prioritária, atende a demanda da indústria bélica, do setor petrolífero, do militares e dos falcões de Israel.

Parece que nada mudou desde Bush Jr, a Sra. Clinton continua sua escalada de medo e ódio pelo mundo, Obama quase nada se diferencia, sua submissão é total ao que Hillary faz e desfaz.

Neste contexto cada dia mais a China crescem como pólo aglutinador de forças econômicas e alternativa de investimentos, em particular no chamado 3º mundo. Com 5 Trilhões de reservas cambiais, a China hoje é o principal credor americano, boa parte do destino do Dólar está nas mãos dos chineses.

Esta sensação de perda do poder hegemônico mundial é mais uma derrota do Governo Obama, a extrema dificuldade de dialogar com o mundo leva a um isolamento e o império apenas é reconhecido pelo poder militar.

Mesmo em relação ao G20, Obama/Hillary nada fez para se aproximar e quebrar a influência chinesa é inconcebível que Obama não tenha visitado o Brasil, o articulador mais dinâmico do G20. Este desprezo pelas relações diplomáticas torna a saída da crise americana mais distante ou em condições piores.

A recente desvalorização do Dólar apenas reforça a visão equivocada de G2 (EUA-China) fechando os olhos para o resto do mundo. Ao comprar a guerra cambial com a China, Obama fecha às portas para qualquer dialogo com o restante do G20, em particular com Brasil, Índia, Rússia e África do Sul



Obama II: Sem enfrentamento interno e o fator morte Osama

O surgimento de um movimento de extrema-direita nos EUA é reflexo da falta de combatividade de Obama, a complexa situação da economia, o empobrecimento crescente vistos a olhos nus, fez surgir no seio da classe média americana a Hybris do ódio e ressentimento.

Consubstanciado no caricato Tea Party algo parecido com típicos movimentos proto-fascistas que surgem na ebulição de grandes crises, em sínteses são ultra liberais contra governo, o de Obama em particular, contra impostos, saúde publica e que querem resgatar o “sonho americano”. No fundo não passa de mais um pesadelo.

Aqui mais uma vez houve a maior falha de Obama, ele não tomou para si às rédeas de seu governo, foi bombardeado internamente pelos Clintons,Nancy Pelosi e outros falcões democratas. Do lado de fora o combalido Partido Republicano ressurgiu mais forte e mais à direita, galvanizando a letargia e porque não a covardia do Governo Obama de enfrentar seus inimigos.

Logo no seu relançamento Obama prometeu cortar 4 trilhões da dívida em 4 anos e reduzir o déficit público para 3,5% até 2016, como bem definiu Clinton em 1994 na luta contra Bush Pai: “é a economia estúpido”  que explica a vitória ou derrota de um candidato presidente, assim será mais uma vez com Obama.


A morte e a "morte" de Osama



A grande jogada de marketing que traria algo espetacular e a salvação da lavoura,  veio com o anuncio da morte de Osama, toda mídia mundial saudou o evento, como algo especial, sem nenhuma crítica ao fato de ter sido aparentemente dominado, sem que fosse preciso executá-lo, parece apenas um mero detalhe.

Hoje se ver pelas imagens que os americanos estão jubilosos com a morte de Osama, se sentem “vingados”, mas também foi lhes negado o “troféu” como Bush Jr fez ao matar Saddam. A se confirmar que jogaram os restos mortais de Osama ao mar, além de um ato estúpido e cruel, cria mais animosidade e reforça a tese que os EUA não respeitam o estado de direito, muito menos a democracia.

Mas para máquina de guerra não pode parar, há 100 mil soldados no Afeganistão o que farão agora? O inimigo número 1 está morto o que fazer lá? Deslocamento para Líbia? É mais um capítulo desta dura realidade americana, sustentar o motor de sua economia através da morte e do medo.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

FHC: A Democracia sem Povão

O mais novo deboche que FHC fez ao povo brasileiro foi inaugurar uma nova fase na cultura política de seu partido: A Democracia sem Povo, ou em suas palavras – Povão – esta massa ignara que tem pouco ou nenhum discernimento político que é a presa fácil para partidos de esquerda. (ver Blog do Nassif - FHC: o político à procura de um discurso ). A Folha de S  Paulo lhe deu amplo destaque, pois , é a preparação de FHC lançar seu Portal de Política - ou seja - vai ensinar a fazer : Política sem Povo.

Por este raciocínio faz todo sentido, prescinde-se de “povão”, o ideal é concentrar esforços na elite, nas classes médias gerenciais, a partir delas se deve apenas indicar os números nas urnas eletrônicas que esta massa inculta votará. Por esta lógica para que eleição? Ou para que ir votar, libera-se e incute-se nas cabeças que a democracia não faz sentido algum, pois os ignorantes não a entendem.

Num clássico rompimento com as conquistas elementares de representação popular o príncipe da sociologia brasileira faz sua melhor reflexão, expondo a nu todo seu elitismo, sua visão autoritária e aristocrática de condução de uma nação. Os laços, até liberais, dos ideais da revolução francesa, são quebrados no novo modelo partidário e de conquista do poder. Ao escolher o caminho da “democracia” sem “povão” se despreza o sujeito social que é fim último de qualquer democracia real ou formal.

Ler mais um conjunto de obviedades, trasvestidas de pompa de intelectual pobre e burlesca, parecem um último suspiro do combalido PSDB e de seu maior representante. Mesmo na loucura, ele revela um método, nos diz Shakespeare, que é a busca diuturna para se criar uma casta, uma elite - política, intelectual e gerencial - que prescinda do Povão, foi assim em todo seu governo, em particular no desastrado segundo mandato, assacado na ameaça da desvalorização do real e medo de que Lula poria fogo no Brasil.

Rupturas no PSDB



Em significativa entrevista de rompimento com o PSDB, Bresser Pereira,( via Blog do Nassif Bresser-Pereira deixa o PSDB) fundador e um de seus maiores intelectuais, diz claramente qual a opção política e intelectual que norteou o governo FHC e seus desdobramentos sinistros com a perda da identidade nacional, era uma apologia cega ao mercado, uma certeza inútil de que a globalização no abriria o mundo.

Os primeiros anos dourados do Real deram lugar à crueza das crises dos tigres asiáticos e posterior crise russa, que abalou definitivamente a fé no mercado, com um agravante, os instrumentos de estado, tinham sido completamente destruídos, levou o Brasil a passar 4 anos de profunda agonia (Janeiro de 1999 a Setembro de 2003).

A herança maldita, a que Lula se referia, era uma combinação de estado desmobilizado com uma profunda crise econômica. Dívida pública astronômica, déficit publico, exportações engessadas e falta de iniciativa de buscar novos mercados. Setores inteiros completamente destruídos, como setor elétrico, com apagão e pouca expectativa de melhoria.

O artigo vai à contramão das maiores conquistas dos últimos anos, que foi a ampla incorporação de parcela significativa dos trabalhadores que vivia à margem do mercado, sem renda ou cidadania. Este “povão”, que FHC despreza, é que hoje faz a diferença do Brasil no mundo, é o legado de Lula.

A busca do discurso pela oposição já gerou seu primeiro fiasco, apesar do amplo destaque que a mídia dócil ao ex-presidente, afasta mais ainda a oposição da vida real da maioria da população brasileira. Continuam fazendo, agora assumidamente, política sem Povão, para uma elite bem determinada. Enfraquece a democracia de qualquer maneira a falta de maior qualificação do debate e do embate político e programático.


quinta-feira, 17 de março de 2011

Obama e seus fracassos

“Deixai toda esperança ó vós que entrais.

Inferno 3:9”(Inferno – Dante Alighieri)


A visita de Barack Obama ao Brasil coincide com um momento muito particular da política americana: sua imensa crise que vai pra os 30 meses sem que haja a perspectiva de solução. O governo Obama sofreu fragorosa derrota nas recentes eleições parlamentares, perdendo a maioria na Câmara e o poder de decisão unilateral no Senado.

Enfrenta também crise de credibilidade pelos documentos tornados públicos pelo Wikileaks, numa clara divisão interna de comando no Departamento de Estado. Aos olhos do mundo, Obama é visto cada vez mais como decepção e sem rumo, muitas políticas dos governos republicanos foram continuadas e, até em alguns casos, pioradas.

O texto abaixo busca fazer um balanço desde a vitória de Obama até sua recente derrota eleitoral, que coloca em xeque sua reeleição no próximo ano.

Um link com Roosevelt

A primeira coisa de que me lembro com Obama na presidência é de outro grande presidente americano, talvez o maior e mais singular deles, Franklin Delano Roosevelt. Herdeiro da catástrofe econômica de 29, assumiu a presidência em 32 vencendo a máquina partidária e com um programa de amplas reformas; rompeu com o liberalismo predominante e implementou fundamentalmente um programa keynesiano clássico, de intervenção estatal pesada. O New Deal foi centrado nos seguintes itens:
  • Controle sobre bancos e instituições financeiras;
  • Construção de obras de infraestrutura para a geração de empregos e aumento do mercado consumidor;
  • Concessão de subsídios e crédito agrícola a pequenos produtores familiares;
  • Criação de Previdência Social, que estipulou um salário mínimo, além de garantias a idosos, desempregados e inválidos;
  • Controle da corrupção no governo;
  • Incentivo à criação de sindicatos para aumentar o poder de negociação dos trabalhadores e facilitar a defesa dos novos direitos instituídos.

Roosevelt, apesar de vir do seio da burguesia americana – seu primo Theodore havia sido presidente em 1908 –, foi sempre taxado de comunista, esquerdista, e enfrentou oposição terrível do início ao fim do mandato; tudo em sua vida era motivo de exploração nos jornais. Espertamente ele resolveu fazer comunicação direta com o povo falando em cadeia de rádio sem intermediário, e assim rompeu o cerco que a mídia (jornais) tentou lhe impor. Para quem tiver curiosidade sobre esta época ler “Anos dourados” (Gore Vidal), romance que localiza bem a luta política enfrentada.

Fator Obama


Coincidência ou não, o motor da chegada de Obama à Casa Branca foi o desastre Bush Jr. Sem isto, ouso afirmar, jamais um negro, com família com vínculos ao islã, lá chegaria. Sua ascensão é algo extraordinário, inimaginável há 10 anos, quem de nós conseguiria vislumbrar algo tão luminar?

Obama surge do nada, ganha da favorita Hillary a indicação do Partido Democrata. Uma hipótese pouco cogitada seis meses antes, um negro na presidência. Vitória de um outsider total, sem um pé na máquina partidária, dominada pelos Clintons.

Obama faz um acordo cruel, entrega a Secretaria de Estado, ministério mais importante americano, a sua adversária Hillary. Enfrentando uma crise sem precedentes, mais ou menos dividiu seu governo em dois: no front interno liderado por ele, tenta aprovar reformas na saúde e recompor a economia em frangalhos. O front externo é entregue a Hillary e aos falcões mais reacionários. Como boa conhecedora da máquina de guerra, Hillary tem seu desempenho facilitado pelos crescentes conflitos advindos da ampla crise financeira mundial.

Assume a presidência naquela que é considerada a segunda maior grande depressão da história do capitalismo, o país mergulhado num atoleiro no Iraque e no Afeganistão, com pouquíssimo espaço de manobra, uma herança mais do que MALDITA, sob desconfiança da elite reacionária, que aceitou a derrota na batalha, mas prolonga a guerra via mídia. Neste contexto, no próprio Partido Democrata Obama tem poucos aliados confiáveis, é obrigado a montar um ministério de composição com as alas conservadoras e ainda manter um presidente do FED comprometido ainda com o neoliberalismo.

Estes fatores combinados, recessão violenta, desemprego, sensação de decadência, duas guerras no front, uma mídia hostil deixam pouco, ou quase nada, espaço de manobra para Obama se movimentar. Para nós que estamos de fora apontar o dedo de por que ele continua as guerras é fácil, por que ele não enfrenta os lobbies armamentistas, grupos poderosos etc. Seu próprio chanceler Hilary Clinton sabota-lhe  o trabalho: negociou com os golpistas hondurenhos, por exemplo, mas são as concessões inevitáveis de governo novo no meio do caos. Aqui não quero justificar os erros de conduta de Obama, mas tentar explicar os fatos com isenção.



Economia continua em crise, desemprego piorou muito nestes anos


Houve uma piora sensível nas condições políticas e de governabilidade, acentuada agora pela imensa derrota nas eleições congressuais bianuais, com a perda da maioria na Câmara e redução na maioria do Senado.

Os grandes bancos receberam pesados recursos do Tesouro, sendo salvos os banqueiros, os megainvestidores, mas nada sobrou para os endividados em hipotecas: passou a idéia de que é melhor salvar os ricos, sem se preocupar com quem realmente perdeu tudo.

As 400 maiores fortunas nos EUA têm mais dinheiro do que 155 milhões de americanos, uma brutal concentração de renda típica de “terceiro mundo”, que se aprofundou mais no governo Obama. Depois da “crise”, em recente pesquisa foi constatado que aumentou o número de americanos com mais de US$ 1 milhão em investimentos, situação contraditória numa crise sem precedentes.

Mas na outra ponta da economia há aumento no índice de desemprego e mais ainda o aumento drástico da população que recebe os Food Stamps (programa equivalente ao Bolsa Família (no pé do texto há um link sobre o programa): de fevereiro de 2010 a outubro passou de 39 milhões a 42,4 milhões de pessoas (quase 10%).

De acordo com o United States Department of Agriculture, as estatísticas para o programa de assistência alimentar são os seguintes:
  • 51 por cento de todos os participantes são crianças (17 anos ou menos), e 65 por cento deles vivem em famílias monoparentais.
  • 55 por cento dos domicílios do vale-refeição incluem crianças.
  • 9 por cento de todos os participantes são idosos (60 anos ou mais).
  • 79 por cento de todos os benefícios vão para as famílias com filhos, 14 por cento vão para as famílias com pessoas com deficiência e sete por cento vão para as famílias com pessoas idosas.
  • 36 por cento dos agregados familiares com crianças eram chefiadas por uma mãe solteira, a esmagadora maioria dos quais eram mulheres.
  • O tamanho médio do agregado familiar é de 2,3 pessoas.
  • A renda bruta média mensal por agregado familiar do vale-refeição é de R $ 640.
  • 41 por cento dos participantes são brancos, 36 por cento são Africano-americanos, não-hispânicos, 18 por cento são hispânicos; 3 por cento são asiáticos, 2 por cento são indígenas, e 1 por cento são de raça ou etnia desconhecida.

Neste ambiente Obama jogou todo o seu peso para aprovar uma espécie de SUS, plano de saúde público, pois cerca de 45 milhões de americanos não tinham nenhuma proteção hospitalar e assistência médica (número coincidente com participantes do Food Stamps). O custo do seguro saúde é muito alto: a precarização do emprego e mesmo do subemprego impediam que esta faixa da população tivesse atendimento médico.

Porém o custo político foi desastroso, Obama foi pintado como “bolchevique”, socialista que quer acabar com a livre iniciativa. A dura batalha no Congresso foi divorciada da sociedade; um movimento protofascista, o Tea Party, cresceu de forma assustadora, elegeu inclusive representantes no novo Congresso.

Política externa desastrosa ruim com de perda de poder e influência no mundo



A dura visão do Departamento de Estado, dominado pela direita dos democratas, escolhe seus “inimigos”, o principal deles o Irã. Mesmo com o refluxo no Iraque a aventura no oriente médio ainda é prioritária, atende às demandas da indústria bélica, do setor petrolífero, dos militares e dos falcões de Israel.

Parece que nada mudou desde Bush Jr. A Sra. Clinton continua sua escalada de medo e ódio pelo mundo, Obama quase nada se diferencia, sua submissão é total ao que Hillary faz e desfaz.

Neste contexto, cada dia mais a China cresce como pólo aglutinador de forças econômicas e alternativa de investimentos, em particular no chamado 3º mundo. Com 5 trilhões de reservas cambiais, a China hoje é o principal credor americano, boa parte do destino do dólar está nas mãos dos chineses.

Esta sensação de perda do poder hegemônico mundial é mais uma derrota do governo Obama. A extrema dificuldade de dialogar com o mundo leva ao isolamento, e o império apenas é reconhecido pelo poder militar.

Mesmo em relação ao G20, Obama e Hillary nada fizeram para se aproximar e quebrar a influência chinesa. É inconcebível que Obama não tenha visitado o Brasil, o articulador mais dinâmico do G20. Este desprezo pelas relações diplomáticas torna a saída da crise americana mais distante ou em condições piores.

A recente desvalorização do dólar apenas reforça a visão equivocada de G2 (EUA-China) fechando os olhos para o resto do mundo. Ao comprar a guerra cambial com a China, Obama fecha as portas para qualquer diálogo com o restante do G20, em particular com Brasil, Índia, Rússia e África do Sul.

Falta de enfrentamento político com adversários

O surgimento de um movimento de extrema-direita nos EUA é reflexo da falta de combatividade de Obama, a complexa situação da economia, o empobrecimento crescente vistos a olho nu fizeram surgir no seio da classe média americana a Hybris do ódio e do ressentimento.

Consubstanciado no caricato Tea Party, algo parecido com típicos movimentos protofascistas que surgem na ebulição de grandes crises, em síntese são os ultraliberais contra o governo, o de Obama em particular, contra impostos, saúde pública, que querem resgatar o “sonho americano”. No fundo não passa de mais um pesadelo.

Aqui mais uma vez houve a maior falha de Obama: ele não tomou para si as rédeas de seu governo, foi bombardeado internamente pelos Clintons, por Nancy Pelosi e outros falcões democratas. Do lado de fora, o combalido Partido Republicano ressurgiu mais forte e mais à direita, galvanizando a letargia e, por que não, a covardia do governo Obama de enfrentar seus inimigos.

A imensa derrota nas eleições foi a maio senha de que Obama precisa agir com firmeza, afastar os adversários de dentro do governo, ir ter com o povo diretamente, sem meias medidas. Talvez este momento seja muito parecido com o que Lula viveu na crise do mensalão. Daquele momento em diante Lula assumiu seu destino. Será que Obama assumirá o seu? Parece que caminha para ser um novo Jimmy Carter.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Governo Dilma nem começou e já tem epitáfio?

Polêmica boa entre companheiros que preservam o respeito e buscam construir um diálogo saudável no seio da esquerda é fundamental para entendermos o momento atual, a conjuntura política e econômica. A dinâmica da luta de classes e a posição daqueles que se advogam de esquerda e revolucionária.

A maioria sabe dos meus últimos dias, que não me permitiram dialogar com o companheiro Maurício  Caleiro. Tentei fazer isto com ele e a Maria Frô de forma limitada no texto anterior (“O mundo é um moinho” – a política também).

Porém, durante o carnaval, o companheiro foi mais fundo nas críticas ao governo Dilma Dilma e o retrocesso que a direita adora, agora não mais pontuais e sim globais, mais trabalhadas na Tréplica ao Alexandre Porto. Apresento as minhas considerações gerais de resposta aos dois textos do Caleiro.

Dilma e o retrocesso que a direita adora ou Esquerdismo do jardim da infância

Estivemos lado a lado na campanha por três motivos que Caleiro apontou

1)   Defesa do governo Lula e suas conquistas;

2)   Derrotar Serra e seu programa de extrema-direita;

3)   Derrotar definitivamente o neoliberalismo;

Particularmente concordo com as questões e elencaria mais outros, sendo o principal destes a falta de alternativa consistente à esquerda programática que rompesse com o sistema, o que nos reuniu no projeto pequeno-burguês radical do PT.

É preciso ter claro: o PT não se propôs em nenhum momento, nem em 2010, 2006, 2002, 1998 ou 1994, a romper com a institucionalidade burguesa, exceto em 1989, que tinha ainda um programa anticapitalista. Desde 1992, com o refluxo do Leste europeu, a queda do Muro de Berlim, a esquerda revolucionária refluiu no PT ou rompeu com ele, fundando pequenos partidos como PSOL e PSTU, que se propuseram como alternativas, mas que no fundo gravitam na órbita do PT, com suas famosas “exigências e denúncias”, a formulação trotskista inócua que impediu objetivamente uma conformação política programática forte e alternativa anticapitalista.

Já em 2003, nos primeiros meses do governo Lula, alguns parlamentares liderados por Heloísa Helena e Luciana Genro romperam com Lula, por acreditar que este traíra o programa histórico – pequeno erro, não leram ou não se deram o trabalho de perceber que tinha já 12 anos que o PT não se propunha algo diferente do que administrar o Estado burguês com mais “competência”, numa visão democrática e popular. Surgiu o PSOL que pouco ou nada de alternativa política programática, a meu ver, trouxe para o cenário político de esquerda.

Portanto, ao apoiar um governo de um partido como o PT é preciso ter claro: ele NÃO ROMPERÁ os laços com o grande capital. Tentará sempre que possível conciliar estes interesses em luta, procurará ampliar os espaços de participação política, mas muito se frustrará quem acha quem será totalmente distinto de um governo burguês comum.

Quem milita na esquerda não pode vir com um papo de “traição”, pois ou não leu o programa ou, pior. leu e não o entendeu. Fatalmente cairá no esquerdismo tardio, típico do jardim de infância. Alguns fundam outros partidos (PSOL, PSTU), que sem política global viram seitas ou grupamentos de tendências em lutas permanentes.

Economicismo, o que seria isto?

Caleiro corretamente aponta o corte de R$ 50 bilhões no orçamento como questão preocupante por seus impactos na vida do cidadão comum. No novo texto fala do aumento da taxa Selic e suas consequências de restrição ao consumo e ao crescimento. Vamos às questões para entendermos se realmente este é um retrocesso ou um recuo normal na economia.

Desde a grande crise, em setembro de 2008, o governo Lula apontou que saída seria o investimento pesado do Estado, incentivando o crescimento com desoneração fiscal (IPI, PIS, Cofins), gerando compras corporativas estatais com grandes obras (PAC), apostando que num horizonte de curto prazo a economia mundial volte a crescer.

Os resultados todos sabem: em 2009, praticamente tivemos um trimestre de forte retração e logo a seguir um período virtuoso de crescimento que culminou em 2010 com a taxa de 7,5%. Esta dinâmica foi conseguida graças ao grande trabalho do Estado, do governo federal, a ação positiva de Lula de ir a campo e liderar a retomado do crescimento, em desalinho ao que acontecia no mundo.

Porém, em longo prazo este crescimento isolado do Brasil, este vigoroso movimento, sem o devido acompanhamento externo, não se sustentaria: já em agosto de 2010, ainda sob Lula, teve início um movimento para frear a economia devido ao componente inflacionário, que em última análise pune os mais pobres. A dinâmica econômica era contida para um crescimento mais moderado que impedisse a volta da inflação, apostando numa retomado do mercado mundial.

Óbvio que Dilma, a grande gestora de todos os grandes programas de crescimento do governo Lula (PAC, Minha Casa, Minha Vida) é sabedora de todos os percalços e da necessidade de se redefinirem as prioridades do crescimento e a adequação do orçamento, que sempre vem “vitaminado” com emendas parlamentares, muitas, fisiológicas.

É preciso ter responsabilidade fiscal, que garanta, repito, nos marcos da administração do estado burguês, a gestão coerente, que possibilite no futuro ainda maior inclusão social.

Que Dilma honre os compromissos que a elegeramem dois meses?

Fico espantando com a pressa de que Dilma cumpra seus compromissos, tudo em dois meses; esta mesma pressa levou muitos companheiros ao PSOL, queimou pontes e hoje amargam isolamento político – muitos ficam apenas gravitando eternamente na órbita da estrela maior.

As medidas econômicas duras, ao contrário do que se diz, já estavam sendo tomadas no governo Lula: o ministro da Fazenda é mesmo, o BC, aliás, melhorou com a saída de Meireles. Este período de ajuste é necessário e, dando crédito ao que diz Mantega, no segundo semestre começa a mudar.

Mas a pressa ou as frustrações imediatas muitas vezes falam mais alto do que a razão – mesmo que o companheiro não aceite o argumento histórico, vivemos de análise da dinâmica histórica. O governo Lula também sofreu no começo com a herança de FHC, péssima em todos os sentidos, mas o horizonte de crescimento mundial também nos favoreceu. Agora estamos numa situação inversa: a herança de Lula é boa, mas o horizonte externo é nebuloso e complicado.

Outra coisa engraçada é que só se reforça o que aparentemente é ruim no “economicismo” ou nos ministério que têm retrocessos. Mas por que nada se fala do aumento das verbas para saúde? aumento do piso dos professores com repasse de 1 bilhão do Fundeb? Ou da mudança de comando da Funasa, de Furnas, dos ministérios da saúde e de comunicações?

Sinceramente, nunca ouvi de Erundina que romperá com o governo Dilma porque Kassab ou Katia Abreu (esta nunca ouvi dizendo que nos apoiará) fundarão partido para irem para a base de apoio. Base de apoio a governos centrais é “rede de arrasto”, vêm apoios os mais cretinos possíveis. Por exemplo, Maluf é da base, Collor, Sarney, mas a pergunta é bem objetiva: são estes que dão a dinâmica do governo??

Mais uma vez apelo à razão, à calma na análise: sei que a dinâmica do debate não é ruptura, mas determinados argumentos assacados são francamente impróprios pelo pouco tempo de governo. Vamos ficar jogando água quente na fervura por que mesmo? Temos outro projeto político a construir? Outras forças sociais surgiram nestes dois meses que nos permitam apontar uma ruptura?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

"O mundo é um moinho" - a política também

"Ainda é cedo, amor
Mal começastes a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar"
(O Mundo é Um Moinho -  Cartola )



Nestes dias, apesar dos graves problemas que tenho enfrentado li os post nos excelentes blogs e no Twitter dos companheiros Maria Frô (este inclusive da voz a Leandro forte para consubstanciar sua posição) e de Maurício Caleiro, aí esta música do Cartola não me saia da cabeça, não conseguia acreditar que valorosos companheiros que juntos demos o bom combate contra a Direita raivosa nas últimas eleições sucumbissem a coisas tão secundárias, do meu ponto de vista, claro.

Pensei em escrever um contraponto, pois respeito e admiro demais os meus amigos, mas vi que seria melhor relembrar o cenário pós-vitória de Lula em 2002, talvez ajude a baixar a fervura.


As grandes Expectativas em Lula e Dilma





As grandes expectativas que existiam na vitória de Lula, o ineditismo de um operário sem formação universitária chegou ao poder empolgaram toda uma esquerda de longa trajetória de luta, desde as célebres greves do ABC. Estas mesmas expectativas foram redobradas com o fim de um governo de mais acertos do que erros e que consegui mudar a cara do Brasil nos últimos 8 anos, com a vitória de Dilma, uma mulher que nunca tinha sido candidata a nada, vencer as eleições presidenciais foi algo formidável.

Passado dois meses um serie de polêmicas se estabeleceu no seio da esquerda organizada, e certa impaciência com os rumos de seu governo. Decidi relembrar um pouco do que foram os 2 primeiros anos, vejam não 2 meses, digo anos, do Governo Lula, apenas pra refrescar nossa memória e refletir melhor o momento.

Lula: o filho do ABC



Lula chega ao poder central depois de 25 anos das grandes greves do ABC que o projetara como grande líder de massas, não forjado em escolas tradicionais de sindicalismo comunista. Ele forja-se como peão que cresce dentro de uma fábrica num regime de exceção cujas liberdades sufocantes é a mola mestra do crescimento econômico, mas na segunda metade dos anos 70 os militares já não davam conta nem do crescimento econômico, bombardeado pela crise do petróleo, muito menos das demandas sociais por liberdade política. A esmagadora vitória do MDB em 74 e 78 prepara um novo ambiente.

As greves de 78/79 lideradas pelo metalúrgico até então desconhecido, são o tiro que faltava para deflagrar o grande movimento pela anistia, liberdade política. Em 80 a ultima tentativa dos militares foi liberar os partidos, com claro objetivo de dividir as oposições, daí surge a grande novidade política do Brasil, o PT.

Sem muitas delongas, este não é objetivo aqui, o PT se forja como a opção vinda da classe trabalhadora mais vitoriosa do país, desde seu inicio identifica a necessidade de chegar ao poder, e nove anos depois chega ao segundo turno da eleição presidencial deixando para trás lideranças expressivas como Brizola e Ulisses. Lula se consolidará como alternativa de poder nas próximas eleições, carregando consigo todo um simbolismo de lutas sócias e transformações.

Talvez lidar com estas grandes expectativas seja a parte mais complexa da montagem do governo inicial, como atender demandas reprimidas num ambiente econômico tão ruim?

2003-2005 Lula era um “traidor”?



Desde a montagem da equipe e de algumas medidas houve acertos óbvios e erros clamorosos inoperantes. A equipe econômica não poderia fugir da lógica do mercado, não havia qualquer espaço de manobra e as medidas tomadas foram coerentes com o momento para dar fôlego futuro: 1) Exportações; 2) controle da inflação; 3) aumento do salário mínimo acima da inflação (1,46%), nada mais podia ser feito de substancial.

Estabeleceu-se uma grande polêmica a ida de Henrique Meireles para o Banco Central. Meireles tinha sido Presidente do Bank Boston e depois eleito Deputado Federal pelo PSDB-GO, como todas estas credenciais uma área estratégica do governo foi entregue a um “adversário”.

A prioridade zero do início do Governo Lula foi a Reforma da Previdência II, um aprofundamento da primeira conduzida pelo Governo FHC, no movimento sindical e na esquerda petista houve grave comoção, inclusive Heloisa Helena, Babá e Luciana Genros foram expulsos do PT, vindo formar o PSOL.

José Dirceu que liderava a Casa Civil foi incensado pela imprensa como o homem forte do Governo, chegando a ser eleito a personalidade do ano. Era o interlocutor do grandes jornais, entrevistas nas principais revistas e TVs, a mídia estava apaixonada pelo governo que não lhe era hostil.

Do ponto de vista social o grande acerto foi o lançamento da “Fome Zero” era mais que uma marca, um compromisso para aquele tempo, mas faltaram gestores que entendessem profundamente como montar um programa social tão amplo.

Do ponto de vista político a não vinda do PMDB ao governo causou graves transtornos ao governo mesmo sendo vitorioso na eleição majoritária o governo era ampla minoria no congresso o bloco efetivo que venceu a eleição só tinha 192 deputado e pouco mais 20 senadores.

Os operadores políticos de Lula foram para tática de ganhar apoio no varejo e em bases partidárias que não tinham compromissos algum com o projeto, a troca de favores e futuros financiamentos de campanha virou a moeda de troca, notadamente com o PTB de Roberto Jefferson, que foi o partido escolhido para desembarcar estes “apoios”. A lógica traçada por Zé Dirceu deste tipo frágil de apoio desembocará no Mensalão, o valerioduto criado pelo PSDB mineiro, foi amplamente usado pelos operadores Petistas, a grande diferença é que, no caso mineiro não havia interesse em denunciá-lo. No caso de Brasília tornou-se o escândalo nacional, a mídia amplificou as denuncias, CPIs e toda sorte.

Por um erro tático de FHC e aliados, que achavam que Lula iria sangrar em praça publica e desagregar seu governo, ele não foram à frente com o impeachment. Por esta lógica qualquer candidatura de oposição bateria Lula no primeiro turno, este foi refresco melhor que Lula poderia receber.

Que conjuntura é esta?

"Ouça-me bem, amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos"

Vai reduzir as ilusões a pó

Em recente Post coloquei minha visão sobre o Governo Dilma e seus primeiros desafios, não pretendo ditar a verdade, mas abrir um debate sempre franco com esta parte da esquerda que pensa com mais com estrategia o futuro, que dar o bom combate, que não se furta de criticar, não diz amém. Mas ao mesmo tempo não é sectária e estreita, que sabe dos percalços de um governo de esquerda dentro da lógica capitalista.

Os desafios estão colocados, vamos abrir o debate, não acredito que depois de vencer a Direita agora abramos mão do Governo que nós elegemos, ao contrário do Maurício acho que a "primavera digital" nem se abriu no Brasil, temos muito a percorrer. Voltemos à razão cada um aqui tem sua importância política, mas não somos os donos da verdade, esqueçamos os excessos causados por um debate desgastante e sigamos juntos e em frente. Abraços fraternos e camaradas sempre.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A herança ideológica que nos embrutece

"Meu caro amigo,toda a teoria é névoas; auriverde só a árvore da vida" ( Fausto - Goethe)

Mídia tradicional X patrulhamento ideológico

A perda de credibilidade da mídia tradicional, em particular no Brasil, deve-se não apenas por sua ideologia política, mas fundamentalmente por abandonar a busca da “verdade factual” – ela prioriza muito mais a sua ideologia a informar fatos e seus desdobramentos e significados na vida. Perde assim o monopólio da informação ou a fonte mais corriqueira de busca sobre os fatos.

Ao perder este monopólio, o que levou à perda de audiência, venda de jornais e revistas, cai o fundamental: receita. Por conseguinte, blogs, portais estão sendo alvos constantes do patrulhamento político e ideológico da velha mídia.

No entanto, do lado de cá estamos estreitando diálogo com setores e pessoas no mesmo patrulhamento político, ideológico e comportamental: ler os jornais ou ver TV é motivo de chacota e policiamento, como se conseguíssemos superar nossos próprios limites informativos ou produzir algo estruturado o suficiente para fazer-lhes frente.

Questão intelectual hoje

O pessoal comemora o sumiço do Diogo Mainardi da Veja, mas deveria entender que ele é apenas reflexo do refluxo intelectual dos dois lados. A direita teve intelectuais brilhantes, hoje se contenta com histriônicos como Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Miriam Leitão, Waak, Jabor, Sardenberg, pior, leva-os a sério.

Estou muito preocupado com nossa formação intelectual à esquerda, vivemos uma época muito pobre  intelectualmente, reflexo direto das quedas dos muros, Berlim e Wall Street. Os dois lados perderam pesadamente. Mas, do nosso “lado” a coisa continua mais complicada de se retomar, vejamos:

1)  A velha esquerda trotskista que se julgou vencedora com a queda do Muro de Berlim foi incapaz de apresentar qualquer projeto de sociedade socialista e democrática que animasse aqueles países da justeza de suas críticas ao stalinismo;

2) A velha esquerda stalinista, quase enterrada em 89, ressurge pós-queda de Wall Street, mas também não traz projeto de sociedade socialista que rompa com seu passado de crimes e erros na ex-URSS;

3) A direita que nadou de braçada nos anos 90/00 vive uma crise sem precedente, mas mantém controle social por falta de alternativa absoluta e não surgimento de uma nova esquerda;

4) Vivemos a contradição de termos uma vaga histórica à esquerda aberta, desde 2008, mas não temos projetos alternativos;

Portanto, não adianta festejar a crise da direita se não somos capazes de ocupar este espaço, faltam-nos teoria e prática revolucionária. Aqui as nossas heranças, trotskista ou stalinista, impedem qualquer avanço; a dificuldade de dialogar e o sectarismo tornam pejorativo o debate. Caímos muitas vezes nos jargões e estigmatizamos e, qualquer pensamento crítico, os que discordam destas correntes, estreitas e medíocres, são logo qualificados de “direita”.

Volto mais uma vez ao mestre William Shakespeare e a sua mais profunda obra, Hamlet. Neste dialogo entre Horácio e Hamlet, este critica fortemente certos costumes do povo dinamarquês – bem, parece que ouço no meu ouvido as mesmas palavras sobre os nossos próprios costumes:

Horácio – Já? Não ouvi; então não falta muito para

que o fantasma volte a aparecer-nos.

(Toque de trombetas e tiros de canhão atrás da

cena.)

Que significa esse barulho, príncipe?

Hamlet – O rei está acordado e dá banquete. Bebe a

valer, rodando tudo em torno. Cada gole de Reno é

por trombetas e timbales marcado, que o triunfo do

brinde lhe proclamam.

Horácio – É costume?

Hamlet – É, de fato. Mas a meu ver – embora aqui eu

tivesse o berço e a educação – é um desses hábitos

cuja quebra honra mais do que a observância. Essas

orgias torpes nos difamam de leste a oeste, junto aos

outros povos. Só nos chamam de bêbedos, alcunha

que nos deprime, por privar os nossos

empreendimentos, ainda os mais brilhantes, da

essência medular de nosso mérito. Isso acontece às

vezes noutros meios: se nasce alguém com algum

defeito ingênito – do que não é culpado, porque a

origem para si não escolhe a natureza, pelo excesso

de sangue, que, por vezes, os fortes da razão e os

diques rompem, ou somente por hábito, que estraga

a moral cotidiana – esse coitado, que leva pela vida

tal defeito, seja mancha do acaso ou vestimenta da

natureza, embora suas virtudes sejam tão puras

quanto a graça e em número infinito, no máximo de

nossa capacidade, perde no conceito geral por essa

falha. A massa nobre se torna recalcada e diminuída

pelo grão do defeito.



Os grifos são meus, para ressaltar que temos que romper com velhos hábitos, frutos de uma herança que nada nos dignifica, só nos empobrece, quando não nos embrutece mais ainda. Construir uma nova esquerda, um novo pensamento, uma nova prática, nos livrando de um passado funesto. Retomar o velho Marx, seus textos, que cada dia menos conhecem, abrir nossas mentes para a cultura, nos livrar do “Google” e dedicar mais tempo à teoria e a pratica humanista.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

#VazaKassab - SP 6 anos sem prefeito

Este blog não pretendia fazer análise de conjuntura ou de temas do cotidiano, dos 72 post publicados, pouco mais de 15% trata de temática corrente, porém devido ao caos generalizado que a cidade de São Paulo foi submetida nestes últimos seis anos resolvi através de fotos e recorte jornais  mostrar minha indignação com a indiGestão Demotucana.


(foto via celular na Faria Lima por  DanielaAF 16/02/2011)


(Foto via Celular 16/02/2011 21:00 Caos no trânsito, dois sinais atrás marrozinhos multando tranquilamente)


(Sinal de Trânsito quebrado num cruzamento da Av Indianopólis , sem ninguém para orientar..seja o que deus quiser)

A indiGestão DemoTucana

Durante a campanha para prefeito em 2004, Serra assinou documento e disse no debate na Band:


Claro todos sabemos que ele usou a prefeitura como mero trampolim, ficando apenas 1 e 3 meses no cargo, assim como no Governo de SP que também não cumpriu mandato. Ora, ao ficar temporariamente na prefeitura Serra nunca se inteirou dos problemas efetivos da cidade, montou uma equipe de "transição" para novos vôos e no fim deixou um "presente de grego" ao povo paulistano:  Gilberto Kassab.


(criador e criatura)

Kassab é cria de Guilherme Afif Domingos, herdeiro do espólio da Arena e malufismo, foi secretário de planejamento(???) da gestão, advinhem..Celso Pitta, ou seja, teve grandes professores na sua formação de "administrador" público. Recebeu o cargo de Serra e foi tutelado pelo Tucanato que manteve o controle das principais secretárias, virou uma espécie de rainha da Inglaterra e desde o Palácio dos Bandeirantes,  Serra mandava na prefeitura.

Num gesto de total desrespeito ao seu próprio partido, Serra apoiou a reeleição de Kassab, mesmo Alckmin sendo candidato do PSDB. Com uso violento das máquinas estaduais e municipais, somada a mídia camarada e contando com o ranço anti-petista, Kassab, assim como Pitta, um ilustre desconhecido, torna-se prefeito eleito da maior cidade do país. São Paulo é pródiga em eleger a Direita mais raivosa, Jânio, Maluf, Pitta e por fim Kassab.

A desconstrução de Marta

A indiGestão Serra(o breve) e Kassab é uma mistura de incompetência e arrogância. Logo quando assumem tentaram acabar com o Bilhete Único, um dos mais bem sucedidos programas sociais de inclusão do Brasil. Como houve grande rejeição desistiram, não sem antes diminuir o alcance cortando de 4 horas o uso para 1:30, depois próximo a nova eleição novamente aumentado para 3 horas.

Esta dupla ainda acabou com as ampliações do corredores de ônibus que fez diminuir o tempo de deslocamento da população da periferia rumo ao centro da cidade e a prioridade das vias para transporte coletivo em detrimento do individual. A visão liberal radical que prioriza o individuo fez que abandonassem o projeto de grande alcance social.  O preço exorbitante da passagem de ônibus demonstra a falta de compromisso com a população que depende deste meio de transporte.  A frota envelhecida quebrada e lotada compõe este cenário triste.

Houve ainda o abandono dos CEU, a grande obra de educação da gestão Marta, em nome do "controle de gastos" mais uma vez o social foi abandonado. Os CEU projetados foram sendo paulatinamente esquecidos, os existentes perderam o fôlego e as constantes atividades culturais e de inclusão foram sendo cortadas sistematicamente. A merenda escolar de qualidade, os uniformes , livros, tudo isto foi sendo cortado ano a ano.


(fonte Agora)

As obras de combate às chuvas, os piscinões foram deixados de lado, a varrição foi diminuída, até a coleta seletiva de lixo não está sendo feita de forma séria. O que se ver hoje das inundações na cidade em qualquer chuva, além do fato de chuvas em excessos tem o componente de abandono da política de combate as mesmas. As ruas nunca estiveram tão esburacadas, os sinais de trânsitos quebram em qualquer chuva, pequena ou grande. A CET é orientada pra multar, chega a ser revoltante o sinal quebrado e os marronzinhos com a caneta multando sem controlar o trânsito.


A demagogia da campanha de 2004 de acusação midiática de "martaxa" em particular na Taxa do Lixo, esta foi suspensa, mas os valores foram incorporados ao IPTU. Para pior houve uma política de aumento violento no IPTU com a correção da base do valor venal, nos últimos 6 anos o aumento do valor é espantoso, em alguns casos em mais 100%. Houve um abandono da política do imposto progressivo, e na base liberal de que todos são "iguais" se cobra por inteiro, não na medida das desigualdades.


As políticas sociais e até as reformas urbanas mais simples foram trocadas por empreendimentos imobiliários, a situação do centro de SP é vexatória, a cracolândia é uma mácula no coração da cidade, os prédios abandonados, feios e sujos e o pior uma grande população que não tem onde morar. Na periferia e nas favelas muitos incêndios pra lá de criminosos, foram mais de 70 ocorridos apenas em 2010. As enchentes nos bairros pobres fruto da irresponsabilidade do fechamento de comportas pela Sabesp para não inundar a marginal Tietê deixou dois bairros alagados por mais de 100 dias.


(Jardim Pantanal)

São Paulo tem prefeito??

Nesta triste situação chega-se a um impasse na cidade de São Paulo e a uma pergunta SP tem prefeito? Minha modesta opinião desde 2005 esta figura não existe, mesmo nos bairros mais ricos é visível a decadência dos serviços públicos, está mais do na hora de SP se levantar e Gritar: #VazaKASSAB  a cidade não dará conta de mais 1 ano e 9 meses sem gestão pública.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Dilma e os seus primeiros desafios

"Deus me acuda! A arte é longa, a vida breve." (Fausto- Goethe)





“Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo”, era assim que o grande Fiori Giglioti iniciava sua narração dos jogos esportivos, e é assim que vivemos este inicio do governo Dilma: estamos com 1 minuto do 1º tempo e já tem torcedor chorando a derrota. Normal se fossem os derrotados do ano passado, mas, pior, é parte dos vencedores.

Governo de coalizão é um estica e puxa, as peças do tabuleiro foram mudadas, algumas excelentes mudanças que podem confirmar uma ótima expectativa, tais como:

1)   Ministério das Comunicações com Paulo Bernardo e a trupe da Banda Larga, que pôs no debate já a questão da nova lei dos meios. Mudanças na ECT, que foi sempre o calo do governo Lula;

2)   Ministério da Saúde com Alexandre Padilha, que chegou montando uma renovada equipe e com substancial aumento no orçamento, de 66,9 bilhões para 77 bilhões (previsão), e também sinalizou a necessidade de valorizar o SUS. Troca de comando na Funasa, fonte de corrupção;

3)   Mudanças em Furnas, antigo feudo que também era fonte de problemas graves no governo Lula;

4)   Educação: a continuidade de Haddad, que faz excelente trabalho no MEC, mantendo e aumentando seu orçamento, ampliando o Fies e as vagas do Enem.

Mas há mudanças que nos preocupam:

1)   Previdência entregue a Garibaldi Alves, depois de excelente trabalho de José Pimentel;

2)   SAE entregue ao Moreira Franco;

3)   Cultura: depois dos acertos de Juca Ferreira houve uma mudança de linha com Ana de Hollanda, que tanto tem ouriçado os companheiros do Creative Commons;

4)   Relações Exteriores: saída de Celso Amorin deixa um vácuo pelo excelente trabalho e sua imensa capacidade dar respostas às crises internacionais; faltou no episódio do Egito e das revoluções em curso no mundo árabe;

Claro que este começo é tudo muito novo, mas esta nova equipe vem em sua maioria de uma ótima experiência sob a batuta de Lula, e agora terá que mostrar serviço com a presença de Dilma. Recentemente o ministro Paulo Bernardo, no #navaranda, definiu bem as diferenças de estilo entre ambos, dizendo que Lula cobrava muito, desde a época do PT, e que na presidência passou parte desta cobrança para Dilma. Agora que ela é a presidenta, naturalmente delegará provavelmente a Palocci esta missão, de saber o dia a dia dos ministérios.

Nos primeiros embates de formação da equipe Dilma sinalizou uma mudança na relação com o PMDB, tirando-lhe funções estratégicas e problemáticas (ECT, Furnas, Funasa), gerando estresse já nos primeiros dias; a imensa maioria dos cargos continua sem nomeação, mostrando uma disposição de não se negociar no varejo, mas uma perspectiva mais clara de partilhamento do governo feitas em cima de compromissos e projetos.

Episódio recente da tentativa de Moreira Franco de controlar o IPEA, numa suposta demissão, via imprensa, de Marcio Pochmann, serve para deixar claro quem está no comando, como se constrói a autoridade.

Visões à  Esquerda e à  Direita

"Vibra meu canto agora a ignota multidão,

cujo aplauso, ai de mim! me aperta o coração;

e os a quem meu cantar outrora foi jucundo,

erram, se inda alguns há, dispersos pelo mundo"

(Fausto - Goethe )

Direita e mídia tentam fazer um contraponto Dilma x Lula, com a clara visão de diminuir o papel de Lula, ou de jogar um com o outro. Sintomático que o Invejoso FHC tenha dito que “só em não ver Lula todo dia na TV” se sentia “melhor” (ato falho de inveja mais descarado que vi na vida). Todo dia um “colonista” escreve loas a Dilma como forma de desancar Lula -- claro que Lula e Dilma devem estar dando risadas, pois ambos trabalham afinadamente desde 2003.

Os mais apressados à esquerda já condenam como governo de retrocesso, alguns até votaram em Dilma, a maioria no fundo sempre fez oposição ao governo Lula: não esperaria nem dois dias para “marcar posição”. Engraçado que elogiam Lula em detrimento de Dilma...

Apenas para relembrar: o PT e parcela significativa da esquerda chegaram ao Governo, não exatamente tomou o Poder, administra o Estado burguês. Claro que estão suscetíveis a vacilações, às pressões à direita e à esquerda. Cabe a nós sempre polarizar para políticas públicas que avancem na consciência e luta dos trabalhadores, criticar e dialogar francamente, compreender passo a passo cada conjuntura, cada cenário que se apresenta, para uma intervenção política mais forte e classista.

Nossa agenda


Aos apoiadores de Dilma, que estão no campo da continuidade das mudanças começadas com Lula: temos muito, mas muito a fazer, temos que elencar a nossa real agenda, e sair deste tiroteio de 3º turno inexistente. A agenda “Mico” não pode substituir a nossa real preocupação com o futuro.

Eis alguns temas candentes:
1)  Relação do Brasil com G20;
2) Questão da nova guerra cambial/comercial;
3) Recomposição de forças no cenário nacional, novo pacto federativo com reforma tributária;
4) Pré-Sal e seus ganhos para a sociedade: Educação, Saúde e erradicação da pobreza;
5) Reforma política e relação partidária no Congresso;
6) Tecnologia: PNBL, AI5 Digital;
7) Marco regulatório das comunicações;
8) Voltar aos padrões civilizatórios de convivência social, condenação cabal às manifestações neofascistas, com punição exemplar a quem as pratica;

São grandes temas que discutiremos pouco e darão o corte no novo momento que passaremos a viver. A perspectiva de Dilma fazer um governo mais “técnico” com composição mais preparada para dar respostas políticas, mas principalmente técnicas aos grandes temas, deveria ser nosso norte.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A internet deve ser controlada?Existe cybercrime?

Liberdade e Responsabilidade

Ontem houve um intenso debate no Twitter  sobre a questão do “controle” ou “regulação” da Internet, ainda rescaldo da campanha eleitoral passada e dos seguidos casos de intolerância cujo alvo último foi o pedido, ou desejo, ou brincadeira (de mau gosto) para que a Presidenta Dilma fosse assassinada à La Kennedy.

Porém este debate já vem desde o projeto de Azeredo de controlar quem acessa a rede, identificação completa de cada usuário pelo servidor, bem como a completa base de informações sobre seu “comportamento” na rede. Este projeto é muito similar ao que foi recentemente aprovado na França e que, implicitamente, já vigora no EUA com Patriot Act, pós 11 de Setembro, tendo esta semana se ampliado ao controle de contas e acessos ao Facebook e Skype.

Tentarei escrever sobre estes temas com duas fontes: 1) Constituição Federal (CF) e 2) Código Penal (CP), pois quando se defende as várias condutas humanas na via virtual, teremos como norte balizador os dois diplomas legais, reais, que devem permitir ou proibir condutas.

Constituição Federal e a Dignidade Humana

O norte maior da Constituição foi a Dignidade da Pessoa Humana assumida como valor fundamental constitucional. Aliás, este deve ser o norte do nosso debate, antes de pensarmos em crimes ou quaisquer derivações da ação concreta dos internautas deveram pensar se está em desacordo com a dignidade humana, se há respeito e não atentem contra ela.

A Constituição Federal tomou para si alguns temas centrais que poderiam ser albergados por leis infraconstitucionais, mas fez bem, pois esta foi produzida pós-feroz ditadura que impôs 21 anos de exceção legal. Ao se levar à CF cria-se natural dificuldade de mudar estas disposições, pois o esforço parlamentar é alto, necessitando 2/3 para que se a emende, noutros casos, tornado cláusulas Pétreas apenas nova constituinte para modificar tais dispositivos.

Mesmo a questão da ampla liberdade de expressão, de idéias que é título consagrado na CF é relativizada se por acaso atentarem contra outros valores como a individualidade e o respeito, cabendo a ampla reparação quanto ao mau uso desta garantia.  Leiamos os princípios diretamente na CF:

Art. 5º

IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;

IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;

XII - é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal; (Vide Lei nº 9.296, de 1996)

Aqui acho que responde boa parte das questões suscitadas pelo debate de ontem, o nosso maior Diploma já assegura tanto a ampla liberdade como a devida reprimenda quando se ultrapassa este limite dando causa à devida reparação.

Questões Criminais,  Cybercrime(??)

Quanto às questões criminais parto da definição mais simples do que é Crime - Fato Típico + Antijurídico -  esta soma é sua lógica de existir, ou subsistir o caso. Sem estas duas pontas não teremos como classificar como conduta ilícita.

Apesar de o Código Penal ser bastante antigo, data da década de 40, 70 anos atrás. Entretanto ele é bastante amplo e com várias atualizações pontuais, particularmente, não conheço nenhum crime inaugurado pela internet que o CP já não o tipifique, mesmo que lá não tenha a nomeclatura “Internet” por analogia a conduta é extensiva a este meio.

Exemplo simples violação de correspondência, antes era caracterizado por violar carta, memorando, depois fax sílime, hoje correio eletrônico (email), nada que não conhecêssemos mudou apenas o meio de circular a “correspondência”.

É certo que é diferente hoje, quando se cometia os crimes contra a honra (calunia, injúria e difamação) a boca pequena num bar, reunião, ou mesmo em jornais. Claro que quando se trata de internet a um amplo alcance, são rastros indeléveis, mas as mesmas punições podem se basear no capítulo dos crimes contra a honra do CP, somado à CF.

Muito acham que há novas modalidades de crimes na internet, penso eu , que na verdade há maior pontencialização dos efeitos, mas as condutas estão todas previstas, o que precisamos é garantir a punição, tanto a real, quanto a virtual.

É obvio que nos indignemos quando nos sentimos ultrajados de forma ampla, como acontece aqui, mas isto não nos torna justiceiros sociais, temos que confiar que a punição será igual a real.Especializar polícia, promotores e juízes para que entendam os filigramas e as sutilizas dos crimes cometidos no ambiente virtual.

Entendo que não existe cybercrime, como conduta diferente, ou criminalizar especialmente apenas o meio é que é diferente. A Internet é um ambiente fértil para produzir amplo conhecimento, sociabilidade, valores, solidariedade, como nunca visto na história humana, mas temos que entender que ela é feita por gente, por homens com os mesmo vícios e erros da sociedade que vivemos, ela não é ambiente extra-social, paralelo, é extensão da vida real, trazendo para dentro as relações de força e poder da sociedade real.

As normas de conduta sociais, nacionais e trasnacionais estarão acompanhando sempre nossos passos, não adiantando a criminalização a priori ou a banalização das condutas criminosas, este ethos de convivência somos nós seres humanos, políticos, cientistas, leigos que daremos sempre.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Por que somos Machistas: razões históricas e culturais







Dediquei-me estas duas últimas semanas a encontrar saídas e apaziguar os ânimos dos debates que surgiram pós-publicação do post no Blog do Nassif sobre as feministas.

Concordo em boa parte com os termos que o Renato Rovai escreveu para que não tratássemos a polêmica de forma a nos levar a ruptura desta rica experiência de blogs e pessoas de distintas formações que juntos contraíram o encontro de nacional.

São normais as polêmicas, não estamos numa confraria, temos vários acúmulos e distintas visões de sociedade e de futuro, mas entre nós estas polêmicas dever ir à direção, é o que defendo, da construção de acordos e convivência solidária e de mobilização para defesa das conquistas sociais, tão atacadas.

Como sempre faço como tenho pouco domínio do tema, procurei algumas razões histórica, culturais do machismo é o que segue.



Grécia nosso berço ocidental









Recente publiquei um post no blog sobre Zeus o Deus-Pai, ou o Deus Estado, aquele que concretiza o poder do Homem, macho, na cultura grega, a longa jornada de centenas de anos desde os deuses primitivos ao mais elaborados está diretamente ligado também a passagem da sociedade matriarcal a um novo poder estabelecido: O Patriarcado.

Como ressaltamos este longo período de maturação histórica a forma de representação divina cada vez mais se aproxima do rosto e formato humano.

As comunidades que lutavam para apenas “sobreviver” estavam ligadas ao cultivo da terra, pecuária e a pesca. Suas divindades representam exatamente este caráter de subsistência.

As primeiras deusas são as de fecundidade, Geia (Gaia-Terra) que tudo cria e dela mesmo gerado o céu com este reproduzirá tudo o que é vivo: Mar, Montanhas, arvore e rios. Seu culto é a ligação à terra que tudo dar e reproduz papel fundamental da mulher na definição da estrutura social, é dela que vem a vida e a possibilidade de continuar a existência.

Pus em anexo um longo artigo em que recortei da obra de Junito de Souza Brandão sobre mitologia grega, lá as principais deusas e sua importância para o mundo Grego. Deusas e divindades femininas e suas significaçõe1

A representação feminina, deusas e arquétipos vão migrar conforme a sociedade vai se dividindo em classes e o papel do homem passará a ser preponderante, a ligação à terra permanece forte mas o surgimento da polis(cidades) já traz um novo tipo de agrupamento.

Conseqüentemente os deuses primitivos já não respondem aos anseios deste novo homem, ele passa olhar para estrelas, planetas e seus deuses são fundamentalmente “masculinos”: Urano, Cronos(Saturno) e Finalmente Zeus(Jupiter – Ju (deus) Piter (pai).

Esta nova cosmogonia está intimamente ligada ao destino da Polis, a educação, o poder as artes e cultura, conforme demonstramos Zeus é o ápice pagão, para o mundo grego, politeísta. Zeus já é quase um deus único os demais são submetidos a ele, a reunião das cidades-estado também fundará o estado coligado, federativo grego com a liderança política ateniense.


Pós-Grécia

A diminuição do papel feminino será radical na cultura grega, sua sucessora Romana e por toda cultura ocidental que beberá desta fonte.

Pouco ou nada ajudará a condição da mulher quando o cristianismo toma lugar na religião estatal romana, perdurando por séculos a decadência e as novas sociedades que irão surgir na Europa séculos depois.

Este longo hiato cobrará um preço alto na sociedade capitalista, particularmente na segunda metade do Século XIX, quando as mulheres são levadas ao mercado de trabalho, os novos desafios e direitos sociais e a condição da mulher terá que ser revista pela sociedade do “Homem”.

O movimento socialista abraça a causa e as lutas dos trabalhadores em geral e das mulheres em particular, lutas como direito ao voto, representação será um amalgama desta união.

Obviamente que todas as demandas represadas por mais de 2 milênios de dominação do macho não se resolverá nos marcos de uma sociedade divididas em classes, cujo maior fundamento é lucro.

As novas demandas sociais







A longa luta do Século XX as experiências da revolução russa, a necessidade de concessões burguesas, particularmente na década de 60, fez avançar a luta e o reconhecimento de diretos femininos mais amplos.

Mesmo assim já neste novo Século/Milênio as mulheres se sujeitam as condições mais precárias no mercado de trabalho, na hierarquia social e no reconhecimento de suas conquistas. A sociedade capitalista continua explorando amplamente os trabalhadores, mas duplamente as mulheres.

Obvio que nós, frutos desta sociedade machistas, mesmo militantes nos equilibramos/desequilibramos em reconhecer as legítimas e fundamentais demandas feministas. Somos pouco afeitos a entender a lógica própria desta dinâmica de exploração. A violência, a exploração sexual, o sexismo, são a forma última da dominação nossa, dos machos.

A ampla reparação rumo ao reconhecimento igualitário da luta da mulher passa por nosso próprio aprendizado, nossos limites. Não deixaremos de ser machistas por um passe de mágica, vamos errar feio em muitas coisas, mas o importante é querer mudar e acertar.

Os ânimos ficaram exaltados nestas últimas semanas aqui na Blogsfera, ou blogsferas como preferirem, que tem um corte mais à esquerda, furto justamente deste desconhecimento próprio do que são as demandas e como tratar as diferenças de gênero, neste bojo deveria ser incluído as questões dos negros, do homossexualismo e a liberdade de expressão.

O chamamento que fiz por várias vezes no Twitter para que construíssemos um ambiente de debate, inclusive, claro, das grandes diferenças seria uma forma de avançar, não de abafar as manifestações justas de revolta que as mulheres que se sentiram ofendidas.

Meu blog fica aberto a publicações que se propõem a debater as mais variadas posições, sempre tendo como norte a ruptura com a sociedade de classes, movimentos que avancem as conquistas sociais em geral e dos mais excluídos em particular.