sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Jericoacoara e Pilar del Río: Paixão e Emoção

(escrito durante Vôo Salvador -BH-SP)

Quando estou num avião raramente ligo o computador, espaço ruim, inadequado para ler ou escrever, em geral leio as revistas da companhia e/ou as minhas próprias. Como de costumes peguei a revista da Tam e li a reportagem sobre Kenzo Takata, estilista japonês que se erradicou em Paris e brilhou na moda por seus vestidos e seus perfumes, bela história. Porém as matérias sobre Jericoacoara e Pilar del Río me fizeram escrever este post.

Jericoacoara: A visão do Paraíso na terra



Aí mais em frente leio a reportagem sobre Jericoacoara, esta praia faz parte de mim por fatores totalmente estranhos  e engraçados. Quando tinha 5 anos minha mãe, que era diretora de uma escola pública em Bela Cruz, local que nasci, organizou um passeio a Jeri em comemoração ao dia dos professores, isto foi em 1974. Lembro que fomos todos numa noite,era uma sexta, no caminhão do meu pai  adaptado com bancos na carroceria para nos levar até lá.

A viagem,cerca de 60 km foi muito animada, professores declamando poesias ou cantando, meio sem querer eu acabei cantando o “sucesso” da época: “o gato preto cruzou a estrada, passou por debaixo da escada”...(Secos e Molhados), Naquela noite de lua e estrelas nunca saiu de minha memória(talvez tenha sido porque fui muito festejado cantando versos trocados).

Ali começou minha relação com Jeri e suas muitas histórias, a da lagoa que se abria a noite e saía uma mulher que seduzia os homens, que os levava até sua areia, e a lagoa aberta enganava p incauto atraído pelo desejo provocado pela “Iara” entrava e quando se davam conta estavam afogados pela paixão. Esta lenda povoou meus pensamentos por muitos anos. Meu pai contava esta estória, certa vez um amigo acabou escrevendo uma peça para grupo de teatro da Escola Técnica.

Dali outra grande lembrança foi em Novembro de 1987, Jeri já fora descoberta pelos primeiros turistas, saí de Fortaleza e me aventurei sozinho até lá. Viagem cheia de significados, fui de ônibus até Gijoca, cheguei lá bem tarde, procurei uma caminhonete que fazia a última parte do trajeto. Subi na carroceria, surpresa, meu amigo de infância era o motorista e seu primo o “cobrador”, velhas história e lembranças, mas primeiro sinal de que tudo mudara. Ele se juntou a uns turistas e começaram a enrolar “baseado”.

Jeri, já não era mais aquela vilarejo que fora tragado pelas dunas muitas vezes, já tinha pequeno comercio e pousadas. Antigos pescadores que meu pai muitas vezes ia buscar peixes para levar para Fortaleza, já não pescavam, os “currais” para pesca tinham sido destruídos e o peixe estava longe do litoral, tinha que se aventurar ao mar em busca dele. Muitos tinha adaptado suas casinhas simples para alugar quartos ou até apenas rede no quintal.

Duas coisas inesquecíveis o mais lindo por do sol da minha vida nas dunas, 8/11/1987, sol se pondo no mar como se fosse mergulhar na linha do horizonte, do outro lado olhando por trás das casas do vilarejo uma lua imensa prateada subindo lentamente. Ler a matéria e lembrar destes dois fenômenos me fizeram vir as lágrimas.

Pilar del Río



Páginas depois leio sobre Pilar del Río a grande companheira de José Saramago. Quem está propenso a chorar nada melhor do que ler sobre ela e seu relacionamento com ele. Pilar e Saramago se conheceram por acaso e viveram uma grande paixão, mesmo sendo bem mais velho que ela(28 anos) ela lhe floresceu o coração e alma.

Mudaram-se para Lanzarote nas Canárias em protesto por Portugal negar prêmio ao Livro “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, uma intolerância sem medida. Aí relembrei como degustei cada palavra, e as poucas vírgulas e pontos deste grandioso livro. Pensei que Saramago fê-lo de propósito para nos tirar sempre o fôlego e não deixar parar a leitura.

As luzes que Pilar viu sobrevoando Lanzarote, me fez lembrar a luminosidade que senti em Jeri em 1987. Mulher apaixonante, que viveu um amor por toda vida, as formas e dedicatórias dos vários livros que Saramago lhe fez mostram este grande amor, até na frase dele em reclamar por que Pilar “demorou tanto a aparecer em sua vida” me emocionou.

Outra coisa que li deles e fiquei tocado foi Saramago parar os relógios da casa às 16 horas em homenagem ao horário da primeira vez que olhou para Pilar, tem coisa mais apaixonada que isto?

Muitas vezes não nos damos conta de momentos incríveis que vivemos ou lugares que conhecemos, mas, invariavelmente, em algum lugar da memória elas ficam guardados e são despertados vivamente e nos emocionam profundamente.

Quem não leu Saramago acorde, ainda há tempo e muita razão para fazê-lo. E quem nunca foi a Jericoacoara não deixe ir, escolha um dia de lua cheia, talvez no primeiro ou segundo dia, tenha certeza que você nunca esquecerá do que verá, ah sim como diz a matéria, pode bater palmas à vontade quando o sol avermelhado sumir no mar, deus sabe que é agradecimento pelo espetáculo.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Debate pós-eleitoral: não a agenda "Mico"





Eleição e Projeto políticos





O que estava em jogo nesta eleição era a possibilidade de avançarmos o debate político-ideológico com as manifestações Neoliberais decadentes no mundo, mas que ainda resiste no Brasil num setor do centro-direita e com ampla campanha da imprensa local. Enquanto o mundo se desloca das alternativas de estado mínimo, a agenda da direita apoiada na imprensa é a mesma pré-setembro de 2008.

Pela primeira vez os projetos alternativos voltam ao palco no Brasil e no mundo depois de 19 anos de massacre e pensamento único, a Direita tinha seu projeto e era incontestável, hoje ela não tem projeto, apenas administra (mal e porcamente) a crise gigantesca, mas ainda não achou um novo cabedal político e ideológico para ancorar.

À esquerda na sua longa crise letargia ainda não forjou um novo paradigma na luta contra o capital, aqueles (trotskistas) que achavam que a revolução se abria não conseguiu encontrar seus “novos/velhos Soviets” nem a Direita achará seu “Estado de Bem estar Social”.

A questão é complexa para os dois lados, buscar teoria já testada é necessário, porém mundo não é o mesmo de 1917 e nem anos pós-guerra. Este é desafio da Direita e o nosso da Esquerda: entender o mundo parece secundário, mas ambos (direita e esquerda) dão respostas com receituário velho para novas doenças. Agora empatamos o jogo, estamos sem armas e certezas absolutas.

Claro que a situação é melhor já não sofremos o massacre político-ideológico destes últimos 20 anos, mas também não nos conforta saber que fomos incapazes de repensar nossos conceitos, nem o velho Marx conseguimos entender. Neste tempo todo não termos feito nada de concreto, alternativo, apenas resistir é muito pouco.

Inflexão à Direita

Foi trazida de contrabando ao palco eleitoral deste ano uma inflexão da candidatura de centro-direita, representada por Serra, à Direita mais raivosa com algumas nuances Neofascistas, o debate foi empobrecido por temas de costumes (aborto, religião) e não políticos totalizantes como a questão do estado, da economia, perspectiva da relação do Brasil com o G20 e qual agenda para entrarmos noutro patamar de país que emerge do ambiente pós-crise de Setembro de 2008.

Rebaixado o debate político, talvez pela leitura de que seria impossível derrotar a candidatura do governista nos marcos de um debate programático mais elevado, mais ainda pela total falta de projeto alternativo ou que pudesse efetivamente se diferenciar, a opção foi reduzir e insuflar uma campanha que beirou ao ódio aos temas relacionados aos costumes.

Esta campanha muito lembrou a sucessão Clinton nos EUA em 2000, em que Al Gore, representante do governista, enfrentou um dura campanha difamatória, com estes temas moralistas, em particular o comportamento sexual de Clinton. A agenda política foi esquecida e num movimento esquizofrênico patrocinada pela Direita “pentecostal” levou Bush Jr a “ganhar” a eleição no Supremo.

Aqui a tentativa de tornar público o passado de Dilma para demonstrar que ela fez a luta armada, que era terrorista, combinada com a necessidade de dizer que ela era um “poste”, que seria manipulada por José Dirceu, por Lula, como se uma Mulher não fosse capaz de assumir o poder e dirigir o destino do país. Criou-se um caldo de cultura reacionário, apelativo, que muitas vezes fez submergir velhas forças de extrema-direita que sempre existiram em SP, mas que estava condenada ao gueto. A velha TFP, que auxiliou o Bispo de Guarulhos, com seus panfletos absolutamente vis, não por acaso impressos numa gráfica de membros do alto comando do PSDB, não deixam dúvida de onde partiu e se incentivou este caminho. É o que chamo de abrir a “Caixa de Pandora” do ódio, preconceitos regionais e de posições sobre sexo, aborto e vida.

Efetivamente estes temas que não deveriam ser o centro do debate político tomou proporções inesperadas e foi usado como arma constante pela candidatura Serra.  A tática do medo, do desprezo, desrespeito por Dilma foi um dos aspectos mais odioso desta campanha.


Quem quer 3º turno?





Passada a campanha, na minha visão, por volta de 90% das pessoas aceitam seus resultado e passam a alimentar a expectativa de como será o próximo governo, aqueles que não votaram em Dilma passar a ouvir não mais a candidata, mas a agora a Presidente eleita a encontrar pontos de contatos no que pensam e no que ela diz, há uma necessidade de se acomodar a nova situação, o que me parece bastante natural e maduro.

Dilma fez excelentes debates nos diversos jornais e TV pós-eleição que em grande parte chama a população para se reconciliar e olhar para o futuro. Ela dialogou com mais calma, mais propriedade e, claro, as pessoas estão mais desarmadas para ouvi-la. Tudo foi bem conduzido e nos dar uma esperança de que teremos um excelente governo.

Porém ficamos com 10% que em absoluto não aceita o resultado, parte e de apoiadores do Serra e parte são de apoiadores da própria Dilma.  Claro, que os do Serra, são plenamente justificados, perderam a chance de voltar ao poder, reclamam de Lula, não aceitam a derrota e, comandados pelas palavras do Serra, de que a “guerra” continua arrumam qualquer coisa para se manterem ativos.

Desta parte é bem representativa a Folha de SP com sua atitude quixotesca de lutar contra o PT virou sua bandeira. Isto se expressa no seu ataque ao ENEM, CPMF e sua atitude de tolerar e abrir espaço para manifestações neofascistas em suas paginas com matérias com representantes destas posições como se fosse democrático dar espaços a este tipo de gente.

Mas aqui vem o outro lado, numa atitude pouco inteligente, muitos companheiros continuam na trincheira e trocando “tiros” em particular na internet. Parece que não vencemos a eleição, temos que dar lição de civilidade. Cair nos debates rasteiros de um 3º me parece absolutamente fora de propósito. Ao invés de nos qualificarmos para fazer um grande novo Governo, nos rebaixamos a discutir temas secundários, fazendo-os crescer, e perdemos o foco.

Temas como o explosivo comportamento de ataques aos nordestinos, homossexuais, que a meu ver pode ir à direção também dos negros, judeus, ciganos etc. Devem ser entregues a PF e MPF, não pode transformar-se em nosso cotidiano ficar vigiando paginas destes celerados ou ficar dando-lhes  mais mídia. Minha visão é que devemos simplesmente ignorá-los não lhes dar NENHUMA publicidade, apenas fazer denuncias às autoridades competentes, senão viveremos de um comportamento insano de intolerância, não é nosso foco.

Nossa Agenda


Aos apoiadores de Dilma, que estão no campo da continuidade das mudanças começadas com Lula temos muito, mas muito a fazer, temos que elencar a nossa real agenda, e sair deste tiroteio de 3º turno inexistente, a agenda “Mico” não pode substituir a nossa real preocupação com o futuro, eis alguns temas candentes:

1)    Relação do Brasil com G20;

2)    Questão da nova guerra cambial/comercial;

3)    Recomposição de forças no cenário nacional, novo pacto federativo com reforma tributária;

4)    Pré Sal e seus ganhos para sociedade: Educação, Saúde e erradicação da pobreza;

5)    Reforma política e relação partidária no congresso;

6)    Tecnologia: PNBL, AI5 Digital;

7)    Marco regulatório das comunicações;

8)    Voltar aos padrões civilizatórios de convivência social, de uma condenação cabal às manifestações Neofascistas, com punição exemplar a quem as pratica;

São grandes temas que discutimos pouco e darão o corte no novo momento que passaremos a viver. A perspectiva de Dilma fazer um governo mais “técnico” com composição mais preparada para dar respostas políticas, mas principalmente técnicas aos grandes temas, deveria ser nosso norte.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

#Leucemia : Quando ela bate na sua porta!

Cantando espalharei por toda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho e arte.



(Lusíadas - Camões)

Preciso esclarecer alguns pontos antes de escrever sobre Leucemia:

1)    Este artigo não tem caráter científico, para que se interessar em conhecer mais profundamente a leucemia pesquisar no Site do INCA (http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/tiposdecancer/site/home/leucemia )

2)    Tem caráter pessoal de depoimento, de alerta e ajuda para aqueles que de repente se viram nesta situação de enfrentar uma doença grave e não saber o que fazer, ou a quem apelar;

3)    Tem também a necessidade de difundir a urgência em se ter doadores de medula, de sangue e/ou plaquetas, pois assim ajuda a salvar vidas;

É muito doloroso contar o que tenho vivido nestes últimos 5 meses, mas meu depoimento talvez ajude a esclarecer alguns mitos e também me ajuda a enfrentar esta situação.

Sintomas da Leucemia

Por volta da metade de maio estava em viagem a Belém, depois Recife, quando minha filha mais velha, com 12 anos e 6 meses, sentiu muitas dores nas costas de muita intensidade. Levada ao hospital num plantão noturno foi diagnosticada que seria uma dor lombar que com Tandrilax(analgésico) aliviaria as dores e depois um exame com ortopedistas ajudaria a desvendar a origem delas.

Semana seguinte, numa outra madrugada, novas dores, só que agora se localizava na região dos quadris e nas pernas, uma noite inteira acordados fazendo massagens  e ministramos Novalgina e Tandrilax, pois no dia seguinte teria a consulta com ortopedista.

Exame corporal nada constatou que houvesse problema de coluna ou nos quadris. Pedido exame de tomografia da região lombar e ultrassonografia das vias urinarias para ver se havia problema nos rins.

Feitos os exames, próximo ao retorno médico teve mais duas noites de muitas dores: costas, quadris, pernas e no estômago. Dia 11 de junho, muito abatida, levamos ao Hospital Santa Catarina por acharmos que talvez fosse anemia, pois estava muito pálida. Para nossa imensa sorte um médico muito jovem, provavelmente um residente, que fazia plantão, ao ouvir relato do caso, imediatamente pediu um Hemograma completo.

Três horas depois nosso mundo desabou: suspeita fortíssima de que ela estava com Leucemia. Resultado do exame apontou que leucócitos abaixo de 1000(normal entre de 4700 e 9100), Hemoglobina 7(normal entre 10 e 12) e plaquetas 9000(normal entre 150mil e 400 mil).O jovem médico foi bem claro que seria leucemia, precisava apenas confirmar o tipo.

Leucemia, e agora?

Ficamos absolutamente passados, nossa visão de Leucemia é ligada à morte, de câncer devastador, que deveríamos fazer? Uma sexta a noite, com quem contar medo de falar para pessoas e minha filha passar a ser estigmatizada. O que falar para ela, como segurar o choro diante dela? Toda nossa vida é repassada em poucos segundos, sem ter tempo de pensar racionalmente em nada.

No sábado uma Oncologista Infantil do Itaci (http://www.itaci-fc.org.br/conheca-nos.htm ) que também atende no Hospital Santa Catarina veio nos visitar e dar as primeiras ordens:

1)    Fazer mielograma e fenotipagem, exames que determinam se é leucemia e qual tipo de leucemia;

2)    Falou abertamente com minha filha do que se tratava e quais as conseqüências do tratamento, dependendo do tipo;

Claro que você tem que ter estresse com convênio para aprovação de exames, que são caríssimos e bem específicos, além de começar a se preparar para uma nova vida, com TODOS os desdobramentos.



Leucemia e quimioterapia



Imediatamente constatada a possível doença a internação foi exigida, rotina de dormir e acordar em hospital, família dividida entre casa, algum trabalho, levar e trazer roupas.

Começa a parte mais dolorosa fazer os exames indicados e esperar seus resultados, a leucemia tem basicamente 4 tipos:

1)    LLA – Linfóide Aguda

2)    LLC – Linfóide Crônica

3)    LMA – Mielóide Aguda

4)    LMC – Mielóide Crônica

Minha filha esta com a LLA cujo tratamento é feito com PoliQuimioterapia, que tem um procedimento de 120 Semanas de tratamento feito à base de Quimioterapia. Dividido em várias fases. Tal procedimento é conhecido como Protocolo Brasileiro com grande eficácia.

A primeira fase do tratamento é extremamente agressiva, com doses de quimioterapia a cada dois dias por 2 ou 3 semanas. A necessidade de “zerar” a medula, para que ela possa voltar a produzir sangue e plaquetas de melhor qualidade, além de controle para que as células cancerígenas não passem da medula ao Sistema Nervoso central.

Devido à intensidade do tratamento combinado com a extrema debilidade do paciente é comum bactérias e os perigosos fungos atacarem. Para nossa infelicidade no decorrer da 3ª semana começaram aparecer bactérias e febres constantes. Depois o pior dos casos um fungo muito resistente se instalou no pulmão, tornando o caso mais grave do que já era.

Por quase 3 semanas teve que ficar na UTI e passou a experimentar pesados e caros antifúngicos, num paciente normal com um mês qualquer colônia de fungos seriam debeladas. Ela tomou por mais de mês na veia e terá que tomar por via oral por mais 6 meses um antifúngico chamado Voriconazol (VFEND – Pfizer) que custa R$ 4500,00 por semana. Por ser medicamento oral o convênio não cobre (vejam a contradição se ela estivesse no hospital recebendo medicamento intravenoso, eles pagariam, custo intravenoso é o dobro, fora despesa de internação).

Tratamento muito Longo e mudanças no corpo e na alma

Em geral na fase inicial do tratamento há queda dos cabelos e o corpo incha devido ao uso de corticóides pesados e a retenção de líquidos, claro que isto para uma jovem linda de 13 anos é muito doloroso, abala confiança, fé, esperança. Tem que ser muito forte para aceitar toda estas mutações do corpo, pelo tratamento agressivo.

Os corticóides também dão crise de abstinência com uma vontade imensa de comer, quase insaciável, além de deixar muito sensível com nervos à flor da pele, mudança extrema de humor. Da alegria ao choro em questão de minutos. Dependendo do tipo do corticóide (são muitos que tem que tomar) os efeitos colaterais são ânsia de vômito e mal estar.

Talvez o que mais nos abala neste tratamento é o longo tempo para que se tenha a alta médica e claro, a possibilidade de acontecer uma recidiva da doença. Toda semana minha filha volta ao hospital para tomar doses de quimioterapia e fazer exames de sangue, Líquor ou mielograma.

Outro fator que engessa a vida é não puder se programa para mais de uma ou duas semanas, na semana que ela comemorou 13 anos ficamos na expectativa de que os exames fossem positivos para que ela pudesse curtir sua festa.

Solidariedade e Esperança



A rede de solidariedade que se abre com pessoas de quem você nunca ouviu falar que passa a rezar, orar, pedir por nós é uma coisa emocionante, os novos amigos que você encontra, os velhos amigos que voltam a conviver neste momento é algo espetacular. Mais de uma centena de colegas da empresa e amigos foram ao banco de sangue doar sangue e/ou plaquetas.

Claro que passamos a ter uma vida totalmente diferente, minha vida está bem dividida antes e depois do dia 11/06/2010. No entanto, todas estas mensagens de apoio nos motivam e fazem com que vivamos um dia após o outro.

Encontrei nas redes sociais (Twitter, Facebook) um ambiente de camaradagem, receptivo e esperança para que nossa luta seja vencida. São palavras de fé, carinho, amizade, não deixando que fique nenhum momento triste ou abatido.

Outro fator grandioso é a menina-mulher guerreira que minha filha se transformou, enfrenta de forma estóica, firme, sofre, mas não esmorece as centenas de picadas de agulhas no hospital, em 150 dias, até hoje, mas de 150 exames de sangue, ou as picadas de injeções que queimam e ardem, mas ela está sempre ali presente, suportando nos ensinando a sermos fortes, de que nós vamos vencer. Morro de orgulho chego a chorar de emoção, com esta Princesa, razão de nossa vida.

É uma rotina muito dura, que não se pode desanimar nem um segundo. A doença não tem causa raiz, ela simplesmente aparece de repente, NUNCA estamos preparados para um mal tão forte, mas vida, os amigos, principalmente minha Grande filha me ensina a enfrentá-la. Situação que não pudemos culpar ninguém, terceirizar o sofrimento, apenas viver de coração e esperança.

Por fim, apelo aos amigos e a todos que lerem o relato se compadecerem das milhares de pessoas que estão em busca de um doador de medula compatível, segue os links com explicação sobre doação. Pense que você pode salvar vidas com seu gesto.


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Obama e suas Derrotas

Segundo a mitologia Grega o Titã Japeto tinha dois filhos : Epitemeu e Prometeu. Prometeu previa o que aconteceria no futuro, sabedor, por exemplo de que Zeus iria aniquilar os homens ele roubou o fogo(ciência para uns, Espírito Santo para outros) e deu aos mortais, protegendo dos deuses vingadores. Quanto a Epitemeu ele sabia do passado, apenas lamentava os desastres ocorrido, acabou casando-se com Pandora e esta abriu a caixa dos males que recebeu de Zeus, trazendo as doenças, fome e miséria aos mundo dos homens.

Nós nos equilibramos entre Prometeu e Epitemeu, nas nossas análises, alguns tentando ver à frente, outros apenas lamentando o passado e sempre lamentando, ou seja casando com Pandora, ano passado escrevi o texto chamado: Obama e suas Guerra ( http://arnobiorocha.wordpress.com/2009/12/11/obama-e-suas-guerras/) em que mostrava o resultado do primeiro ano de Obama na Casa Branca. Houve uma piora sensível nas condições políticas e de governabilidade, acentuada agora pela imensa derrota nas eleições congressuais bianuais, com a perda da maioria na Câmara Federal e redução na maioria do Senado federal.

A pergunta fundamental é saber por que Obama perdeu estas eleições e tem cada dia menos chances de se reeleger? Algumas observações podem ajudar a responder:

1)    Partilha de Governo com os Clintons

2)    Economia continua com crise, desemprego piorou muito nestes anos;

3)    Política externa ruim com de perda de poder e influência no mundo;

4)    Falta de enfrentamento político com adversários;

A partilha de poder com os Clintons

Obama surge do nada, ganha da favorita Hillary a indicação do Partido Democrata. Uma hipótese pouco cogitada, seis meses antes, leva um negro à presidência. Vitória de um outsider total. Sem um pé na máquina partidária, dominada pelos Clintons, Obama faz um acordo cruel, entrega a Secretária de Estado, ministério mais importante americano, a sua adversária Hillary.

Enfrentando uma crise sem precedentes, Obama mais ou menos dividiu seu Governo em dois, no front interno liderado por ele, tenta aprovar reformas na saúde e recompor a economia em frangalhos. No front externo entregue a Hillary e os falcões mais reacionários, como boa conhecedora da máquina de guerra, Hillary tem seu desempenho facilitada pelos crescentes conflitos advindo da ampla crise financeira mundial.

Economia continua em crise, desemprego piorou muito nestes anos



Os principais ministérios(secretáias) e o FED são entregues aos falcões do Partido Democrata que pouco tem a ver com Obama, as desastrosas medidas de salvar os bancos falidos ainda na gestão Bush, foi aprofundada pelos assessores de Obama.

Os grandes bancos receberam pesados recursos do tesouro, sendo salvo os banqueiros, os megainvestidores, mas nada sobrou para os endividados em hipotecas, passou a idéia de que é melhor salvar os ricos, sem se preocupar com quem realmente perdeu tudo.

Depois da “crise” em recente pesquisa foi constatada que aumentou o número de americanos com mais de US$ 1 milhão em investimentos, situação análoga numa crise sem precedentes.

Mas a outra ponta da economia temos aumento no índice de desemprego e mais ainda o aumento drástico da população que recebe os Food Stamps ( programa equivalente ao nosso Bolsa Família, no final tem um link sobre o programa) de Fevereiro de 2010 a Outubro passou de 39 milhões 42,4 milhões de pessoas(quase 10%)

De acordo com o United States Department of Agriculture , as estatísticas para o programa de assistencia alimentar são os seguintes:
  • 51 por cento de todos os participantes são crianças (17 anos ou menos), e 65 por cento deles vivem em famílias monoparentais.
  • 55 por cento dos domicílios do vale-refeição incluem crianças.
  • 9 por cento de todos os participantes são idosos (60 anos ou mais).
  • 79 por cento de todos os benefícios vão para as famílias com filhos, 14 por cento vão para as famílias com pessoas com deficiência e sete por cento vão para as famílias com pessoas idosas.
  • 36 por cento dos agregados familiares com crianças eram chefiadas por uma mãe solteira, a esmagadora maioria dos quais eram mulheres.
  • O tamanho médio do agregado familiar é de 2,3 pessoas.
  • A renda bruta média mensal por agregado familiar do vale-refeição é de R $ 640.
  • 41 por cento dos participantes são brancos, 36 por cento são Africano-americanos, não-hispânicos, 18 por cento são hispânicos; 3 por cento são asiáticos, 2 por cento são indígenas, e 1 por cento são de raça ou etnia desconhecida.

Um relatório anual divulgado pelo USDA sobre a composição das famílias participantes do Programa Vale-Refeição é identificado como o Relatório de Características.

Em anexo vejam como funciona o Food Stamps( Bolsa Família) estupidamente chamada de Bolsa Esmola no Brasil.

Neste ambiente Obama jogou todo peso para aprovar uma espécie de SUS plano de saúde público pois cerca de 45 milhões de americanos não tinham nenhuma proteção hospitalar e assistência médica (número coincidente com participantes do Food Stamps). O custo do seguro saúde é muito alto e devido a precarização do emprego e mesmo sub-emprego impedia que esta faixa da população tivesse atendimento médico.

Porém o custo político foi desastroso, Obama foi pintado como “Bolchevique” Socialista que quer acabar com a livre iniciativa, a dura batalha no congresso foi divorciada da sociedade, um movimento Proto-Fascista, Tea Party, cresceu de forma assustadora, elegeu inclusive representantes no novo congresso.

Política externa ruim com de perda de poder e influência no mundo

A dura visão do Departamento de Estado, dominado pela Direita dos democratas, escolhe seus “inimigos”, o principal deles o Irã, mesmo com o refluxo no Iraque a aventura no oriente médio ainda é prioritária, atende a demanda da indústria bélica, do setor petrolífero, do militares e dos falcões de Israel.

Parece que nada mudou desde Bush Jr, a Sra. Clinton continua sua escalada de medo e ódio pelo mundo, Obama quase nada se diferencia, sua submissão é total ao que Hillary faz e desfaz.

Neste contexto cada dia mais a China cresce como pólo aglutinador de forças econômicas e alternativa de investimentos, em particular no chamado 3º mundo. Com 5 Trilhões de reservas cambiais, a China hoje é o principal credor americano, boa parte do destino do Dólar está nas mãos dos chineses.

Esta sensação de perda do poder hegemônico mundial é mais uma derrota do Governo Obama, a extrema dificuldade de dialogar com o mundo leva a um isolamento e o império apenas é reconhecido pelo poder militar.

Mesmo em relação ao G20, Obama/Hillary nada fez para se aproximar e quebrar a influência chinesa é inconcebível que Obama não tenha visitado o Brasil, o articulador mais dinâmico do G20. Este desprezo pelas relações diplomáticas torna a saída da crise americana mais distante ou em condições piores.

A recente desvalorização do Dólar apenas reforça a visão equivocada de G2 (EUA-China) fechando os olhos para o resto do mundo. Ao comprar a guerra cambial com a China, Obama fecha às portas para qualquer dialogo com o restante do G20, em particular com Brasil, Índia, Rússia e África do Sul

Falta de enfrentamento político com adversários



O surgimento de um movimento de extrema-direita nos EUA é reflexo da falta de combatividade de Obama, a complexa situação da economia, o empobrecimento crescente vistos à olhos nus, fez surgir no seio da classe média americana a Hybris do ódio e ressentimento.

Consubstanciado no caricato Tea Party algo parecido com típicos movimentos protofascistas que surgem na ebulição de grandes crises, em sínteses são ultraliberais contra governo, o de Obama em particular, contra impostos, saúde publica e que querem resgatar o “sonho americano”. No fundo não passa de mais um pesadelo.

Aqui mais uma vez houve a maior falha de Obama, ele não tomou para si às rédeas de seu governo, foi bombardeado internamente pelos Clintons,Nancy Pelosi e outros falcões democratas. Do lado de fora o combalido Partido Republicano ressurgiu mais forte e mais à direita, galvanizando a letargia e porque não a covardia do Governo Obama de enfrentar seus inimigos.

A imensa derrota nas eleições foi a maio senha de que Obama precisa agir com firmeza, afastar os adversários de dentro do Governo, ir ter com o povo diretamente sem meias medidas, talvez este momento seja muito parecido com o que Lula viveu na crise do Mensalão. Daquele momento em diante Lula assumiu seu destino, será que Obama assumirá o seu?ou será  um novo Jimmy Carter?

ANEXOS

Sobre Food Stamps


Artigo no Blog do Azenha sobre quantidade de participantes no programa

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

#DemocraciaDireta : Novo momento de velhos sonhos

Primeiro texto para começarmos a debater o conceito de Democracia Direta, rapidamente olhando Wikipédia temos esta definição de Democracia Direta:

“Uma democracia direta é qualquer forma de organização na qual todos os cidadãos podem participar diretamente no processo de tomada de decisões. As primeiras democracias da antiguidade foram democracias diretas. O exemplo mais marcante das primeiras democracias diretas é a de Atenas (e de outras cidades gregas), nas quais o Povo se reunia nas praças e ali tomava decisões políticas. Na Grécia antiga o "Povo" era composto por pessoas com título de cidadão ateniense. Porém, mulheres, escravos e mestiços não tinham direito a esse título, exclusivo para homens que fossem filhos e netos de atenienses.” ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Democracia_direta )

Como se concretizaria hoje o conceito de Democracia Direta? A internet em sua imensa possibilidade de aproximar e conectar pessoas e idéias é o campo fértil para exercício pleno de democracia, aqui nos despimos da “propriedade privada” das coisas e objetos. Todo trabalho intelectual produzido, elaborado, sofre a crítica imediata, a colaboração o aprimoramento e, muitas vezes, no descarte dela, por algo melhor ou mais inventivo.

Pouco mais de 2 meses atrás tivemos um encontro denominado de “Blogueiros Progressistas” que foi feita por uma iniciativa autônoma de alguns blogueiros e que houve uma grande participação desde seu nascedouro, as reuniões de pauta, as mesas, os convites, os deslocamentos nacionais até a sua vitoriosa execução. Vários estados já fizeram seus encontros locais, mantendo a chama acesa da idéia original. Sei também de vários outros encontros de twiteiros culturais pelo Brasil, que são iniciativas importantes neste novo ambiente das redes sociais.

O Brasil abraçou de forma grandiosa as redes sociais (Orkut, facebook, Twitter) com milhões de pessoas conectadas, se informando, debatendo, com todos os níveis de assuntos. Foi um palco importante na última campanha eleitoral, pois aqui se identificou uma nova “militância” bem como uma forma mais simples, rápida e Direta de se comunicar com as pessoas. É verdade que houve exageros, mau uso das ferramentas para difamar pessoas e grupos sócias,étnicos e regionais, mas isto também faz parte do contexto da expressão direta que as redes sociais possibilitam.

Criamos um amplo espaço de debate político, estético, cultural e educacional neste último ano e mais do que nunca devemos nos manter na trincheira deste movimento, nos conectando aos assuntos de ponta, das polêmicas mundiais, dos acontecimentos locais, não precisando ser tutelados por grupos de comunicações fortes com suas ideologias bizantinas.

Nosso grito de LIBERDADE de EXPRESSÃO é mais verdadeiro e sincero, pois não está preso aos grilhões das empresas de mídia que querem a liberdade de empresa não a de falar e dizer aquilo que queremos. Neste novo ambiente derrubamos armações, pequenos golpes com nossa velocidade de criarmos tags, produzirmos vídeos e textos que minimizaram impactos de “noticias” golpistas.

Diante do que vivemos proponho que nos agrupemos livremente para uma efetiva participação política, social e cultural naquilo que denomino de DEMOCRACIA DIRETA, sem meio termos ela se materializará nos seguintes termos:

1)    Incentivo aos Encontros locais e nacionais de Blogs;

2)    Incentivo aos Encontros de Twiteiros Culturais;

3)    Participação nos Twitcam dos mais diversos amigos da rede;

4)    Participação direta na elaboração e construção das conferências nacionais;

5)    Exigir que a Internet seja incluída como Direito Fundamental do cidadão;

6)    Lutar pelo Plano Nacional de banda Larga que seja imediatamente executado;

7)    Ampla rede de defesa das políticas publica que façam inclusão social;

8)    Exercer direito de resposta que a mídia nos nega;

São alguns pontos para o debate.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Dilma: Grande vitória política da Esquerda

Dilma: Grande vitória política da Esquerda


Brasil elege Dilma para ser

O que estava em jogo nesta eleição era a possibilidade de avançarmos o debate político-ideológico com as manifestações Neoliberais decadentes no mundo, mas que ainda resiste no Brasil num setor do centro-direita e com ampla campanha da imprensa local. Enquanto o mundo se desloca das alternativas de estado mínimo, a agenda da direita apoiada na imprensa é a mesma pré-setembro de 2008.

Pela primeira vez os projetos alternativos voltam ao palco no Brasil e no mundo depois de 19 anos de massacre e pensamento único, a Direita tinha seu projeto e era incontestável, hoje ela não tem projeto, apenas administra (mal e porcamente) a crise gigantesca, mas ainda não achou um novo cabedal político e ideológico para ancorar.

À esquerda na sua longa crise letargia ainda não forjou um novo paradigma na luta contra o capital, aqueles (trotskistas) que achavam que a revolução se abria não conseguiu encontrar seus “novos/velhos Soviets” nem a Direita achará seu “Estado de Bem estar Social”.

A questão é complexa para os dois lados, buscar teoria já testada é necessário, porém mundo não é o mesmo de 1917 e nem anos pós-guerra. Este é desafio da Direita e o nosso da Esquerda: entender o mundo parece secundário, mas ambos (direita e esquerda) dão respostas com receituário velho para novas doenças. Agora empatamos o jogo, estamos sem armas e certezas absolutas.

Claro que a situação é melhor já não sofremos o massacre político-ideológico destes últimos 20 anos, mas também não nos conforta saber que fomos incapazes de repensar nossos conceitos, nem o velho Marx conseguimos entender. Neste tempo todo não termos feito nada de concreto, alternativo, apenas resistir é muito pouco.

O Brasil e o neoliberalismo

Limitarei a falar sobre o período Lula, pois é mais que evidente que Collor/Itamar e mais ainda FHC abraçaram felizes o Neoliberalismo sem menor divergência com suas diretrizes.

Nenhum projeto político ficou imune a lógica Neoliberal, o do PT de Lula se adaptou a este mundo, mas por uma condição particular de extrema miséria e às doses cavalares do receituário neoliberal aplicados aqui, já se começava a gestar iniciativas tímidas de tentativas de fazer algo diferente à política dominante.

Dois fatores, para mim foram fundamentais:

1)       Diminuição da dependência americana, busca de novos parceiros comerciais;

2)      Rompimento com a política de privatizações, que preservou o Banco do Brasil a CEF e a Petrobras;

Mesmo sob críticas ferozes Lula buscou desde 2003 remar lentamente contra a maré, fez uma excelente política externa coordenada por Celso Amorim, aproximando da China, da África e uma aliança estratégica com a Europa, em particular com a França.

Impulsionou o G20 grupo que passou a ter voz ativa na OMC e fazer frente às demandas dos países centrais de maior exploração dos recursos destas nações e imposição de seus interesses de privatização e invasão de seus produtos.

A segunda política, a de parar as privatizações salvou um pouco do patrimônio público e deu margem de manobra para impulsionar uma política de desenvolvimento incentivado pelo Estado.

A Petrobrás que quase fora privatizada por US$ 3 bilhões em 1999, em janeiro 2003 tinha seu patrimônio em US$ 20 Bilhões, em janeiro de 2010 ela vale US$ 200 Bilhões e movimenta cerca de 10% do PIB, sendo hoje a quarta maior petroleira do mundo. Os ganhos do Pré-Sal podem definitivamente tirar o Brasil da miséria endêmica.

Cenário atual

Direita americana, mais radical é a religiosa, tratam Obama como Bolchevique, podem acreditar, está cada dia mais xenófoba e alguns estados aprovam leis mais restritivas aos imigrantes. Na França Sarkhozi que já estigmatizara os mulçumanos, agora quer deportar em massa os ciganos. Espanha, mesmo governada pelo PSOE, restringe os direitos dos estrangeiros, pois há um desemprego em massa.

No Brasil a esquerda brasileira (PT) ocupou um espectro mais amplo, tomou o centro do PSDB, sobrou apenas a Direita mais raivosa, fundamentalista a eles. Este deslocamento de forças e projetos, ainda não se deu por completo no imaginário popular, PT ainda é identificado como esquerda raivosa, muitos “absorveram” Lula, mas é fato que ainda temem o PT, isto é reforçado por um discurso extremamente preconceituoso de Serra, que afaga a Direita.

Mobilidade do PT rumo ao centro, independe de Lula, foi à realidade que o empurrou ao centro, para ter maior interlocução com outras forças que fazem o jogo político no Brasil, tirando do PSDB a hegemonia na sociedade.

Entender o que estava em jogo é mais importante das tarefas de cada militante e explicar pacientemente a cada um, as questões subjacentes aos grandes debates é que novas e velhas demandas aparecem ou reaparecem com força, mas não podemos nos agarrar a este debate menor e esquecer a luta principal.

Questões como aborto, liberdade de culto, de expressão são temas que cortam a sociedade, mas não poderiam ser o mote de qualquer resposta global às demandas mais prementes do Brasil.

O Significado da vitória de Dilma

É preciso reconhecer o grande gênio político de Lula que conseguiu trazer ao centro político uma Mulher como sua herdeira, que fez a síntese de um governo com grandes acertos histórico, apoio popular e identidade nacional. Governos que recupera a auto-estima o sentido de brasilidade.

Se com Lula tivemos um operário, sem curso superior, de origem extremamente humilde, que chega ao maior cargo do Brasil, com Dilma teremos o ineditismo de termos uma mulher na presidência, descontada a bobagem da Miriam Leitão de falar em Princesa Isabel, claro está que efetivamente, pela via popular e democrática as mulheres efetivamente chegam ao centro do poder nesta eleição.

Dilma traz em si as marcas do Governo Lula, sua participação decisiva já tratei num post que pode ser lido neste link “Presidencialismo à Francesa: Lula Presidente, Dilma Primeira-Ministra” http://arnobiorocha.wordpress.com/2009/11/23/presidencialismo-a-francesa-lula-presidente-dilma-primeira-ministra/


Agora Dilma fará seu próprio Governo que a meu ver será mais técnico, mais voltada para questões da reorganização do Estado, no seu discurso da vitória ela já aponta as principais diretrizes políticas e econômicas para o novo período.

A carga simbólica desta verdadeira revolução de termos Dilma Presidente é comparável à Obama, um negro, chegar a Casa Branca, fruto de um momento ímpar da história mundial. Brasil tem a chance de ingressar de vez no primeiro mundo, mas entrar pela porta da frente, sem modismos, ocupando seu lugar com força e liderança.

Caminho internacional traçado por Lula será bem percorrido e repisado no Governo Dilma, aprofundando nossos ganhos e projeção no mundo. Lula, acredito, será um embaixador informal do Brasil e dos países mais pobres no novo mundo.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Análise de Ilíada/Odisséia – Visão Psicológica

I – Introdução



No fim do ano passado consegui de um fôlego só consegui passar, para este Blog,  velhos escritos sobre Grécia Antiga que fui anotando em minha leituras, Fiz um resumo geral da Ilíada e Odisséia com pequenos cometários sobre cada uma delas, depois me propus a uma análise destas obras com suas implicações: Política, Psicológica e Educação.

Escrever sobre temas tão complexos não é simples e rápido, algumas vezes também as respostas ao que escrevo não nos estimula a continuar. As precárias condições de produzir é um fator a mais, sempre quando vem a inspiração passo da cabeça ao texto de fôlego único, falta-me tempo, pois escrevo ou em casa ou no intervalo do trabalho(alguns sabem da guinada da minha vida, desde que minha filha mais velha adoeceu, o tempo ficou mais escasso), nestas condições raramente é possível fazer revisão de estilo ou de correção de frases e erros gramaticais(blog é aberto quem quiser ajudar na redação, sinta-se à vontade). Na verdade escrever depois da doença dela passou a ser uma maneira de me abstrair das dores pelas quais passo no dia a dia, mas não escrevo por amargura, apenas para que ela possa, um dia saber o que realmente penso, ou do que gosto.

Mas como promessa é dívida, tentarei escrever sob o aspecto psicológico destas grandes obras, meu guia será o mestre Junito de Souza Brandão e sua monumental obra “Mitologia Grega Vol I,II e III”. Para um melhor entendimento do que passarei a tratar será importante, para quem não leu ainda ler ou reler os posts neste blog:





II – A questão do Mito



Alguns conceitos fundamentais se impõem para uma melhor compreensão da força da Mitologia Grega e suas mais profundas análises implicações no homem. Dentre estes, o próprio conceito de Mito, consciência coletiva, arquétipos etc. Seguirei o mesmo caminho do mestre Junito de Souza Brandão e sua inclinação à Jung de visão dos mitos gregos.

Já no prefácio ao livro Mitologia Grego o Dr Carlos Byington nos coloca as seguintes questões sobre o tema:

“Através do conceito de arquétipo, C. G. Jung abriu para a Psicologia a possibilidade de perceber nos mitos diferentes caminhos simbólicos para a formação da Consciência Coletiva. Nesse sentido, todos os símbolos existentes numa cultura e atuantes nas suas instituições são marcos do grande caminho da humanidade das trevas para a luz, do inconsciente para o consciente. Estes símbolos são as crenças, os costumes, as leis, as obras de arte, o conhecimento científico, os esportes, as festas, todas as atividades, enfim, que formam a identidade cultural. Dentre estes símbolos, os mitos têm lugar de destaque devido à profundidade e abrangência com que funcionam no grande e difícil processo de formação da Consciência Coletiva. “



Acrescenta ainda:

“Todavia, os arquétipos são ainda mais do que a matriz que forma os símbolos para estruturar a Consciência. Eles são também a fonte que os realimenta. Por isso, os mitos, além de gerarem padrões de comportamento humano, para vivermos criativamente, permanecem através da história como marcos referenciais através dos quais a Consciência pode voltar às suas raízes para se revigorar.”

E finaliza relacionado sobre a importância da mitologia grega para Cultura ocidental:

“Existe ainda algo extraordinário no estudo da Mitologia Grega, para o que gostaria de motivar a atenção do leitor. Trata-se de compreender a razão pela qual a Cultura Ocidental se voltou tão intensamente para a Grécia durante o Renascimento, o que muitos têm compreendido como um retrocesso ao paganismo e um conseqüente desvirtuamento do Cristianismo. No entretanto, lado a lado com a intolerância da Inquisição e sua obra repressiva das variáveis míticas (heresias), percebemos, no Renascimento, a Consciência da fé cristã, não só com os símbolos da religião greco-romana e egípcia, como com toda a sorte de crenças, superstições e magia. Foi nesta convivência entre religião, alquimia, astrologia e superstição que nasceu o humanismo europeu, útero e berço da ciência moderna. Não vejo nisso um retrocesso do Cristianismo e sim um avanço. A árvore mítica Judaico-Cristã foi buscar em outras culturas o material imaginário necessário para implantar a transição patriarcal do Self Cultural e encontrou, na Mitologia Grega, uma fonte inesgotável de símbolos de convivência com as forças da natureza. O Ocidente reencontrou na Grécia não só uma cornucópia de mitos matriarcais, como também inúmeros padrões mitológicos de convivência destes símbolos matriarcais com os patriarcais. Estes ingredientes foram indispensáveis para os gênios do Renascimento constituírem a ciência moderna, a partir da busca da espiritualidade Judaico-Cristã, aplicada às forças da natureza.”



Mesmo na Grécia antiga o Mito passou por um intenso debate pela necessidade de “desmitizar” estes deuses pecadores, vingativos, incestuosos. As correntes filosóficas pré-socráticas usou  o Logos (razão) para “provar” que os deuses de Homero e Hesíodo não são realmente divindades, pois a idéia de Deus é algo mais sério: "Há um deus acima de todos os deuses e homens: nem sua forma nem seu pensamento se assemelham aos dos mortais" (Xenofanes).

O Mito ainda passou por um processo de “Dicotimização” que não admitia variação do mito, ele era único e qualquer outra interpretação era livre conceito do poeta, não correspondendo a “verdade”, começando assim um processo de filtro em relação ao Mito.

Noutra ponta houve a necessidade de “politização” do Mito, obrigando que  este tivesse como ponto de passagem por Atenas, que vivia a efervescência de ser a Cidade-Estado principal, os mitos acabavam tendo que prestar culto em Atenas, descaracterizando a verdadeira “desordem” natural da criação.

Esta depuração quer pelo racionalismo, ou por fonte única ou ainda política e por último pelo materialismo do Epicuro e Demócrito, quase levaram a Mitologia a extinguir-se como fonte original criativa e elevada da cultura helênica.

Porém dois movimentos surgidos na prórpia Grécia (Alegorismo e Evemerismo)  meio que “salvaram” o mito ou criaram uma capa de proteção para que chegasse até hoje e, em muito, fosse incorporado no Rito Cristão dominante ocidental.

Junito nos apresenta os dois movimentos:

Alegorismo

“Já que os mitos não eram mais compreendidos literalmente, buscavam-se neles as (hypónoiai), isto é, as suposições, as significações ocultas, os subentendidos. Foi isto que, a partir do século I p.C, se denominou alegoria, que significa, etimologicamente, "dizer outra coisa", ou seja, o desvio do sentido próprio para uma acepção translata, ou mais claramente: alegoria é "uma espécie de máscara aplicada pelo autor à idéia que se propõe explicar". Teágenes de Régio, já no século VI a.C, tentara fazer uma exegese da poesia homérica com base na (hypónoia), mas somente no século IV a.C. é que a alegoria descobriu que os nomes dos deuses representavam sobretudo fenômenos naturais.

Assim é que o estóico Crisipo reduziu a mitologia a postulados físicos ou éticos. Homero e Hesíodo estão "salvos"; "salva" está a poesia e a arte, que poderão continuar a beber na fonte inesgotável do mito, embora alegorizado



Evemerismo



"O filósofo alexandrino Evêmero publicou uma obra, de que nos restam alguns fragmentos, intitulada (Hierà Anagraphé), História Sagrada, que, com o mesmo título, foi traduzida para o latim pelo poeta Quinto Ênio (239-169 a.C.). Trata-se de uma espécie de romance sob forma de viagem filosófica, no qual afirma Evêmero haver descoberto a origem dos deuses. Estes eram antigos reis e heróis divinizados e seus mitos não passavam de reminiscências, por vezes confusas, de suas façanhas na terra.

O Evemerismo, por conseguinte, nada mais é do que a tentativa de explicar o processo de apoteose de homens ilustres. Embora teoricamente antípoda do alegorismo, o Evemerismo muito contribuiu também para "salvar" a mitologia, injetando-lhe uma dose de caráter "histórico" e humano. Afinal, os deuses não passavam de transposições, através da apoteose e de reminiscência, um tanto desordenada, das gestas de reis e de heróis primitivos, personagens autenticamente histórica"







III - Definição do que: Mito



Nos ensina Junito de Souza Brandão sobre o que é o mito:





“o mito é o relato de um acontecimento ocorrido no tempo primordial, mediante a intervenção de entes sobrenaturais. Em outros termos, mito, consoante Mircea Eliade, é o relato de uma história verdadeira, ocorrida nos tempos dos princípio, illo tempôre, quando, com a interferência de entes sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o cosmo, ou tão-somente um fragmento, um monte, uma pedra, uma ilha, uma espécie animal ou vegetal, um comportamento humano. Mito é, pois, a narrativa de uma criação: conta-nos de que modo algo, que não era, começou a ser.



De outro lado, o mito é sempre uma representação coletiva, transmitida através de várias gerações e que relata uma explicação do mundo. Mito é, por conseguinte, a parole, a palavra "revelada", o dito.”

E por fim arremata:

“O mito expressa o mundo e a realidade humana, mas cuja essência é efetivamente uma representação coletiva, que chegou até nós através de várias gerações. E, na medida em que pretende explicar o mundo e o homem, isto é, a complexidade do real, o mito não pode ser lógico: ao revés, é ilógico e irracional. Abre-se como uma janela a todos os ventos; presta-se a todas as interpretações. Decifrar o mito é, pois, decifrar-se.”











IV - Homero e seus poemas: deuses, mitos



Numa visão bastante simplificada teríamos a Ilíada como à ida ao oriente, movimento de invasão a Ásia pelos Europa a Odisséia seria o retorno dos invasores com seus troféus de guerra.

Grosso modo, teríamos na visão de Junito sobre o significado das obras, com a qual concordo:

Odisséia

“A Odisséia, com os dez anos de peregrinação de Odysseús, o nosso Ulisses, em seu regresso ao lar, em Ítaca, após a destruição de Tróia, é bem diferente, do ponto de vista "histórico", da Ilíada



Ulisses teria sido o mascaramento da busca do estanho ao norte da Etrúria, com o descobrimento das rotas marítimas do Ocidente. Tratar-se-ia, desse modo, de uma genial ficção, embora assentada em esparsos fundamentos históricos, porque, no fundo, a Odisséia é o conto do nóstos, do retorno do esposo, da grande nostalgia de Ulisses. Este seria o ancestral dos velhos marinheiros, que haviam, heroicamente, explorado o mar desconhecido, cujas fábulas eram moeda corrente em todos os portos, do Oriente ao Ocidente: monstros, gigantes, ilhas flutuantes, ervas milagrosas, feiticeiras, ninfas, sereias e Ciclopes. . .”

Ilíada



“A Ilíada, ao revés, descreve um fato histórico, se bem que revestido de um engalanado maravilhoso poético. Na expressão, talvez um pouco "realista" de Page, o que o poema focaliza "são os próprios episódios do cerco de Ílion e ninguém pode lê-lo sem sentir que se trata, fundamentalmente, de um poema histórico. Os pormenores podem ser fictícios, mas a essência e as personagens, ao menos as principais, são reais. Os próprios gregos tinham isso como certo. Não punham em dúvida que houve uma Guerra de Tróia e existiram, na verdade, pessoas como Príamo e Heitor, Aquiles e Ájax, que, de um modo ou de outro, fizeram o que Homero lhes atribui. A civilização material e o pano-de-fundo político-social, se bem que não se assemelhem a coisa alguma conhecida ou lembrada nos períodos históricos, eram considerados pelos gregos como um painel real da Grécia da época micênica, aproximadamente 1.200 a.C, quando aconteceu o cerco de Tróia"

Ele ainda caracteriza a sociedade descrita por Homero:

“Homero fundiu estes três momentos culturais, mas não existe na Ilíada e na Odisséia nem evocação escrupulosa do passado, nem descrição exata do presente, mas a visão de um mundo ideal, composto de um passado micênico da Europa e de um presente homérico e asiático, amalgamados numa harmonia, que é realidade sem ser realidade, quer dizer, poesia e nada mais. Com efeito, os dois poemas homéricos, recheados de elementos religiosos, não são um código de vida, nem um cânon de fé. Trata-se de um documento religioso incomparável, mas imperfeito, porque omite; e parcial, mercê da liberdade com que são tratados os deuses: Zeus, Hera, Apoio, Atená. .. não passam, muitas vezes, de vagas reminiscências daquilo que realmente foram...



Para elas celebra os jogos, onde o vigor se conjuga com a nobreza. O preito da força e da beleza física, símbolos do herói, contraiu, desde Homero, núpcias indissolúveis com as qualidades do espírito: o kalón, o belo, e o agathón, o bom, eis aí a síntese de uma visão humanística que remonta à Ilíada e à Odisséia. Pois bem, o mundo dos deuses é a projeção dessa sociedade heróica e aristocrática. À autoridade de Agamêmnon e, não raro, à sua prepotência, correspondem a soberania e o despotismo de Zeus, assim como às revoltas dos heróis contra as arbitrariedades do "senhor" e rei de Micenas corre paralelo a manifestação de independência dos imortais contra a tirania do "senhor" e rei do Olimpo”







Junito faz painel dos deuses homéricos:

Zeus Deus Pai


"Zeus, sempre se começa por ele, é o deus indo-europeu, olímpico, patriarcal por excelência. Age ou deveria agir como árbitro, sobretudo na Ilíada, mas sua atuação é um pêndulo: oscila entre o estatuído pela Moîra(Destino-grifo meu), com a qual, por vezes, parece confundir-se, e suas preferências pessoais. Os Aqueus destruirão Tróia, ele o sabe, mas retarda quanto pode a ruína da cidadela de Príamo, porque prometera a Tétis "a vitória" dos Troianos, até que se dessem cabais satisfações à timé ofendida de Aquiles. Para cumprir seu desígnio é capaz de tudo: da mentira às ameaças mais contundentes. Na prova de força que dá no canto VIII, 11-27, quando proíbe os deuses de ajudarem no combate a Gregos e Troianos, ameaça lançar os recalcitrantes nas trevas eternas do Tártaro e afirma categoricamente que seu poder e força não maiores que a soma da força e do poder de todos os imortais reunidos! E desafia-os para uma competição. . . Todos se calam, porque perderam a voz, tal a violência do discurso de Zeus. Somente Atená, a filha do coração, após concordar com o poderio paterno e prestar-lhe total submissão (excelente psicóloga!), ousa pedir que os Aqueus ao menos não pereçam em massa. E Zeus sorriu e disse-lhe que fosse em paz, sem temor: com "a filha querida" ele desejava ser indulgente!

A personalidade de Zeus parece desenvolver-se em dois planos: como "preposto" da Moîra, na Ilíada, age como déspota; como chefe incontestável da família olímpica, busca quanto possível a conciliação."

Hera Esposa de Zeus


"Hera é a esposa rabugenta de Zeus. A deusa que nunca sorriu! Penetrando nos desígnios do marido, vive a fazer-lhe exigências e irrita-se profundamente quando não atendida com presteza. Para ela os fins sempre justificam os meios. Para atingi-los usa de todos os estratagemas a seu alcance: alia-se a outros deuses, bajula, ameaça, mente. Chegou mesmo a arquitetar uma comédia de amor, para poder fugir à severa proibição do esposo e ajudar os Aqueus.

Atraiu femininamente Zeus para os píncaros tranqüilos do monte Ida e lá, num ato de amor mais violento e quente que as batalhas que se travavam nas planícies de Tróia, prostrou o poderoso pai dos deuses e dos homens num sono profundo! É verdade que não raro Zeus manifesta por ela um profundo desprezo e surgem então as ameaças e afirmativas de domínio masculino, o que mais acentua a fraqueza e a insegurança do grande deus olímpico, porque tais ameaças nunca se cumprem. Conhecedor profundo do rancor, da irritabilidade e da insolência da esposa, Zeus procura evitar, quanto possível, as cenas de insubordinação e a linguagem crua e desabrida da filha de Crono. Esquiva-se ou busca harmonizar as coisas, dando a falsa impressão de que o destino dos mortais depende mais do humor de Hera do que da onipotência do esposo. Em relação aos demais deuses e aos heróis, a deusa não tem meios-termos: ama ou odeia e na consecução destes dois sentimentos vai até o fim. Tem-se visto no comportamento de Hera, a deusa dos amores legítimos, sobretudo na influência exercida sobre Zeus, o reflexo da poderosa deusa da fecundidade (e ela realmente o foi em Creta), a cujo lado o esposo divino desempenharia um papel muito secundário: apenas o de deus masculino fecundador. A cena de amor no monte Ida simbolizaria tão-somente uma hierogamia, isto é, uma união, um casamento sagrado, visando à fertilidade."







Palas Atená


"Atená é o outro lado de Hera no coração de Zeus. Nascida sem mãe, das meninges do deus, é, já se mostrou, a filha querida, cujos desejos e rogos, mais cedo ou mais tarde, são sempre atendidos e cujas rebeldias sempre entristecem, "pois estas lhe são tanto mais penosas quanto mais querida é a filha". O canto VIII da Ilíada está aí para mostrar quanto Atená, a deusa da inteligência, é a preferida e a mimada pelo senhor do Olimpo."









Apolo





"Apolo homérico é uma personagem divina em evolução. Ainda se está longe do deus da luz, do equilíbrio, do gnôthi s'autón, do conhece-te a ti mesmo, daquele que Platão denominou pátrios eksegetês, quer dizer, o exegeta nacional. O Apolo da Ilíada é um deus mais caseiro, um deus de santuário, uma divindade provinciana. Preso à sua cidade, comporta-se como um deus tipicamente asiático: é o deus de Tróia e lá permanece. Raramente lhe ultrapassa os limites e é, por isso mesmo, pouco freqüentador do Olimpo."

Posídon





"Poseídon é um deus amadurecido pelas lutas que travou, e sempre as perdeu, com seus irmãos imortais e com o próprio Zeus. O deus do mar, na Ilíada, tem como característica fundamental a prudência. Sempre que discorda, comunica-se primeiro com o irmão todo-poderoso e acata-lhe de imediato a decisão. Quando Hera planejou uma conjuração contra o esposo e convidou o deus do mar, este se irrita e responde-lhe que "Zeus é cem vezes mais forte do que todos os imortais". Mas, numa ausência prolongada do Olímpico, Posídon aproxima-se, observa e, vendo-se em segurança, admoesta e encoraja os Aqueus. Por fim, quando Hera adormece no Ida ao esposo, o deus entra diretamente na luta e se empenha tanto nos combates, que não percebe o despertar de Zeus. Foi necessário o envio de Íris para admoestá-lo. Posídon obedece in continenti e o Olímpico se felicita pela submissão do deus do tridente. Apesar de prudente e submisso a Zeus, é incrivelmente rancoroso com os mortais."

Tétis





"Tétis é uma poderosa deusa marinha. Sua residência é uma gruta submarina, mas com todas as prerrogativas devidas a uma imortal tão importante. Seu poder é tão grande junto a Zeus, que, para vingar a timé de Aquiles, os Aqueus serão derrotados até o canto XVII da Ilíada! Mãe acima de tudo, procurou evitar por todos os meios que o filho participasse da Guerra de Tróia, porque lhe conhecia o destino. Com a morte de Pátroclo, após tentar maternalmente consolar o inconsolável Aquiles, dirige-se à forja divina de Hefesto e de sua esposa Cáris. Com que dignidade e humildade, aos pés do deus, segurando-lhe os joelhos, pede, a quem tanto lhe deve, que fabrique novas armas para o Pelida (Il XVIII, 429-461). Talvez Tétis seja a mais humana das figuras divinas de Homero."





Hefesto





"Hefesto é o deus coxo. Por tentar socorrer sua mãe Hera, que brigava com Zeus, foi por este lançado do Olimpo no espaço vazio. O deus caiu na ilha de Lemnos e ficou aleijado. Foi Tétis quem o recolheu e levou para sua gruta submarina. Hefesto sofre as limitações de seu próprio físico e serve comumente de alvo de chacota para seus irmãos imortais. Já o vimos, em meio às gargalhadas de seus pares, claudicando atarefado pelos salões do Olimpo."



Ares





"Ares é o menos estimado dos deuses: pelos homens e pelos imortais. De deus da guerra, o amante de Afrodite torna-se nos poemas homéricos uma personagem de comédia. Falta-lhe ainda muito para ser o flagelo dos homens. Se na Odisséia fez o papel ridículo de sedutor punido, na Ilíada, após ser ferido por Diomedes, corre ao Olimpo, segundo se mostrou, para queixar-se a Zeus, de quem recebe ironias e insultos."



Afrodite





"Afrodite é o amor. Apenas amor. Seu protegido é Paris. Para ele quer Helena sempre pronta e de braços abertos para recebê-lo, mesmo quando o poltrão, que não resistiu ao primeiro ataque de Menelau, no combate singular do canto III da Ilíada, é envolto numa nuvem e transportado para "o quarto perfumado" de Helena."





V - Observações Finais

A intensa participação dos deuses nos eventos da Guerra de Tróia, suas múltiplas facetas, seus preferidos entre  cidades, príncipes e heróis alguns “filhos” de suas relações com mortais, trazem um painel diferente do distanciamento que temos hoje de Deus dos Homens.

Posteriormente a igreja católica usou deste artifício de aproximação do divino com os homens nas relações de “padroeiros”, vários deuses protetores foram substituídos por santidades, alguns inclusive usando as mesmas indumentárias, facilitando assim a “conquista” das comunidades pagãs.

A mitologia nos fascina, impressiona, em particular por esta codificação de valores e representação de algo que está em nós. A leitura dos grandes livros da Grécia Antiga nos torna melhor e mais humanos.