quarta-feira, 20 de abril de 2011

Crônicas do Japão IX: Tókio II-Harajuku e seus Rebeldes



A desrepressão da juventude japonesa, ou seu momento sublime de rebeldia, era feita em Harajuku, parte Oeste da cidade, local de belos e grandiosos prédios comerciais e vitrines. O conjunto que vai de Yoyogi até Ebisu, neste espaço congrega as grandes vitrines de Shibuya, os prédios gigantes de Shinjuku, é todo muito bonito e vistoso. É o lado oposto à baía de Tókio.

     

No Harajuku Park você encontra de tudo, menos gente careta. As figuras desfilam uns para os outros os mais estrambóticos vestidos, calças, casacos, sapatos, o mais importante é “causar”. Perfomance aos montes, casais vestidos de roqueiros anos 50, rapaz de costela à Elvis até visuais punks, góticos.


Aqui é o lugar do show, muitas cores, efeitos visuais, ninguém se incomoda com o que ver o exagero, não é exagero, é apenas visual. A música rola solta desde vitrolas fakes com rock de Elvis, ou a cantora J-pop da moda, em 1996, Namie Amuro, uma bela jovem de Okinawa, com seus cabelos amarelados e sua pele morena, um choque na Tókio branquela.

   

Namie Amuro é um caso à parte, pois venceu o preconceito dos bem nascidos de Tókio contra a rebelde ilha de Okinawa. Quando ela surgiu e estou no J-Pop foi algo grandioso aquela garota de 19 anos criou moda, mudou o mundo fashion, aquela pele bronzeada virou hit, os cabelos descoloridos, as saias curtas e longas botas, tudo isto virou febre para as Netchans (Jovens japonesas). Até hoje ela é vista como fenômeno. Seu estilo foi copiado pelos rapazes com os ídolos de futebol Maezono e outros que adotaram os cabelos descoloridos.

  

Harajuku respira justamente este jeito deslocado, tolerante, em contraponto a rígida sociedade japonesa. Costumo dizer que os fins de semana do parque é uma espécie de libertação destes jovens. Rebeldes nos fins de semana e doces na semana nas industrias, bancos, escritórios e nas escolas.

Crônicas do Japão VIII: Dekasseguis


Crise dos anos 90

Comecei a trabalhar numa empresa japonesa em 1989 todos os diretores eram japoneses vindos de lá, uma espécie de prêmio, pois dificilmente lá teriam a mesma chance de crescimento hierárquico, aqui significava uma vida de mais conforto e uma aposentadoria mais gorda, pois o cargo aqui era remunerado e tinha status do equivalente no Japão. Poucos brasileiros tinham funções dirigentes, o principal impeditivo era a língua, idioma oficioso na empresa era o Nihon-go.

Entre os meses de Fevereiro e Junho de 1990 no meu departamento ficamos sem novas obras de implantação de centrais telefônicas, apenas os contratos velhos estava em andamento, chegamos a ficar no escritório 90 a 100 técnicos e engenheiros amontoados em salas de reuniões. Mas aí aconteceu um fenômeno impressionante, destes quase 100 funcionários, 85 eram descendentes de japoneses, cerca de 60 pediu demissão e foram embora para o Japão, teve dias de saírem 5 funcionários.

A grande crise inflacionária do final do governo Sarney e o confisco da poupança do Collor foram o combustível para a grande emigração dos descendentes japoneses rumo a terra de seus bisavós, avós e eventualmente pais. Os chamados Dekasseguis brasileiros constituem-se como a maior colônia de brasileira na Ásia e terceira no mundo.

Dekassegui


Dekassegui é uma combinação de palavras japonesas Deru Sair) com Kasegu (buscar trabalho) que genericamente era usada para identificar os trabalhadores que saiam de províncias distantes(Hokkaido, Okinawa) e iam para cidades maiores(Tókio e Osaka) trabalhar principalmente nas colheitas, depois na industrialização acelerada,serviam de mão de obra barata, o termo é pejorativo, também significando “ladrão de emprego”.

O termo passou a designar os estrangeiros, descendentes ou não de japoneses, que chegaram a grandes levas na metade dos anos 80 ao Japão, devido ao grande crescimento econômico e a crescente sofisticação da sociedade japonesa, os empregos denominados: Sujos, Pesados e Perigosos, que eram abundantes e mal remunerados, passou a ser feito por estrangeiros, houve uma leva de iranianos para construção civil pesada. Mas a diferença cultural não permitia sua integração.


Com a crise generalizada na America Latina, Brasil, Argentina, Peru, que havia recebido grandes levas de japoneses no início do século XX, acabaram sendo ponto de recrutamento desta mão de obra complementar. Havia sinais de identificação cultural, laços com povo e um conhecimento rudimentar do idioma.

Brasileiros no Japão


Milhares de jovens e adultos largaram emprego, insegurança, família e foram em busca de dinheiro e conforto no país de seus ancestrais. Arregimentados ainda no Brasil por empresas terceirizadas das grandes empresas, muito já chegavam lá devendo meses de salários. A necessidade de cobrir estas despesas, além de moradia, o alto custo de vida, fazia com que estes brasileiros e latinos se submetessem a longas jornadas para receber a Zangyō (Hora extra).


A dura realidade não desanimou estes heróicos cidadãos, que aqui no Brasil eram vistos como japoneses, porém lá era apenas um cidadão de terceira categoria, muitas vezes desprezados por não dominarem a língua, assinavam contratos lesivos, jamais tinham chance de ascensão social. Os salários altíssimos para o padrão brasileiros, não chegava a um terço ou metade de um japonês nato, sendo apenas compensado com jornadas mais longas, cansativas e perigosas. Muitos sociólogos estudando a vida destes trabalhadores estrangeiros chegam a falar de “escravidão remunerada” em determinado sentido é isto que se percebia.

O mais incrível é que lá o sentido de brasilidade acabou criando uma colônia mais rica e solidária cheia de criatividade, vários pequenos mercados com produtos brasileiros em pequenos caminhões, ou em casas se disseminou. Viraram ponto de encontro de troca de idéias, de apoio aos que perdiam emprego ou passavam por apertos típicos de um país estrangeiro. Viraram a maior colônia que fala português na Ásia.

Lembro que os jornais brasileiros eram vendidos nas lojinhas com 3 dias de atraso e as novelas eram gravadas em fitas VHS e alugadas, parece até brincadeira. Os brasileiros fundaram jornais direcionados para colônia em português, fizeram um canal de TV com noticias em português e matérias sobre o Brasil, com o avanço da Internet e das TVs a cabo, tudo facilitou, mas em 1996 era uma maravilha ler uma revista brasileira lá.


A colônia criou carnavais brasileiros, restaurantes, clubes, escolas, praticamente todos à margem da sociedade japonesa, os casamentos quase sempre dentro da colônia, pois um japonês (a) nato não se mistura. Em 2005 chegou a ter 302 mil brasileiros (descendentes ou não) morando no Japão, devido a crise de 2008 e 2009, 50 mil voltaram, pois perderam praticamente tudo.


O sonho de ir ao Japão ficar 2 a 4 anos para muitos virou a vida inteira, famílias constituídas aqui foram abandonadas, com separação ou não, e nova construídas lá. Mas um fluxo de 1,5 a 2 Bilhões de Dólares ano é o resultado do trabalho dos brasileiros lá que mantém vínculos aqui. Alguns compraram casas, terras, terrenos aqui para no futuro voltarem para casa. Outros voltaram, mas não se adaptaram, muitos ficam no ir e voltar. O certo é que a colônia brasileira segue firme na sua luta dia a dia por sua afirmação no Japão.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Crônicas do Japão VII: Cotidiano e tecnologia


Rotina nos Trens



A rotina de quem anda de trem, trabalha ou estuda em Tókio e nas cidades grandes são desgastantes, pois, logo cedo os trens estão lotados, filas são imensas nas estações, cada vagão há um guarda todo paramentado, inclusive com luvas brancas que ao receber o sinal do controlador delicadamente empurra os últimos passageiros.


Trens cheios, poucos bancos, às vezes nenhum, uma coisa que choca um ocidental é que ninguém dar lugar nos bancos quer seja para mulheres, mesmo grávidas ou idosas. Certa feita eu cedi meu lugar a uma senhora ela recusou, eu insistir, até que ela se sentou, ficou espantada, porém ao meu lado, um cara começou a falar mal, mal sabia ele que eu entendia os impropérios, apenas porque dei meu lugar. Bem estas coisas culturais têm que aceitar e respeitar.


Havia também na época uma campanha por denuncia dos assédios sexuais nos trens, era muito comum os homens se aproveitarem dos vagões lotados e “passar a mão”, infelizmente pouca mulheres enfrentava aquele constrangimento e os denunciava, uma sociedade machista demais em que as mulheres se submetem a este tipo de humilhação.

Outra coisa muito curiosa e espetacular era a técnica de “dormir em pé”, caramba os caras literalmente dormiam durante os trajetos, mesmo mal acomodados, aquilo sim é técnica sofisticada de relaxamento, mais ainda, tinham um despertador automático de descer exatamente em suas respectivas estações... Quer dizer nunca confirmei se eles não tinham passado do ponto... Mas dormir em pé é sensacional.


 "Dormidor"

Mangas


Entrar no trem é ver milhares de Mangas abertos, as revistas populares com historias que vão de jogos de beisebol até as lutas de samurais, passando por moda, estilo de vida, as mais variadas e coloridas, que, invariavelmente, perdida no meio delas tem umas novelinhas eróticas, assim do nada, claro com os famosos “tapa sexo” (mosaicos).


(Pai)

Os Mangas ajudam no vocabulário e disseminação de uma língua muito complexa, rica em detalhes, seus ideogramas com significados próprios, algumas palavras com a mesma fonéticas, mas separadas radicalmente quando se ler o kanji, por exemplo, hospital e cabeleireiro têm o mesmo som, mas são escritos de forma totalmente diferentes. Estas sutilezas de uma língua com seus mais de 15 mil ideogramas precisam ser popularizados para amplo conhecimento, os mangas são excelentes neste aspecto. Curiosidade, apenas para se ler a capa de um Shibum (jornal) é preciso conhecer pelo menos 1000 Kanjis, para ler o jornal inteiro, uns 3000, um graduado numa universidade domina 10000. Como falei a língua é usada também como instrumento de dominação e de hierarquia, na sociedade, no trabalho, na vida.



Celulares

 

Já em 1996 os celulares eram muito populares no Japão, muito coloridos, tela com boa definição, porém ainda muito pequenas, os primeiros mangas para celular começavam a circular, em cima do SMS, as mensagens traziam curtos contos e figuras.

Recentemente com a explosão dos smartphones, da possibilidade de telas maiores os celulares vão paulatinamente concorrendo com os mangas, em 2009 o livro mais lido no Japão foi transmitido via celular, para mais de um milhão de aparelhos, o download era enviado principalmente na hora que se ia ao trabalho, capítulo a capítulo.


Desde daquela época as músicas também eram comercializados nos celulares, desde 2000 a maior fonte de lançamento de músicas no Japão são feitas via celular, as operadoras são as maiores distribuidoras de músicas, se paga pelo recebimento dos “single” que são convertidos imediatamente em ring tones.

As principais operadoras celulares são gigantes que investem pesado em tecnologia, antecipando tendências e gerações de celulares. Em 2000 a primeira versão da 3G, foi customizada para o Japão. Em 1996 havia 46 milhões de terminais, no Brasil naquela época não chegava 2 milhões, todos lá eram digitais, aqui caminhava-se com os terminais analógicos. Naquela época mesmo os EUA o celular ainda não era massivo, com menos de 20 milhões de terminais.

Por morar em residências muito pequenas, preço do metro quadrado nas grandes cidades é absurdo, tudo que se pode tornar minúsculo se fazia, os CDs, foram rapidamente substituídos por MDs de posteriormente pelo MP3, espaço é vital, TVs de Plasma, LCD, LED substituíram as de tubo, mesmo estas na época que morei eram bem reduzidos os tubos para ocuparem o menos espaço possível.


A revolução digital mais do que um luxo no Japão se tornou uma necessidade, aperfeiçoar produtos, facilitar armazenamento é fundamental, poderosos Notebooks, aqui era uma raridade em 1996, já era amplamente usado no Japão.

Crônicas do Japão VI: As torres de Tókio


Nec Supertower e baía de Tókio ao fundo

A popularização de prédios colossais foi uma moda na época que a economia japonesa estava em plena ascensão, em particular nos anos 80, as construções eram símbolo da pujança da empresa e do país, erguer edifícios “conceituais” virou uma forma de demonstrar quem é quem, prédios centrais das companhias japonesas viraram atração, tanto interna como externa. Seus imensos prédio, com os famosos mirantes rapidamente viraram febre de visitação para bater pelas fotos. Abaixo alguns que visitei em 1996.

Nec Supertower


Uma semana depois de ter ido a primeira vez a Tókio, fui fazer uma visita de boas vindas no prédio da Nec SuperTower em Tamachi. Fizemos toda uma preparação, pois o Head Office da empresa mundial tinha sido recém inaugurado e virou atração turística pela imensa torre, até então uma das mais alta da cidade.

A Nec SuperTower que tive o prazer de visitar era algo inacreditável, estamos falando de um prédio em 1996, cujos computadores de seus funcionários trabalhavam em rede, a Intaneto (Internet) ainda usava fraldas, mesmo no Japão, porém, lá,  a própria Nec,  produzia programas de WebTv que ao lado da tela de trabalho, geralmente telas grandes, divididas ao meio, os funcionários recebiam os releases OnLine. Aquilo era incrível, ao mesmo tempo em que você trabalhava, recebia notícias do mundo, lógico que as matérias eram seguimentadas, mas já era algo revolucionário.

O conceito de prédio inteligente era de cima a baixo, por exemplo, se alguém ia ficar além das 17:30, deveria comunicar a administração, através de memo(pré-email), qual temperatura e luminosidade gostaria para sua baia. O andar ficava com pouca iluminação e apenas nos locais em que havia gente a trabalhar maior claridade.

O Prédio era servido por uma estação própria de metrô, na época nos seus imensos 180 metros e 43 andares, trabalhavam 12 mil pessoas, entre o 35º e 37º havia um lindo jardim, uma beleza de criatividade e equilíbrio, deste andar em dias de tempo claro se via o Monte Fuji. Os elevadores inteligentes serviam a grupos de andares, porém acima do 37º apenas os executivos mundiais da empresa e visitantes ilustres.

Tókio Tower

 

Tokyo Tower

A Tókio Tower com seus 333 metros foi construída inspirada na Torre Eifel, lá é um concentrador de TVs, Rádios, links de rádios para celulares e internet. Inaugurada em 1958 e mais 150 milhões de pessoas já pagaram para admirar a cidade, nos seus dois mirantes (primeiro 150 metros, o segundo, especial nos 280 metros. É uma visão de tirar o fôlego.

Shinjuku - Prefeitura de Tókio

 TokyoMetropolitanGovernmentOffice.jpg

Tokyo Metropolitan Government Building



O conjunto arquitetônico da prefeitura de Tókio é belíssimo, localizado em Shinjuku, são vários prédios que convergem para o principal dar uma impressão de uma nau e seu mastro central que lhe capitaneia. Mede 242 metros, também aberto a visitação, paga, claro, nada lá é de graça. É uma visão oposta da Nec supertower e Tókio tower que ficam ao sul, este prédio fica na região norte da cidade. Só a ampliação do prédio da prefeitura em 2005 custou 1 bilhão de dólares, motivo de polêmica de gasto do dinheiro público.

Aliás, Shinjuku concentra várias e imponentes torres de grandes empresas privadas que rivaliza com prédio da prefeitura, como sede do grupo Sumitomo. Tem também as torres: Mitsui, Park tower, Opera City. Todas com mais de 200 metros de altura.

Tokyo Opera City cropped.jpg  

 Tokyo Opera City Tower                 Shinjuku Mitsui Building

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Crônicas do Japão IV: Um país nos "trilhos"




(Shinkansen ao fundo o Monte Fuji)

Trem

Sem dúvida os trens são o elo de ligação principal no Japão, quer seja nas grandes e populosas cidades, ou nas pequenas e médias, a infraestrutura de trens é impressionante e altamente necessário, pois as vias de deslocamento são rapidamente sufocadas pela imensa quantidade de carros, os trens apesar de cheios são mais rápidos e pontuais, facilitando a vida urbana.

Quando se mora no Japão é que se tem uma verdadeira noção de superpopulação em território pequeno, a cidade em que morava, Kashiwa, fica na província de Chiba, distam 28 km de Tókio, que pertence à outra província, todo percurso de trem (30 minutos) é totalmente povoado.( Kashiwa para Ueno (Tókio)


Tókio é uma cidade mega populosa vive em torno de 20 milhões de pessoas, num espaço territorial exíguo, só na parte central são 8,5 milhões de habitantes, em 23 distritos. Minha porta de entrada em Tókio era Ueno Station, em que se faz o Norikai (baldeação) de trens, saindo da linha interestadual para cair na Yamanote Line, uma linha de trem circular de que une os distritos centrais da cidade.

Yamanote Line



A Yamanote Line é uma obra genial de trem que une a cidade, cada estação é o transbordo das linhas de trens regionais, intermunicipais ou interestaduais, todas extremamente bem articuladas, as estações troncais principais são a imponente Tokyo Station, nó que articula o Shikansen (trem bala) que vai de norte a sul do Japão. E pelo lado oposto a estação de Shinjuku. Como a Yamonote Line é uma linha circular, há ainda as linhas de trens e de metrô (pouco popular) que corta pelo meio o círculo.

Aparentemente confuso à primeira vista, depois se percebe rapidamente a eficiência, a lógica e a precisão do sistema de trens em Tókio e por todo o Japão. As estações de trem são pontos de integração para outras linhas menores de trens e/ou de ônibus, concentram em cada uma delas prédios de estacionamentos de carros e de bicicletas. Muitos se deslocam aos trens a pé, bicicleta, carros ou ônibus aí entram nos trens sempre muito cheios, mas sempre no horário.

Os trens são antigos, sem luxo, poucos bancos, e uma coisa terrível – poluição visual, com banners de propagandas, anúncios luminosos, mídia de TVs – mas a pontualidade e a velocidade de deslocamento é o grande atrativo.

  

Detalhe é que são muitos caros, paga-se por estação, se você entra em Kashiwa e se vai até Tókio (Ueno, por exemplo) custava algo como 15 reais. Em geral compra-se um bilhete inicial de 130 Yenes( R$ 2,00) a medida que se avança paga-se mais. Ao se chegar à estação final há dezenas de máquinas de ajuste de valor, ela lê o bilhete inicial e recalcula a diferença que você tem que pagar, depois emite novo bilhete que permite seu desembarque. É simples, mas chato ficar fazendo ajuste. Para quem tem percurso fixo, casa ao trabalho, eles oferecem um bilhete com valores prévios mais baratos de uso mensal, economia de 15 a 30% de acordo com seu uso, além de evitar o transtorno do ajuste.


(máquinas de ajuste de passagens)

Shinkansen (trem bala) e JR pass


O turista pode comprar o JR Pass  (JR Pass informações ) , que custa, o mais barato, US$ 300 para usar por uma semana, não se pode comprar lá, tem que ser no país de origem. Ao chegar ao aeroporto de Narita ou Nagoya, tem que ir ao balcão da JR (olha a pronuncia JEIARO rs) trocar o voucher pelo Take que lhe permite usar todos os trens da JR, inclusive o Shinkansen, famoso trem bala. Uma viagem de Shinkansen de Tókio para Kyoto ida e volta custa mais de US$ 300 dólares.

O Shikansen é dividido em três categorias: Nozomi,Hikari e Kodama. Elas se referem ao deslocamento, a Kodama é a mais lenta, que pára de cidade em cidade, e nas grandes cidades em algumas estações. A Hikari pára apenas nas grandes cidades. Por fim a Nozomi ela percorre grandes distâncias quase sem paradas, por exemplo, de Tókio a Hiroshima 800 km, ele percorre em 3 horas. No Hikari 5 horas e no Kodama 8 horas.


Além disto, há serviço diferenciado dentro dos trens, também de acordo com a categoria, o que aumenta demais o valor da passagem. Mas você pode viajar na primeira classe, enquanto não vem o fiscal, quando têm poucos passageiros eles nem cobram o bilhete se pertence aquele tipo de vagão.


(Vagão Comum)


(Vagão Especial)

O JR Pass dar direito ao uso de Kodama e Hikari, para usar o Nozomi só com ajuste de preço no trecho (inviável). Conselho, foi o que fiz, ao sair de Tókio para longa distância use o Hikari, por exemplo, Tókio – Nagoya, mas se você está em Osaka e vai para Kyoto e Nara, use o Kodama, a oportunidade de viajar parando e admirando as cidades é muito melhor. Como não tem problema de reuso, você pode descer e voltar ao Shinkansen em várias cidades.

Carro e Ônibus


Andei de carro pouquíssimas vezes nos quase seis meses que morei no Japão, dirigindo nenhuma vez, pois eles adotaram a mão inglesa, ou seja, tudo invertido, sem chance. Mas o fator principal é que na região que morava e nos fins de semana que ia para Tókio é impossível andar de carro, tudo congestionado demais, deslocamento lento e cansativo. Taxi tem preço proibitivo não valendo a pena nunca seu uso.


Ônibus também é um meio de transporte que pouco usei, apenas em pequenos deslocamentos de bairros, ou integração do trem à fabrica, devido ao trânsito intenso não dar para usar.

Fiz dois passeios de ônibus pela empresa, um para Hakone e outro para Kanagawa, durante fins de semanas, mas sentia como é torturante os congestionamentos, inclusive nos postos de ponto de apoio, claro é bem confortável ir de ônibus até bem próximo ao Monte Fuji, mas o cansaço não compensa. Em Tókio via ônibus, mas quase sempre era de turismo.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Crônicas do Japão III: Mundo do Trabalho I

Ainda no Brasil



Um esclarecimento prévio trabalhava desde 1989 em empresas japonesas do grupo Nec, grande fabricante de equipamentos de Telecomunicações, mais especificamente trabalhava na área de engenharia, primeiro em implantação de centrais telefônicas rede fixa, morei em 8 estados do Brasil, depois com Telefonia Celular, trabalhava na parte de software aplicado, dados dinâmicos de centrais telefônicas.

A ida ao Japão foi devido à nova geração de centrais da Nec, o Brasil ainda participava deste processo de desenvolvimento de equipamento, éramos mais 100 engenheiros e técnicos a ajudar, aprender e participar da transferência de tecnologia, antes do Brasil virar apenas “maquiador” de produtos ou só implantar o que já vem fabricado.

Portanto o método de trabalho, a hierarquia, a lógica de funcionamento de uma empresa japonesa eu conhecia bastante, pois eles reproduziam a mesma filosofia aqui no Brasil. Claro que há sempre algo mais quando se está na casa deles.

Mitos e roupas


O primeiro mito que caiu por terra foi que as jornadas de trabalho no Japão eram longas, chegamos ao escritório as 7:30 como fazíamos no Brasil, prédio fechado, inicio do trabalho as 9:00, pensamos, deve ser compensado no fim do dia, talvez pelas distancias estas coisas, que nada, as 17:30 era encerrado o expediente, portanto jornada de 7 horas e meia por dia, uma hora e 18 minutos a menos do que no Brasil. Fenômeno das jornadas longas são as horas extras que muitos fazem para aumentar o salário, outros ficam no escritório enquanto o chefe está lá, abaixo falarei de hierarquia.

Outro impacto foi que tínhamos que trabalhar de paletó e gravata, não importava se era no escritório, no laboratório (em que manipulávamos cabos de centrais, remoção de placas, ajuste de fitas magnéticas), todos usavam com cores escuras, preto ou azul marinho, mais ousado cinza, camisa branca e gravatas discretas. Imaginem olhar e lembrar que aqui só chefe graduado usava vestimentas formais. Detalhe, chegamos bem no início do verão, vocês não tem idéia o que o verão japonês, temperatura alta, mais de 34 graus, constante e muito, mais muito úmido além de sujo, uma crosta de poluição a sensação de que você está sujo sempre, nas ruas os caras usavam uma toalhinha no pescoço que pela manhã era branca, para limpar o suor e a sujeira.

Por sorte o hotel ficava apenas duas quadras deste escritório de engenharia da empresa, em íamos fazer treinamento e desenvolver nossas atividades nos próximos meses, eventualmente iríamos para fábrica que ficava numa cidade próxima. Então no almoço às vezes ia tomar uma ducha.


No caminho passávamos pela estação de Kashiwa, aí sim a certeza que estávamos quase noutro mundo. A visão que tinha era de que todos se pareciam demais, Japão é um país muito homogêneo, pouquíssima mistura, o modo de se vestir para ir ao trabalho contribuía para esta aparência comum, homens de paletó e gravata, como falei escuro e camisa branca. As mulheres com vestidos quase sempre preto ou pastel, salto alto, com um número a mais, que dava a impressão que surfavam sobre eles e que cairiam a qualquer instante. Aquela multidão, já 1996, com milhões de celulares em suas mãos, era uma massa uniforme demais, para meus olhos.

Hierarquia


O escritório, ou a fábrica, é a síntese da sociedade japonesa hierarquizada a disposição das mesas e a distribuição dos funcionários reflete exatamente isto. No nosso caso era uma ampla sala quase o andar de um prédio médio, tipo 40 m por 25 m, longas mesas funcionavam como divisórias, quem se sentava à cabeceira era o Shunin (Chefe de seção) e quem se senta mais próximo dele é que lhe sucederá. Quanto mais longe dele, mais novo de empresa ou de função, eram os últimos da cadeia alimentar.

As mesas à frente destas mesas/divisórias, também revelam a hierarquia quanto mais central maior o cargo, as das extremidades eram de Katchos(Gerente acima dos chefes de seções) e se aproximando do centro as de Butchos (Diretores) até a central de RonButcho (Superintendente). Havia umas mesas isolada nas extremidades que eram ocupadas por aposentados, que se mantinham na ativa, muitas vezes sem remuneração, apenas para ir ao escritório e não ficar em casa.

O esta hierarquia social começa desde a escola, lá é incutida na criança a obediência, o garoto do 1º ano obedece ao do 2º e por ai vai. Isto facilita o controle social rígido a certeza de coesão e pouco ou quase nenhum questionamento, quer seja na escola ou no trabalho, muitas vezes via uns jovens, nas ruas, de cabelos espetados, roupas extravagantes, mas na segunda feira estavam lá sentados comportados no escritório.

A ascensão social na empresa era extremamente controlada, cargo a cargo, não tinha como “furar a fila”, mesmo que fosse mais brilhante, tinha que esperar as provas internas para se mudar de cargo, na época demorava até 9 anos para se subir de cargo. As provas para subir de cargos eram basicamente de língua japonesa, quanto maior cargo, mais e novas palavras tinham que ser incorporadas ao vocabulário, torna-se mais polido no trato entre si.

Espantava-me quando eles atendiam ao telefone e tinha uma seqüência de saudação: 1) Nome da Empresa somando ao sufixo San; Nome dele; 3) cargo que ocupava – pois isto definia a hierarquia da conversa, as palavras usadas e/ou a submissão de um ao outro, ou relação de iguais, inclusive até a hierarquia entre as empresas. Só uma observação atenta percebia-se estas sutis relações de poder e mando.

Outro costume que aprendemos é que aquele que visita tem que levar Omiaguê (presente) que também deve ser hierarquizado, não é pela razão de preferência sentimental e sim no âmbito corporativo de acordo com o cargo. Compramos vários litros de Uísque para os diretores, depois presentes menores até os tradicionais chocolates para os demais. Mas, não dar Omiaguê é uma ofensa.